Os nossos políticos do sistema,
revelam-se incapazes de pensar a coisa pública e social livremente
e em profundidade.
Artigo do nosso leitor António Leite
O período de todos os radicalismos
- A 13/01/2009 - em plena tormenta -
o Secretário da ONU multiplicava-se em apelos. Afirmava: falta
alguém para "iniciar a liderança do processo de reestruturação
da economia mundial", acrescentando, o "B.M. e o FMI nada
fizeram, a OCDE também não, o G7 nada - estamos à espera que
algém do G20 assuma essa liderança...".
Estes, parece, não terem ficado
indiferentes ao apelo. Assim no final da cimeira dos G20, em Londres
a 02/04/2009, emitiram uma declaração, onde constava:
- "... exigência de transparência,
contra a opacidade ...",
- "... combate aos off-shores ..."
(A OCDE apontou uma lista de países não cooperativos na troca de
informações fiscais),
- "... o sigilo bancário do passado
tem de acabar ...".
- "... exigência de registo de
movimentos de capitais ...",
- "... defesa de uma regulação
financeira eficaz ...",
- "... estender a supervisão a
agências de supervisão de classificação de risco de crédito
...".
(embora possa parecer, o que acima se
encontra escrito não foi retirado do programa do BE (nem do do PC),
são, sim, transcrições praticamente literais, da referida
declaração dos G20).
- O "observador da santa sé" junto
da ONU, defendia a 26/06/2009 - numa intervenção nesta
organização:
- "... a necessidade de um
desenvolvimento financeiro sustentável ...",
- "... regulamentação para garantir
transparência global e o controlo a todos os níveis do sistema
financeiro...".
- Sarkozy - falava (pela mesma
altura) da necessidade de "um mundo novo" ...
- O Sr. Van Zeller, defendia num "prós
e contras" (após a crise já ser declarada uma evidência), que o
Estado devia passar a intervir na economia - fazendo antever que na
intervenção seguinte iria defender os planos quinquenais ...
Estava-se, é claro, a assistir à
chegada das, alterosas vagas, que, ameaçavam tragar os
continentes...
Mas o registo iria mudar ...
Da negação
Cabe aqui citar o provérbio; "só te
lembras de santa Bárbara quando faz trovões" ... De facto à mais
ligeira abertura no denso e negro horizonte, entra-se num processo de
rejeição, do anteriormente afirmado e defendido.
- Por um lado trata-se não só de
rejeitar as anteriores mensagens - recalcando-as para obscuras
instâncias - como de simultaneamente abater os mensageiros.
- Trata-se por outro de garantir que
nada mudará.
- Ganhando corpo uma reacção
conservadora.
É neste registo que todos os epítetos
- contra quem possa ser identificado com as anteriores ideias de
mudança - são permitidos.
(Usam e abusam de epítetos - com
óbvias intenções depreciativas - como; "esquerda radical",
"extrema esquerda", "partidos sem ambição de governar -
logo irresponsáveis" , etc, etc,.. - Por exemplo; Saldanha
Sanches numa entrevista televisiva, frente a um dirigente do CDS e
ladeado por Mário Crespo (no fim de 2009 ou início de 2010),
afirmava que "...o BE e o PC não, que são partidos
‘anti-sistema', mas que o PSD e o CDS tinham um contributo a dar
para a aprovação do Orçamento (de Estado) ...".
Tudo vale neste jogo de espelhos, tal é
o empenho em confundir, baralhar e assustar - lançando nuvens de
fumo sobre mentes desprevenidas e/ou incautas.
Querendo fazer esquecer, que se
existem, no actual panorama, irresponsáveis; eles são os
responsáveis políticos, pela queda no abismo.
Foram eles que nos últimos 25 anos,
santificaram os mercados, fecharam os olhos às suas regras -
praticando o "laissez faire, laissez passer" -, enquanto
defendiam o estado mínimo.
Pretendem agora os partidos "do
sistema", aparecer como os (responsáveis) salvadores da queda
capitalista - de que foram co-responsáveis. Quais personagens
burlescas de uma qualquer ópera-bufa de mau gosto.
Opções
Hegel afirmou que, liberdade, autonomia
e desinteresse são condição de todo o pensamento especulativo.
Os nossos políticos do sistema,
revelam-se incapazes de pensar a coisa pública e social livremente e
em profundidade. (Assumindo-se como meros gestores do sistema).
