Honduras: O exército continua por detrás do Governo criar PDF versão para impressão
29-Abr-2010

Carlos Humberto ReyesO líder da Resistência Carlos H. Reyes responsabiliza a repressão pelo assassinato de jornalistas nas Honduras e denuncia que o governo das Honduras continua a ser dominado pelo exército. Por Lourdes Jiménez, Periodistas-es


Nesta entrevista, Carlos Humberto Reyes, um dos líderes da Frente Nacional de Resistência Popular nas Honduras (FRNP) e do Sindicato de Trabalhadores da Indústria da Bebida, conta como o governo das Honduras continua a ser dominado pelo exército; como os Estados Unidos estiveram por detrás do golpe de Estado de 29 de Junho de 2009 e por que razão as forças de segurança do Estado matam jornalistas sem entraves e sem sofrerem represálias.

Quem está por detrás do assassinato dos jornalistas que morreram recentemente nas Honduras?

As forças de segurança do Estado estão por detrás dos assassinatos. Porquê? Porque foi este mesmo grupo que, na década de oitenta, assassinou e fez desaparecer hondurenhos. Esta gente continua à frente do poder nas Honduras, actualmente com assessoria de colombianos e de israelitas. Estas forças eram conhecidas como «O grupo três dezasseis» e foi criado na época em que John Dimitri Negroponte era embaixador nas Honduras. Matam sem qualquer tipo de empecilho.

Qual a sua opinião acerca das declarações do presidente das Honduras relativamente ao assassinato do jornalista Jorge Alberto Orellana, onde este afirmava que a sua morte não tinha qualquer relação com o exercício da sua profissão?

Para eles (governo) não houve golpe de Estado. Foi tudo uma comédia: os bandidos somos nós, o povo, a Resistência, e os bons são eles. O responsável pelos direitos humanos nas Honduras diz que não houve crimes no país e que os assassinatos são produto do narcotráfico e do crime organizado. Isto é completamente falso e utilizam este argumento para continuar a negar a verdade. A mim fracturaram-me a mão (mostra o seu braço direito, cheio de cicatrizes) e disseram que fui eu próprio quem o fez. Quanto aos mortos, dizem que foram eles próprios que se mataram...

Acha que os assassinatos de jornalistas são perpetrados tanto por extremistas de direita como de esquerda? Joseph Hernández Ochoa foi assassinado a 1 de Março deste ano e no seu curriculum constava o apoio ao golpe de Estado de Junho e ao governo de facto de Roberto Micheletti.

Nos anos oitenta dizia-se que todos os desaparecidos estavam em Moscovo, em Cuba... Hoje, relativamente a todos os assassinados, continua a utilizar-se qualquer argumento, como esse que me apresenta, mas tudo isso é, definitivamente, falso. O que se pretende é esconder a verdade, esconder a realidade de uma Resistência no país, esconder que as eleições (de 29 de Novembro) foram um fracasso porque nem 30% das pessoas chegaram a votar.

Como avalia a cobertura mediática mundial do caso hondurenho?

Tentou-se que os diversos meios de informação deixassem «fora da agenda» o que está a acontecer nas Honduras e dessem, pelo contrário, uma imagem de normalidade e de estabilidade.

Como está a ser abordado pelos meios de informação das Honduras o assunto do assassinato de jornalistas?

O que está a fazer-se nas Honduras chama-se impunidade. Aqui não se puniu nem se castigou ninguém. Mas se lermos os relatórios da Comissão Inter-americana de Direitos Humanos, reconhecemos que os assassinatos são reais, que a repressão existe, que a força foi mesmo utilizada de forma excessiva. Há denúncias. Eu, por exemplo, apresentei uma a semana passada à Comissão de Direitos Humanos em Genebra, à OIT (Organização Internacional do Trabalho), mas apresentei-a e aí está, nada mais. Embora tenha de reconhecer que durante o golpe de Estado e do corte de energia eléctrica a cobertura mediática tornou possível mostrar ao mundo o que estava a acontecer.

Como encara a nomeação, por parte do presidente Porfirio Lobo Sosa, de Romeo Vasquez (antigo chefe do Estado-Maior Conjunto das Forças Armadas das Honduras) para dirigente da empresa de telecomunicações Hondutel?

