50 anos de ETA criar PDF versão para impressão
10-Dez-2009

Carlos CarujoA política é também uma batalha de hegemonias sobre a memória. Dentro desta, organizam-se agendas cheias de efemérides enquanto actos de comemoração ou de repúdio. Temos agendas consensuais, oficiais, onde a batalha é por uma versão do mesmo acontecimento de que (quase) todos se reclamam, como Abril ou a República, temos outras onde a disputa política é mais directamente contra ou a favor dividindo campos. E, claro, temos acontecimentos que escapam à categoria "efeméride" que estão antes, depois, ou num outro tempo que não se encaixa nisso, por exemplo no tempo mínimo de um sorriso.

E há ainda o esquecimento. Para além da espuma dos dias comemorativos, há várias camadas de história e de estórias a resgatar do esquecimento e das História com brancas que ele vai criando na memória colectiva. Os silêncios maioritários têm a sua agenda própria. E a agenda da esquerda é obrigada a trabalhar muitas vezes como resposta a um muro de silêncio.

Claro que, não sejamos inocentes, a esquerda vai criando os seus próprios silêncios, seja por comodismo, por pressão dos tempos que correm a um ritmo alucinante ou por pura e simples impossibilidade de ter memória de elefante. A dialéctica entre memória e esquecimento será inevitável.

Serve esta (longa) introdução para falar de uma efeméride que talvez seja incómoda mas que merece ser lembrada. A organização basca ETA, Euskadi Ta Askatasuna, faz 50 anos. Na verdade, a efeméride é problemática logo na questão da continuidade: não se poderá talvez dizer que a organização que hoje assume este nome seja a mesma que foi criada há cinquenta anos. Mas é sobretudo um motivo para relembrar um percurso paradoxal feito de vidas feitas de resistências e de dedicação a uma ideia de socialismo e de vidas desfeitas pelos assassinatos de ambos os lados da barricada. Um percurso de um país que não foi mas que marcou e marca ainda hoje decisivamente a política do país vizinho.

Obviamente que se poderia e deveria ir mais longe e fazer um balanço de uma minoria da esquerda que na Europa dos anos sessenta teve a ilusão de mudar o mundo de armas em punho. Poder-se-ia também projectar o debate para o futuro e tentar pensar no significado nacionalismo dos povos oprimidos em tempos de integração em blocos continentais, dissolução de fronteiras para o capital e do traçado de novas fronteiras entre o norte e o sul. Não farei esse balanço, nem essas reflexões.

O objecto deste artigo é bem mais modesto: somente lembrar uma parte da história que se pode ler em mais detalhe aqui e aqui.

A história de um grupo de nacionalistas bascos que evolui com o ar dos tempos para o socialismo resistindo à ditadura franquista, pagando essa resistência com a vida (relembre-se o Processo de Burgos e todas as outras execuções às mãos do fascismo mesmo antes da luta armada ser uma escolha da organização feita em 1968 como resposta aos assassinatos fascistas). Um grupo que influencia decisivamente a história da queda do franquismo com o atentado contra Carrero Blanco em 1973.

Um grupo que sofreu uma cisão minoritária em 1966, outra em 1970 em que a maioria, a ETA VI Assembleia, escolheu uma via diferente da luta armada, ficando os minoritários com a sigla, outra ainda em 1974 entre a ETA Militar e a ETA Político-Militar, tendo ficado a primeira com a sigla.

Um grupo que foi também perseguido em tempos de democracia pelo terrorismo de Estado dos Grupos Antiterroristas de Libertação que executavam elementos "suspeitos" e que sofreu muitas vezes a tortura, a prisão sem culpa formada por suposta pertença ou apoio à ETA, a ilegalização de partidos. Uma repressão que foi aliás bem além das fronteiras da ETA chegando a jornais e outro movimentos da "Esquerda Abertzale".

Um grupo que ocupou um espaço político de cerca de 15% dos votos e que deixou um rasto de cerca de 600 mortes, tendo deixado de fazer atentados apenas contra "objectivos militares" e passando a atacar políticos anti-nacionalistas e que cedeu mesmo aos atentados desvairados contra civis, mesmo num centro comercial (chamando-lhe "socialização da dor"), desbaratando assim muito do apoio de que chegou a gozar.

Um grupo cujas direcções sucessivamente presas deixaram a impressão de deixar a organização sem direcção que continua a vacilar sem estratégia entre o cessar-fogo com os governos e as quebras de pactos. Um grupo que voltou a marcar decisivamente a mudança de ciclo político no Estado Espanhol quando o governo do PP decidiu inventar, contra todas as evidências, que a ETA tinha realizado o atentado de 11 de Março de 2004.

Como é evidente, estas notas são uma simplificação bruta de uma história complexa que convém lembrar e conhecer. Quer para pensar a história contemporânea do Estado quer para pensar nos processos de resistência às injustiças do capitalismo.

Carlos Carujo

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