Vimo-nos gregos para aqui chegar criar PDF versão para impressão
15-Mai-2010

Marisa MatiasA situação que se vive actualmente na Grécia pode e deve ser vista por nós como um reflexo no espelho. Em nome da estabilidade e do crescimento, aprovam-se planos que se reduzem a operações de corte deixando a factura mais pesada para ser paga por aqueles que mais afectados são pela crise económica e social que vivemos.

O Plano de Estabilidade e Crescimento apresentado para combater a crise em Portugal mantém todas as condições para que continue a haver desperdício onde ele sempre houve. As regalias e mordomias mantêm-se e continua a garantir-se que a classe dos intocáveis sobrevive sem sobressalto. Indirectamente, diz-se aos cidadãos e às cidadãs portuguesas que a incompetência compensa e que os prémios devem ser dados à má gestão.

Durante meses disseram-nos que não se podiam ainda aplicar taxas sobre as transacções financeiras porque os "mercados ainda não estavam preparados". Depois disseram que sim, mas que as grandes empresas ficavam de fora. E estarão os trabalhadores portugueses, assim como os desempregados, "preparados" para continuarem a ser a reserva onde se vai buscar o dinheiro que "falta"? A saga não termina por aqui. Todos nós pagamos a duplicar este pacote de medidas: pelo preço directo que se paga e pelo preço indirecto resultante do recurso à privatização sistemática dos nossos bens comuns, desde os recursos naturais aos serviços públicos, como modo de ir buscar mais uns trocos para resolver o curto prazo. Foram já os anéis. Agora tentam os dedos e as mãos.

Estas medidas de curtíssimo prazo mostram, afinal, que ainda resta alguma capacidade produtiva ao governo português e ao seu principal aliado na oposição: a capacidade de produzir mais pobreza, precariedade, injustiça social. Pois, na verdade, com medidas como esta esse será o resultado a médio prazo.

Em 2007, o Primeiro-Ministro dizia que a principal prioridade era a redução do desemprego. Hoje afirma que a principal prioridade é a redução do défice. A amarra do défice é uma visita recorrente. Corta-se na despesa pública, corta-se no investimento público. Continuam a dizer-nos que as medidas só podem ser sérias se foram austeras. Austeras para uns, mas suaves como penas para outros.

É, assim, de estranhar a revolta do povo grego face à situação que está a viver? Não. A luta que o povo grego tem travado nas ruas pela justiça social e pela justiça económica é, afinal, uma luta por todos nós.

Marisa Matias, artigo publicado no Diário "As Beiras" de 14 de Maio de 2010

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