Antigo dilema da esquerda: o caso do Brasil criar PDF versão para impressão
11-Abr-2010

Immanuel WallersteinPor ocasião do 30º aniversário da criação do Partido dos Trabalhadores (PT) do Brasil, o principal jornal independente de esquerda, o Brasil de Fato, publicou entrevistas com quatro dos principais intelectuais de esquerda do Brasil. Todos os quatro já foram activos no PT, e estiveram entre os seus fundadores. Três deles saíram do partido - o historiador Mauro Iasi para entrar no Partido Comunista Brasileiro (PCB); o sociólogo Francisco de Oliveira para aderir ao Partido Socialismo e Liberdade (PSOL); e o historiador Rudá Ricci passou a ser independente; o quarto, o historiador Valter Pomar, permanece no PT como um dos dirigentes da sua ala esquerda.

Eles fizeram análises muito diferentes daquilo que Ricci chamou de "o antigo dilema da esquerda brasileira - como ser ao mesmo tempo popular e de esquerda". Mas este tem sido evidentemente o dilema da esquerda em todo o mundo, e permanece actual até hoje.

O Brasil é um lugar interessante para analisar este dilema e as opções que apresenta. É um país com uma longa e activa tradição política, onde vigora hoje uma situação multipartidária. O Brasil é também um país cuja situação económica melhorou muito em anos recentes, particularmente na última década. E o Brasil é um país que tem vindo a afirmar muita liderança política na América Latina. Assim, a questão é: como medimos a "popularidade" de um partido e como avaliamos as suas credenciais de esquerda?

O entrevistador do Brasil de Fato abriu a sua entrevista observando que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (Lula) é uma figura carismática, o presidente mais popular desde a redemocratização do país, e que, na sua história, o PT aumentou o seu apoio entre os estratos mais pobres da população. Para o PT se tornar mais popular, afirmou, "teve de fazer concessões ao pragmatismo".

Como reagiram os quatro intelectuais a esta premissa? Para Ricci, o "lulismo" tornou-se mais importante que o partido, o que inverte a concepção original do PT. O PT tornou-se, diz, "americanizado". Hoje, é apenas uma máquina eleitoral. A esquerda brasileira tem dificuldades para se tornar popular em virtude "do lastro teórico de origem europeia". A cultura popular, diz, é "complexa e conservadora", e Lula dialoga com esta cultura popular. O PT é estatista e desenvolvimentista, logo conservador e pragmático. Por isso o problema é o regresso à "utopia de uma esquerda democrática, sem se tornar elitista", do PT original.

Para Iasi, o PT tornou-se um dos dois principais partidos do Brasil, um partido de centro-esquerda com um programa "pequeno-burguês". O preço que pagou pela dimensão do seu apoio foi o "abandono dos princípios e metas políticas que estavam presentes em sua origem". O "lulismo" ou o "populismo" é um modo de fazer com que as massas concordem com políticas que não são do seu interesse.

Para Oliveira, o PT que se lançou com base nos trabalhadores, na teologia da libertação e nos movimentos de democratização tornou-se simplesmente parte da "geleia geral" do sistema político brasileiro. Um perspectiva socialista não se baseia nos "pobres", mas numa análise de classe. Quanto ao programa de estatização do PT, está cem anos desactualizado, parte da "doença infantil do estatismo". É um programa para fortalecer as indústrias brasileiras e nada tem a ver com a esquerda ou o socialismo.

Pomar vê a situação de forma bastante diferente. Ele está de acordo que no início o governo Lula tinha uma orientação social-liberal. Mas, depois de 2005, o partido virou à esquerda. É verdade, diz, o partido é desenvolvimentista. Mas há duas variedades de desenvolvimentistas – os conservadores e os democrático-populares. Com a crise do capitalismo, “o socialismo voltou ao debate”.

O que chama a atenção nestas três análises críticas é o medo do "populismo". O que chama a atenção em todas as quatro análises é a falta de qualquer discussão de geopolítica.

Poucos dias depois do artigo do Brasil de Fato, Fidel Castro publicou uma das suas regulares "Reflexões" no La Jornada do México. Lula tinha acabado de visitar Castro. Este disse que conheceu Lula há 30 anos, quer dizer, desde a fundação do PT. Dada a história de Cuba e as dificuldades dos últimos 50 anos, Castro disse que o que era "transcendentalmente importante para nós" era o recente encontro em Cancún onde foi decidido criar a Comunidade de Estados da América Latina e das Caraíbas, que incluiu Cuba e excluiu os Estados Unidos e o Canadá. Este encontro foi em grande medida obra de Lula.

Castro prosseguiu sublinhando a "importância e o simbolismo" desta última visita de Lula antes de deixar de ser presidente do Brasil. Recordou o seu "emotivo encontro com ele, a sua esposa e os seus filhos" na sua residência simples nos anos 80 e louvou o prazer de Lula "na luta que ele dirigia com irrepreensível modéstia". Aqui não há críticas ao lulismo.

Tudo o que os intelectuais de esquerda brasileiros criticaram, Castro louvou - o desenvolvimento tecnológico do Brasil, o crescimento do PIB, tornando-se uma das dez maiores economias do mundo. Mesmo na questão da produção de etanol, à qual Castro diz opor-se, não culpou Lula. "Compreendo perfeitamente que o Brasil não tem outra alternativa, face à competição desleal dos subsídios nos Estados Unidos e na Europa, senão aumentar a sua produção de etanol."

Castro termina com esta nota: "Uma coisa é indiscutível: o operário metalúrgico converteu-se actualmente num estadista destacado e prestigioso cuja voz se escuta com respeito em todas as reuniões internacionais."

Como puderam os intelectuais de esquerda brasileiros e Castro desenhar imagens tão diferentes de Lula? É claro que estavam a olhar para duas coisas totalmente diferentes. Os intelectuais de esquerda brasileiros estavam a olhar principalmente para a vida interna do Brasil e a lamentar o facto de Lula nada mais ser do que, na melhor hipótese, um pragmático de centro-esquerda. Castro olhava principalmente para o papel geopolítico do Brasil e de Lula, que ele vê como sendo de enfraquecer o principal inimigo, o imperialismo dos Estados Unidos.

Qual é então a prioridade dos políticos de esquerda? Não se trata meramente de uma questão brasileira. É uma questão que pode ser colocada em quase todo o lado, levando em conta, evidentemente, a história e o estatuto geopolítico do país em causa.

Immanuel Wallerstein

Comentário n.º 277, 15 de Março de 2010

Tradução de Luis Leiria

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