A dívida das alterações climáticas criar PDF versão para impressão
20-Mai-2010
Gwynne Dyer, cortesia do próprioA África pode perder metade da sua produção de alimentos nos próximos 25 anos se não forem travadas as emissões de gases-estufa, alerta Gwynne Dyer, analista geopolítico canadiano Por Chryso D´Angelo para a IPS.

Nova York - Os países mais próximos da linha do Equador são os que mais vão sofrer com as alterações climáticas, segundo o analista geopolítico canadiano Gwynne Dyer, autor de um livro que explora as calamidades que serão causadas pelo aumento da temperatura no mundo.

"Climate wars: the fight for survival as the world overheats" (As guerras do clima: a luta pela sobrevivência enquanto o mundo aquece) avalia o impacto desse aumento no fornecimento de alimentos, nos sistemas de saúde e nos padrões migratórios, entre outros aspectos.

A África será a mais prejudicada, disse Dyer à IPS, acrescentando que esse continente pode perder metade da sua produção de alimentos nos próximos 25 anos. A teoria de Dyer está baseada em entrevistas com cientistas de renome mundial, retrata um funesto panorama de fome, pandemias e guerras se não forem travadas as emissões de gases-estufa.

"Alguns poucos graus fazem uma grande diferença. Pensemos nessa diferença como ter ou não ter febre. Uns poucos graus a mais podem ser mortais para o nosso organismo", explicou à IPS, com quem conversou sobre como as alterações climáticas ameaçam o planeta.

Boa parte do seu livro enfatiza a escassez de alimentos. Como a perda de cultivos vai afectar os países em desenvolvimento?

GWYNNE DYER: São duas as regiões afectadas em termos de fornecimento alimentar: o trópico e o subtrópico. No trópico chove muito. A mudança climática não trará falta de água, mas causará mais calor. Os principais cultivos (arroz, trigo, milho), que não são nativos dessa região, vão-se perder se a temperatura aumentar entre dois e três graus acima dos 35 graus, mesmo por poucas horas, durante o seu período de crescimento, que demora três semanas. Os cultivos nativos (batata-doce, sorgo) podem sobreviver, mas não vão alimentar tanta gente.

O que acontecerá com os cultivos de alimentos nos subtrópicos?

Estas grandes áreas de cultivo de grãos neste momento são semidesérticas. Se tirarmos a água, o solo ficará muito seco para a agricultura.

O derretimento das geleiras não compensará a perda de água?

As geleiras levarão pelo menos cem anos para derreter.

No seu livro, diz que as pessoas que sofrem fome emigrarão para outros países.

Isso já acontece. Um quarto da população do Zimbabué emigrou para a África do Sul devido à escassez de alimentos, causando distúrbios pelo argumento de que tiram o trabalho dos sul-africanos. O que acontecerá quando pessoas de todos estes países forem para outras partes para se alimentar? A resposta é que os países vão fechar as suas fronteiras como mecanismo de sobrevivência.

Como a mudança climática é um obstáculo à atenção com a saúde?

Geralmente as novas doenças surgem nos trópicos e subtrópicos, onde as sociedades de camponeses vivem com os seus animais. A escassez de alimentos levará a Estados falidos. Onde não há governo, não há infraestrutura sanitária, nem um sistema de saúde que note os primeiros sinais de alerta de que está sendo incubada uma pandemia. Se uma doença se propaga, pode introduzir-se na população e seria impossível detê-la antes que se soubesse o seu nome.

Há algum país seguro diante dos efeitos da mudança climática?

Os países mais afastados do Equador, como Estados Unidos, Canadá e Rússia, terão melhor desempenho.

O que diz dos resultados da 15ª Conferência das Partes da Convenção Marco das Nações Unidas sobre as Alterações Climáticas, de Dezembro, em Copenhaga?

Foi um descarrilamento de comboios: 192 países presentes, mas isso não é útil na hora de negociar. É preciso escolher 20 países que têm a maior parte dos alimentos e a maior parte do consumo, fazê-los assinar um acordo e conseguir a adesão dos demais.

Quais países deveriam tomar a dianteira?

Os "velhos países ricos" (Estados Unidos, Rússia, França, Grã-Bretanha, Alemanha, Canadá, Japão) e os que agora estão em rápido desenvolvimento (Brasil, China, Índia). Mas eles não entram em acordo sobre como compartilhar a carga. Os "velhos países ricos" geram 80% do dióxido de carbono emitido pelas actividades humanas e que causam o problema.

Qual é a solução?

Os "velhos países ricos" devem travar as suas emissões e ajudar as nações emergentes a aumentar a sua produção com energias limpas, como a eólica e a solar, com centrais não alimentadas com carvão. É a dívida que temos de pagar pelo que fizemos.

20/5/2010

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