Palhaços criar PDF versão para impressão
12-Dez-2009

Alice Brito A dupla entra na claridade feérica da arena circense.

Maquilhados, os palhaços invadem os olhos das crianças, entram-lhes boca adentro em gargalhadas. Distribuem sonhos e oferecem música. Por eles se chega ao conceito de caricatura sublinhado pelo traço carregado das bocas ampliadas, dos olhos pestanudos, dos sapatos disformes e dos botões de tamanho descomunal cosidos nas roupas vistosas.

Os palhaços são artistas maiores, artesãos do riso.

Não é palhaço quem quer, tal como não é pianista quem tem os dedos ágeis.

Insultar alguém chamando-lhe palhaço, é ser ignorante, provinciano, é ser arrogante com aquela altivez que só a menoridade intelectual comporta, é desconhecer a extrema dificuldade da arte do circo, é zombar grosseiramente desse espectáculo definitivo e total que nos percorre a casa da infância.

Há palhaços ricos e palhaços pobres.

Os palhaços pobres têm um justíssimo lugar no departamento da ternura. Recordar um Chaplin genial ou um Popov transgressor é sempre um exercício emocionado.

Os palhaços ricos são maus, abusadores, reaccionários, têm um discurso de lantejoula falsa, são verdadeiramente o protótipo do brilho falhado. São muitas vezes mais risíveis dos que os outros que usam as cabeleiras de tons improváveis. Andam muito empertigados de lá para cá, são a própria substância trágica da crueldade. São assertivos, peremptórios, incapazes de compaixão.

Por isso, quando alguém do alto da sua grosseria se dirige a alguém apodando-o de palhaço, o que sobra desse insulto boçal é a própria pose do palhaço rico. Só a pose, porque o resto pertence ao mundo luminoso da magia.

Alice Brito

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.