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02-Dez-2009

Natasha NunesAinda que deste encontro ibero-americano tenham saído, bem espremidinhos, uns quantos compromissos relacionados com a erradicação da pobreza, o combate à fome e a melhoria do acesso à saúde, acaso não tivesse acontecido que esta cimeira coincidisse com estas eleições das Honduras, verdade seja dita, a coisa não teria tido grande graça.

A declaração final condenando Lobo e reclamando o cumprimento do mandato de Zelaya foi um dado relevante. Mas, porventura mais importante do que isso, foi a questão de que, não houvesse Brasil nesta reunião e muito provavelmente não teria havido condenação conjunta do putsch.

O que marcou esta XIX cimeira foi aquilo que lá não se discutiu: o volte face geopolítico que a nível global tem vindo a tomar corpo obriga a que seja, no contexto da Ibero América, muito mais interessante discutir a América Latina do que a velha Europa.

Por diversos motivos, pela polarização política que ocorre, bem patente na dicotomia que a questão hondurenha levantou entre países pró-golpistas e países anti-golpistas; pelo ensaios de integração que sobrevêm, longe de representarem um processo linear mas indicadores de profícuas dinâmicas intra-regionais; pelo comportamento da economia latino-americana face à crise internacional, sendo que o desmaio por lá foi menos visível do que por cá.

Episódios como o da paralisação da Ronda de Doha e como o da polémica dos lugares no Conselho de Segurança das Nações Unidas realçam o papel de destaque que o Brasil tem vindo a desempenhar. Longe de uma liderança regional assumida e incontestada, Lula e Amorim têm vindo, no entanto, a projectar o Brasil cada vez mais como um dos protagonistas da cena internacional. Não que esta ascensão seja sinónimo de uma multipolaridade materializada mas é, pelo menos, sinal que o peso do Sul tem, hoje em dia, um pouco mais de significado.

Por isso, quando aqui se fala, como tanto se falou nos últimos dias, de reforçar a cooperação entre estes países irmãos, deixa-se apreender uma tónica antiga, ultrapassada e errada que divide estes mesmos países em auxiliador e auxiliado. Na verdade, devia-se já, sem preconceitos, estar a falar de parceria. Porque quando se evoca, como evocou o mote desta cimeira, conhecimento, inovação e clima enquanto estratégia de desenvolvimento sustentado, da qual uns e outros bem precisam, importa lembrar que sem parcerias efectivas não há orquestra que vá muito longe.

Natasha Nunes

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