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16-Jan-2007

violante_saramagomatos.jpgA campanha para o referendo ainda não arrancou mas as baterias dos movimentos que defendem o Não organizam-se à volta da Igreja.
Bem pode o Cardeal Patriarca recomendar contenção à Igreja portuguesa; bem pode dizer a bispos e padres que as missas não são para fazer campanha pelo Não nem para distribuir, durante as homilias, abaixo assinados e folhetos tendenciosos e mentirosos. Bem pode, que ninguém o respeita.

Ao menos, aos padres - que tanto dizem defender a verdade - há que exigir que não cometam o pecado da mentira ao acusar de criminosos os que defendem o SIM neste referendo. Não se apresentem como defensores da verdade divina, nem se arvorem em defensores do Templo, quando todos sabemos muito bem como a Igreja, no passado como no presente, tem protagonizado um fundamentalismo sem tamanho que esconde realidades de que o Crime do Padre Amaro não é excepção!

Estão esses bispos e padres equivocados? Não. Eles sabem muito bem o que estão a fazer. É, definitivamente, o vale tudo. (Até para alimentar o culto à volta da Igreja e a propósito desta matéria ajudar a resolver um grande problema - a falta de vocações). Porque sabem perfeitamente que se chamassem as coisas pelos nomes, as pessoas iriam perceber que ninguém está a defender o aborto; mas só trabalhamos para o seu desaparecimento se não escondermos a cabeça na areia.

O que temos hoje é uma verdadeira liberalização do aborto - são dezenas de milhar, sem regras nem restrições, de qualquer maneira e quase em qualquer sítio. E que o que se pretende é precisamente o contrário - dar suporte, segurança e parâmetros legais a uma prática com séculos de esconderijo, clandestinidade e humilhação. E se não resolvemos agora o assunto, estaremos daqui a mais 10 anos, a falar de centenas de milhar.

Eles, que se são bons sacerdotes e sabem o que se passa nas suas paróquias e os dramas terríveis de gravidezes não desejadas e que acabam em abortos clandestinos ou crianças abandonadas - o que fazem?

Eles, que têm a obrigação de conhecer a vida mais que dolorosa de tantas crianças que acabam nas urgências hospitalares vítimas de maus-tratos - o que fazem?

Nunca vi esses mesmos padres erguerem as suas vozes, de forma organizada como agora, contra a violência sobre crianças. Contra o crime da pedofilia! Ou contra a guerra! Ou contra a fome! Ou contra a escandalosa distância que separa o mundo dos insultuosamente ricos do dos tão só e apenas(!) pobres!

Acusar os que defendem o SIM de serem iguais a terroristas é fácil, faz ruído de fundo e lança a confusão.

E ainda por cima, quais judas (no que este termo tem de mais pejorativo) vêm-nos dizer que têm muita compaixão pelas mulheres que interrompem a gravidez. Certamente que elas a dispensam. Porque não é essa compaixão que vai atenuar o drama da sua opção. Porque na hora do julgamento, esses padres, esses bispos, não vão lá estar para as apoiar. Vão lá estar, sim, para também as julgar.

Não creio que haja lugar a muitas dúvidas. Os mais retrógrados agentes da Igreja só não atiram os defensores do SIM para a fogueira porque o tempo da Inquisição já passou. Mas, verdade seja dita - vontade não lhes falta.

A batalha que temos pela frente é muito dura. O adversário não é leal. Tem o jogo tão viciado que até há um site do Não que apresenta um bebé de 10 semanas como se tratasse de um embrião de 10 semanas. Vale mesmo tudo.

Por isso só nos resta trabalho para mostrar o que está em causa, trabalho para esclarecer, trabalho para convencer a votar SIM.

Não há, também aqui, favas contadas.

Violante Saramago Matos

 
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