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07-Dez-2009

Mário ToméO PS está com maioria relativa, impossibilitado de governar como nos últimos quatro anos e meio, indiferente a tudo e todos excepto aos interesses do capital financeiro e da NATO.

Segundo Mário Soares nos diz naquela sua escrita límpida, literariamente exemplar e, pelo menos desta vez, politicamente lapalissiana, no DN da última terça feira, agora o país está tramado - o PS não pode, com a oposição a fazer contra vapor, resolver os grandes problemas do país. E só o governo o pode fazer... porque é ele que governa. E tenham cuidado não vá Sócrates virar-nos as costas.

Este discurso revela descrença e, de forma muito discreta, um certo desespero. O PS já só serve enquanto partido do arco da direita; enfim, com um discurso onde apenas perpassa a memória de uma certa cultura social-democrata, deitada fora durante o PREC quando foi incapaz de interpretar os anseios mais elementares dos espoliados e os sinais da revolução de Maio de 68..

Com o PS sem crédito na esquerda e sem poder absoluto, Soares vem dizer que afinal quem fez a revolução a sério foi ele e os seus comparsas.

Só que, mesmo os livros que refere com alguma ligeireza imprudente, já não passam de tristes justificações e do sacudir da água do capote: porque foram os «heróicos» militares e políticos do 25 de Novembro que permitiram ou trouxeram eles próprios o país para onde ele se encontra hoje.

A chamada «pureza inicial» do 25 de Abril é, afinal, além de ridícula, o ADN de todo o cinismo donde saiu esta podridão. Porque a honradez a que Soares se refere, estava na «impureza» da luta social e política que encheu as ruas do país e que teve o seu poeta como o renascimento teve Camões: Zeca Afonso. E é aí que permanece, resistindo ao arbítrio, ao compadrio e à corrupção, ao roubo desavergonhado do que é público para entregar ao privado.

O golpe do 25 de Abril, resultante da rebelião dos capitães, rebentou com a tampa da panela e desarticulou umas Forças Armadas desmoralizadas e derrotadas. Numa primeira fase, os objectivos a alcançar pelos que queriam as tropas nos quartéis, à 28 de Maio, precisaram ainda que os soldados e o povo conjugassem as suas forças para travar precoces restaurações.

Quando as formalidades democráticas começaram a enraizar-se e o capital se sentiu livre dos constrangimentos do fascismo, começou o tempo de apontar o dedo aos militares que não queriam confinar-se aos quartéis mas estavam com a luta social, à qual se deve a própria Constituição que foi escrita em grande parte na rua! Sem essa luta, muito daquilo que se tem defendido nestes últimos 34 anos nem sequer teria existido.

O confronto das políticas subordinadas à NATO, do PS, PSD e CDS, e à URSS, por parte do PCP, encarregaram-se de destroçar o fogoso e ousado movimento social, que apenas as forças de índole revolucionária acompanhavam mas degladiando-se em sectarismos ideológicos e obediências dogmáticas que substituíam a falta de programa político adequado à situação: um país em polvorosa querendo recuperar o tempo perdido, um povo lutando para encontrar caminhos novos já anunciados na Europa em 68 e abertos pela derrota do colonialismo e do fascismo, uma Europa com os trabalhadores acomodados aos benefícios ganhos sob a inspiração do socialismo e a direcção política da social-democracia depois do fim da guerra.

Para o capital e seus representante ( PS,PSD e CDS) estava claro que, depois do falhanço do V Governo Provisório, já só faltava acabar com o papel de algumas unidades militares, como a PM, no apoio à luta popular e na recusa da sua repressão.

Foi essa a missão atribuída a Soares que dirigiu uma ampla frente, até ao chefe dos bombistas, Alpoim Calvão, e de que os «nove» aceitaram ser o encobrimento político e o ariete militar. Provocaram uma situação que tinham previsto e preparado, uma espécie de guerra preventiva que os amigos ianques devem ter ensinado. Foi isso o 25 de Novembro. Mais três mortos. Ao contrário do que diz Soares só um era inocente, Albertino Bagagem, no seu quartel às ordens do Presidente.

Mário Tomé

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