O capitalismo filantrópico criar PDF versão para impressão
12-Jan-2007
luis_branco.jpgNo verão passado, um dos defensores da receita neo-liberal cozinhada no Convento do Beato e director do Jornal de Negócios, lamentava-se da escassez de filantropos entre os milionários lusos, segundo ele ainda herdeiros do miserabilismo salazarista. Foi na semana em que o investidor William Buffet doou a maior parte da sua fortuna à fundação de Bill e Melinda Gates, passando esta a administrar cerca de 65 mil milhões de dólares para financiar acções de combate à sida, malária e à pobreza extrema. Isto representa mais do que o PIB de qualquer país sub-sahariano, tirando a África do Sul ou a Nigéria.

Um dos projectos apoiados pela Fundação é precisamente na Nigéria, mais concretamente em Ebocha, onde põe em marcha um plano de vacinação para a poliomielite e o sarampo. Mas naquela cidade rodeada por campos petrolíferos existe um problema de saúde pública mais grave: as doenças respiratórias generalizadas porque as petrolíferas poupam mais em queimar o gás extraído, contribuindo com quase 30 milhões de metros cúbicos para o aquecimento global a cada dia que passa. O que é que a Fundação tem a ver com isto? Simplesmente é uma das accionistas da petrolífera ENI, responsável pela chama permanente de 90 metros de altura que assombra noite e dia a população.

Esta situação deu origem a uma investigação jornalística sobre as contradições entre os investimentos da Fundação e os objectivos que supostamente ela persegue. Neste caso concreto, o Los Angeles Times fez as contas: 218 milhões de dólares investidos na investigação e administração de vacinas em todo o mundo; 423 milhões investidos em acções da ENI, Shell, Exxon Mobil, Chevron e Total, as petrolíferas que envenenam o delta do Niger.

Na resposta a esta investigação, a Fundação diz que não é o seu papel investigar as credenciais de cada empresa onde investe, e por isso limita-se a não pôr dinheiro em tabaqueiras. Isto não a impede, por exemplo, de apoiar companhias farmacêuticas que tentam impedir o acesso barato dos medicamentos para portadores de HIV nos países pobres, ao mesmo tempo que faz do combate à SIDA uma das suas bandeiras. É o cinismo filantrópico em todo o seu esplendor.

Estas notícias surgem na semana em que foi divulgada por cá a lista das famílias mais ricas, tendo em conta apenas os investimentos aplicados em empresas cotadas na Bolsa de Lisboa. Os Espírito Santo lideram com quase 3 mil milhões de euros, 0,7 milhões acima de Belmiro de Azevedo e José de Mello. Américo Amorim, Teixeira Duarte e Soares dos Santos (do grupo Jerónimo Martins) completam a lista dos investidores acima dos mil milhões de euros. Com o exemplo da Fundação Gates, Sérgio Figueiredo e o seu Compromisso Portugal terão agora menos trabalho em explicar aos milionários portugueses as vantagens da filantropia capitalista em que no fim ganham os mesmos de sempre.

Luís Branco

 
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