É impossível ignorar mais criar PDF versão para impressão
04-Dez-2009

Manuel ReisÉ impossível ignorar mais. É impossível passarmos por elas e não ficarmos incomodados. Falo pois, das câmaras de vigilância que proliferam hoje por todo o lado dentro da nossa escola. Já não é possível percorrer os corredores sem nos sentirmos constantemente controlados. Pior que isto, apenas câmaras instaladas nos pátios que querem que aceitemos como perfeitamente normais, quais olhos omnidireccionais suspensos nas paredes observando tudo e todos. Agora entre nós e os nossos colegas, temos uma câmara que nos deixa hesitantes, inseguros, que nos impede de ter uma relação verdadeiramente livre e genuína. Quem é a pessoa capaz de se sentir confortável e de agir normalmente sabendo de antemão que todos os seus movimentos, todos os seus gestos, todas as suas expressões faciais estão a ser monitorizadas e gravadas num disco rígido?

Assistimos hoje à chegada da vaga securitária às nossas segundas casas. Aproveitando tempos de crise económica, onde a insegurança e o medo reinam e tirando partido desta parte mais irracional do ser humano, os poderes instituídos aproveitam para reforçar os mecanismos repressivos dando as mais variadas razões para o fazer. Mas é extremamente pertinente, que em nome das liberdades democráticas, questionemos se essas razões são mesmo válidas.

É imprescindível uma análise clara da necessidade e das consequências da colocação de câmaras de vigilância numa escola. Analiso, em particular o caso específico da minha escola, onde não existem grandes problemas de segurança.

Por parte do ministério foram dadas como razões para a sua instalação a defesa da escola face a ameaças externas e a protecção do material tecnológico recentemente adquirido através do Plano Tecnológico do governo. Esta justificação é facilmente refutável através da simples verificação dos locais onde estas foram colocadas.

Refutado o argumento da segurança face a ameaças externas, devemos preparar-nos para derrubar argumentos que possam vir a ser lançados tais como o da defesa da segurança dos alunos, mais precisamente no combate ao bullying e o da dissuasão de práticas de vandalismo. Será que o nível e a taxa de ocorrência destes incidentes justificam só por si esta vigilância orwelliana? Penso que não, na verdade estão a ser criados mecanismos para resolver problemas a uma escala que não corresponde à realidade. E será que este controlo será eficaz na resolução dos problemas, ou apenas será capaz de reprimir as causas destes efeitos pensando-se que os problemas estão resolvidos quando na verdade as causas sociais destes problemas continuam a existir? É óbvio que não, tanto o problema do vandalismo como o do bullying são problemas que não serão resolvidos através da repressão, são fenómenos demasiados complexos que só serão resolvidos através da erradicação das causas sociais que lhes dão origem. Qualquer repressão só irá esconder o problema dando a ilusão da sua resolução. Neste caso é também importante lembrar, que as câmaras de vigilância não podem servir para substituir possíveis faltas de recursos humanos que existem nas escolas.

Toda esta situação ao invés de propiciar um sentimento de segurança e de bem-estar na escola, está na verdade a propiciar na verdade o sentimento de controlo e de constante observação dos nossos movimentos.

Manuel Reis, estudante do ensino secundário, Setúbal, artigo publicado em setubalnarede.pt

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