Eles são assim criar PDF versão para impressão
28-Dez-2009

Tiago GillotO ano termina com três ofensivas dos patrões: a exigência de renegociar o aumento previsto para o Salário Mínimo Nacional (SMN), a tentativa de impor horários desumanos (sem aumento nas remunerações) aos trabalhadores do comércio e, finalmente, em pleno dia de Natal, levantando uma confusão porque “há feriados a mais”.

Se exceptuarmos a ignóbil tentativa (interpretada pelos donos das grandes empresas de distribuição e retalho) de sujeitar os trabalhadores do comércio a horários de 60 horas semanais (fixando jornadas de 12 horas, com aviso na véspera), estas investidas nem devem ser tomadas à letra: os senhores patrões bem sabem que o Governo nunca poderia aceitar uma proposta de diminuição do número de feriados ou voltar atrás no acordo obtido na Consertação Social (com os próprios patrões, portanto) para o aumento gradual do SMN até aos 500 euros em 2011.

Estas três investidas impressionam pela brutalidade. E é por isso que devem ser levadas a sério. Elas são o que parecem: demonstrações de força, avisos à navegação (nomeadamente, ao Governo). Em Portugal, os “empresários” são assim: querem vida fácil, negócios seguros e encostrar-se ao Estado para quase tudo.

Talvez por isso dispensem qualquer popularidade. Com a mesma facilidade que dizem que é preciso pagar muito mal para manter margens de lucro brutais (nunca deixando de ameaçar com despedimentos “inevitáveis”), não hesitam em exigir a vandalização das vidas e tempos de descanso dos trabalhadores. A sua força não depende do que pensamos deles: em Portugal ninguém respeita ou admira especialmente os capitalistas de serviço – sabemo-los oportunistas, quase sempre a vender caro (e muitas vezes sem concorrência) o que compram barato.

A sua força vem da sua capacidade de se encostarem ao poder, para chegarem ao Estado. Por isso “esticam a corda” para meter outra vez a mão no que é de todos: basta ver como exigem contrapartidas da Segurança Social para cumprir um aumento do SMN que apenas alivia um pouco a miséria de quem, mesmo trabalhando, vive com enormes dificuldades.

2009 foi um ano difícil. O desemprego disparou, a precariedade continua a avançar e as dificuldades são pesadas para muitas pessoas. O Código Vieira da Silva entrou em vigor e, se dúvidas houvesse, as intenções dos patrões do comércio esclarecem os mais optimistas sobre a sua natureza – não fosse a capacidade de resposta dos trabalhadores e a famosa “adaptabilidade” revelaria mais um massacre sobre a vida de quem trabalha. Para 2010 os patrões querem deixar claro que os nossos cintos são para manter apertados, enquanto Sócrates, no cenário da árvore de Natal e da lareira, nos tenta convencer que está tudo mais ou menos bem. Uma coisa parece certa: já não será Van Zeller a saudar-nos com as suas frases inspiradoras, a declarar-nos guerra com aquele ar natural – esclarecedoramente, ele será (agora oficialmente) conselheiro de Vieira da Silva. Mas também já percebemos que os novos porta-vozes dos patrões não serão menos atrevidos nem dispensarão manter a chantagem que lhes trazem resultados conhecidos. É que, por essas e por outras, eles são mesmo assim.

Tiago Gillot

{easycomments}

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.