Isso demonstrou-nos, uma vez mais, que é o exército quem continua por detrás do Governo. Por isso, uma das exigências que fizemos (o FNRP) foi o regresso dos militares aos quartéis e a sua retirada de todas as instituições do país. Mas, vou ser sincero, isto não aconteceu apenas com Porfirio; aconteceu também com Manuel Zelaya (o facto de o seu mandato ter sido dominado pelo exército). Ou seja, os níveis de insignificância e de redução a que chegou o Estado das Honduras são de tal ordem que a política por parte do Estado tem pouca importância.

Que sentido faz matar um jornalista, silenciá-lo, se na Internet há milhões de vozes para denunciar todas as violações dos direitos humanos?

Eles não matam apenas para silenciar a voz dos jornalistas, mas para infundir o terror entre a Resistência. Imagine o que significa matar um professor a meio de uma aula repleta de alunos. Isto faz parte de um plano para destruir a Resistência, na qual, a propósito, os jovens e as mulheres têm um papel fundamental. Por isso também matam jovens, gays, lésbicas... Nessa linha de terror, posso informar que revistaram a casa a um dirigente do nosso sindicato de trabalhadores, levaram-lhe documentos e um computador enquanto os vizinhos assistiam a tudo sem poderem fazer nada, ou seja, esta gente sente-se protegida. Como sabem que a nossa táctica é pacífica, o único recurso que lhes resta é matar e aterrorizar-nos.

Receou ou receia pela sua vida?

Definitivamente, toda a vida fizemos parte da lista de pessoas a matar. Mas isso faz parte de tudo isto.

Quais são os vossos objectivos mais imediatos?

Exigimos que se respeitem os direitos humanos, que não se criminalize o protesto social e político, que se reconheça a Resistência como um interlocutor válido, que não seja assinado o Tratado de Livre Comércio com os Estados Unidos e que seja cancelada a presença de Porfírio Lobo Sosa no evento dos dias 14 e 15, aqui em Madrid, entre a União Europeia e os países latino-americanos.

Tem esperança?

Em quê?

Em que se altere a situação do Estado das Honduras.

Claro que sim. Lutamos para refundar o país através de uma Assembleia Nacional Constituinte e para fazer uma consulta popular através de uma «Declaração Soberana». Estamos a lutar para fortalecer a Resistência no que se refere à organização, mobilização, comunicação e politização do povo hondurenho. O golpe de Estado nas Honduras, made in USA, porque os Estados Unidos estiveram por detrás desse golpe, dificultou-nos o trabalho, mas resistiremos.

Nesse caso, a «mudança de Obama» não chegou às Honduras?

Essa mudança não existe. É inegável, como se continuou a militarizar o norte do México com o pretexto do narcotráfico, que se foram metendo como um «Cavalo de Tróia». Estão metidos no Haiti, em Cuba, na Colômbia... O que acontece é que eles estão com uma crise económica terrível, têm a moeda de rastos, detêm apenas 5% das reservas de combustível, estão a fracassar nas suas guerras do Iraque e Afeganistão. Hoje, e agora, o que querem é voltar a ocupar a América Latina. O golpe de Estado verifica-se para rearmar o polícia da América do Norte. Os Estados Unidos conseguirão subscrever com as Honduras tudo o que quiserem porque Porfirio fará tudo o que lhe disserem.

Se tivesse que escolher um presidente latino-americano de entre os que hoje estão no poder, qual escolheria?

Todos aqueles que defendam a união da América Central e da América Latina. Por que razão não poderemos unir-nos? Será que a Europa não o fez? E os Estados Unidos? Todos os presidentes que apoiem esta tendência têm a nossa simpatia e, justamente por isso, Zelaya também a teve. Nós não somos «zelayistas» nem pertencemos ao seu partido. Apoiaremos os dirigentes que trabalhem também a favor dos direitos humanos, independentemente dos seus nomes. Aqui não se trata de pessoas, trata-se de lutar pela nossa unificação. É uma luta de classes, uma luta contra o imperialismo e uma luta contra o capitalismo.

Retirado de La Haine

Tradução de Helena Pitta

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