Agrilhoados que estão a teias de interesses privados, e tolhidos por
preconceitos ideológicos.
Falta-lhes a autonomia e o
desinteresse, que permite tudo pensar e tudo questionar.
Os "partidos do sistema",
revelam-se prisioneiros de um conservadorismo atávico, paralizante e
estagnante..
Se dúvidas houvesse, bastaria ouvir as
propostas em torno do Orçamento de Estado. Assistindo-se à retoma
da cartilha neo-liberal, e, das receitas de sempre.
Neste processo os partidos do arco da
governabilidade, acotovelam-se a adquirir protagonismo -
pretendendo garantir aos interesses instalados, que continuarão
intocáveis, seja qual for o custo...
Os contornos da receita revelam-se;
mais austeridade. Pondo a maioria (significativamente empobrecida -
e contribuindo, desta forma, para o agravamento das desigualdades
sociais) a pagar os desvarios, a especulação, as fraudes e os
crimes vários de capitalistas e do seu "sistema". Para a pôr
em prática conta-se, é claro, com os partidos do "sistema",
reunidos em torno do seu departamento de promoção de negócios -
intitulado ... "governo".
Portugal é (como é sabido), um dos
países (europeus) cimeiros nas desigualdades sociais.
As propostas (da esquerda), de combate
a essas desigualdades, de uma maior justiça económica e de um
combate efectivo à corrupção e à fraude, esbarraram sempre (no
passado), e, continuam a esbarrar (no presente), no muro de
resistência do poder político.
(No início de 2010; os media
noticiavam que o lucro diário dos 5 maiores bancos nacionais,
durante o ano de 2009 - com a crise plenamente instalada - ascendeu
a 4,8 milhões de €).
Acena este mesmo poder político, com
esfarrapados argumentos, não permitindo que se adoptem medidas,
aplicadas, afinal, noutros países europeus (onde são governo os
seus congéneres políticos).
Os nossos neo-liberais, têm de
diferente de outros, a maior temeridade perante interesses
instalados.
Os partidos do poder pretendem
continuar a privatizar lucros e benefícios (a favor de alguns) -
numa espécie de orgia promíscua de interesses -, desbaratando bens
e recursos públicos - que deveriam promover a melhoria da
qualidade de vida da maioria...
(Esta distribuição de mais valias e
de rendas - por parte do Estado (convertido em departamento de
negócios do regime) - a empresários e privados, tem levado,
economistas ortodoxos, da área do poder político, a classificar o
regime de "capitalismo sem riscos" - para os capitalistas é
claro).
(Acrescentaria que no seu último
governo absolutista, o PS (à semelhança de todos os (des)governos
anteriores), multiplicou como cogumelos, as PPP e outros contratos
com privados, em negócios, frequentemente obscuros, e,
invariavelmente, ruinosos para o Estado - leia-se; para todos nós
...).
Saliente-se que o mesmo governo
absolutista, abriu ainda caminho, à privatização da água, do
ensino superior público e das estradas (ultrapassando tudo o
anteriormente feito).
- O "Público" de 15/06/2009,
noticiava; que o consórcio Amorim Energia - após a privatização
da GALP, e desde que entrou no seu capital - já tinha arrecadado
330 milhões de € em dividendos brutos (em apenas cerca de 4 anos)
(notícia acompanhada da imagem de um Américo Amorim rasgadamente
sorridente). A Sonangol 90 milhões e Isabel dos Santos (a 4ª maior
accionista) 56 milhões.
Com a privatização da GALP, o estado
catapultou Amorim para o 1º lugar do podium dos mais ricos do país.
Que acham os leitores?, excelente
distribuição esta que subtrai recursos, públicos, à maioria,
entregando-os a um pequeno grupo - qual política anti-Robin dos
bosques !!!...
Eu anotaria aqui que;
Etimologicamente (como se sabe),
radical significa; referente à raiz, essencial ...
Historicamente o termo foi aplicado a
organizações ou movimentos, vários, que preconizavam reformas
profundas, como por exemplo os defensores do sufrágio universal
(entre outros)...
- No fundo, para os políticos do
"sistema", toda a história já se encontra escrita (quanto muito
há um ou outro retoque cosmético a dar)!.
- Aos que à cerca de um ano
perguntavam se se estava a assistir ao fim do capitalismo? - É
possível hoje responder: Não!
- Cabe hoje colocar outra pergunta:
Poderá o capitalismo reformar-se?
- Será, afinal, o capitalismo
reformável?
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