Contra as prioridades e as respostas à Cavaco! criar PDF versão para impressão
28-Dez-2009

Bruno MaiaQuando perguntam a Cavaco o que pensa do casamento homossexual, este decide responder que está preocupado com a situação social do país. Poderia parecer uma resposta idiota de quem não sabe qual é o significado das palavras do entrevistador. Mas não o é! A atitude do Cavaco espelha um dos argumentos mais infantis no debate do casamento entre pessoas do mesmo sexo – há coisas mais importantes. Claro que há, há sempre coisas mais importantes. A toda a hora a todo o momento. Em todos os governos, de todos os partidos, em todas as alturas da história. Mas se então se há coisas tão mais importantes que se reformule o sistema político Português e passem a existir duas assembleias da república, dois presidentes da república e dois governos: um para tratar das coisas realmente importantes e o outro para lidar com estas questões “menores”. Ou então que se assuma que a política só serve para as coisas mesmo muito importantes e se esqueça tudo o resto. E se tivesse sido sempre assim, talvez as mulheres nunca tivessem ganho o direito de voto, talvez não existisse divórcio em Portugal, talvez nunca se tivesse conquistado a liberdade de imprensa… E daí, se só existissem estas coisas realmente importantes, talvez não existisse teatro, não se fizesse cinema ou música, nunca se tivesse descoberto as ondas de rádio ou inventado o pára-raios e já agora, talvez nunca ninguém tivesse pensado que o homem descende do macaco….

O argumento das prioridades é da mais elementar burrice, porque é obvio que quem o usa só pretende fugir à discussão em causa. Dos políticos espera-se que pelo menos saibam fundamentar os seus argumentos e justificar as suas posições e que não fujam aos problemas, refugiando-se em questões de tempo ou de oportunidade.

Entendo que consideremos o desemprego o principal problema do país. Eu também o considero. Mas o desemprego também é um problema das lésbicas e dos gays. As lésbicas e os gays também trabalham, também são precários, também enfrentam o desemprego, também estão no limiar da pobreza, também vêem as suas fábricas a fechar, também estão em listas de espera para cirurgia, também não têm médico de família…. Lésbicas e gays também percebem que o desemprego é um problema grave, não existem só no momento do seu casamento, existem antes e depois disso. E depois, a questão da discriminação não é só um problema de conceito ou filosofia de Estado – é que algumas pessoas são discriminadas no emprego e no acesso ao emprego. A discriminação existe no emprego e piora o problema do desemprego.

Por isso, muitas vezes, o problema da discriminação é um problema de emprego e o problema do desemprego é uma questão de discriminação. A discriminação não é só uma questão de costumes ou de moral – é a vida concreta e urgente das pessoas. Por isso, caros políticos do discurso das prioridades, da esquerda e da direita, destruam as vossas caixinhas onde colocam os “diferentes” temas da política e vamos lá ajudar a resolver a situação social do país, ajudando a acabar com a discriminação, para ver se resolvemos o problema do emprego a mais uma série de gente...

 

Bruno Maia

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