Haiti precisa de investimentos permanentes criar PDF versão para impressão
27-Abr-2010
Destruição no Haiti. Foto de newbeatphoto, FlickRO auxílio que chega em épocas de catástrofe deve adquirir uma forma estrutural de médio e longo prazo, diz José Luis Patrola, que actua no Haiti pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra.

O panorama é perverso: análises de economistas e dirigentes de organizações camponesas mostram que a ajuda internacional, motivada pelos desastres naturais, aumenta o grau de dependência das importações e não permite o fortalecimento da produção agrícola haitiana, conforme explicou em entrevista ao Opera Mundi José Luis Patrola, professor de História, membro do MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem-Terra) e coordenador do programa de cooperação entre a Via Campesina do Brasil e organizações camponesas do Haiti. Segundo Patrola, até os anos 1990, os camponeses eram responsáveis pela produção de 80% dos alimentos consumidos pela sociedade. Hoje, produzem somente 45%.

Qual foi a reacção das pessoas após o governo haitiano pedir para que todos que tivessem parentes fora de Porto Príncipe saíssem da capital?

A concentração de gente na região de Porto Príncipe é enorme. Como o terremoto atingiu principalmente essa zona, houve uma mudança radical na vida de todos. Centenas de milhares de pessoas que perderam as casas ou que estavam nuuma situação difícil antes do terremoto montaram enormes acampamentos em todas as praças da região metropolitana, em especial a Cham de Mas, localizada em frente ao palácio nacional. Outra parte migrou massivamente para as zonas rurais, fugindo do terror e à procura de comida, moradia, água e o mínimo de abrigo. Estima-se que de 600 mil a um milhão de pessoas abandonaram Porto Príncipe. Em resumo, mais de 250 mil pessoas morreram no terremoto e um milhão migrou em busca de outras zonas. Um desastre sem precedentes.

Como é a situação socioeconómica no campo haitiano?

A área rural haitiana, que acolhe mais de 65% da população e é responsável por grande parte da economia, é muito pobre. As poucas terras férteis do país são dividas entre muitos camponeses. Cerca de 75% do território é montanhoso. Por uma série de factores ligados à abertura comercial, o campo haitiano tem sofrido bastante. Actualmente, mais de 55% dos alimentos consumidos no país são importados. No entanto, as organizações camponesas temem a invasão de sementes híbridas e transgénicas como medida de combate à fome.

Quais são os principais produtos cultivados no Haiti?

Até aos anos 1990, os camponeses haitianos eram responsáveis pela produção de 80% dos alimentos consumidos pela sociedade. Da produção de leite, legumes e grãos, até géneros industrializados, existia uma economia agrícola razoável. Depois da abertura comercial e as importações, o sustento dos agricultores acabou. Hoje em dia, apesar de os camponeses cumprirem um papel importante na economia nacional, há uma crise, agravada pela degradação das terras e a erosão do solo. Esses problemas surgiram pelo desmatamento desenfreado, motivado pelo consumo de carvão vegetal como combustível.

Os camponeses conseguem sustentar-se com a produção?

A precariedade do sistema de transporte e as dificuldades em comercializar os seus produtos provocaram o aumento da pobreza. Os camponeses são a categoria mais pobre e explorada da sociedade. Muitas vezes se alimentam mal e destroem as florestas, por causa do carvão, que acaba por ser a única maneira de gerar rendimento.

A doação de alimentos por estrangeiros tem qual efeito na produção local?

Análises de economistas e de dirigentes das organizações camponesas mostram que a ajuda internacional, motivada pelos desastres naturais, aumenta o grau de dependência das importações e não permite o fortalecimento da produção nacional. É verdade que, em momentos de crise, a ajuda humanitária é importante. No entanto, ela precisa de ser transformada em ajuda estrutural no médio e no longo prazo. O Haiti é um país que sofre muito pela ausência de soberania económica, política e alimentar. O terremoto comprovou uma vez mais essa terrível realidade.

Apesar de ser um país ainda bastante rural, a representatividade política das massas rurais é fraca. Isso pode mudar depois do terremoto?

Toda a sociedade haitiana está a transformar-se desde o terremoto. Até onde chegará esse grau de transformação "espontâneo" é uma incógnita. Existe uma elite política que concentra as suas preocupações nos processos eleitorais. As últimas eleições tiveram uma participação de apenas 8% dos eleitores. Há uma descrença generalizada na política tradicional. A população não se preocupa com o processo eleitoral, pois não há esperança de mudança. Os políticos oportunistas aproveitam-se dessa circunstância para favorecer os seus interesses pessoais. Existe uma frente camponesa que poderá representar uma alternativa ao povo haitiano de maneira geral. Os rastos do terremoto poderão marcar uma nova década para as forças sociais que têm na agenda um projecto de mudanças para o Haiti. Existem sinais de unidade.

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