As escolhas de Marques Mendes... criar PDF versão para impressão
22-Jan-2007

Mariana AivecaMarques Mendes faz as suas escolhas sem engasgos, nem hesitações e compara mesmo as mulheres que abortam a criminosas corruptas ou traficantes de droga. Eis como veio a público com fotografia de corpo inteiro, apresentar " as razões do seu não".
Creio que depois de se ler esta opinião já muito pouco nos pode surpreender nesta campanha cheia de hipocrisia, de crueldade e de manipulação de sentimentos.

Todo o artigo de Marques Mendes é percorrido por uma hipocrisia imensa, onde se contradiz sistematicamente, pretendendo justificar o injustificável para concluir que se deve manter a lei.

Começa por considerar um "acto arbitrário e injustificado que destrói um ser humano o aborto provocado fora dos casos previstos na actual lei." Considera então Marques Mendes que mantendo a actual lei que pune as mulheres até três anos já não é um acto arbitrário nem injustificado?

Continua piedosamente reconhecendo que "Não ignoro, é certo o problema social que é o aborto clandestino" mas que se combata, ou seja, que se cumpra a lei, que se policie, que se façam esperas ás portas das parteiras, que se levem a tribunal, que se ouçam as histórias aí passadas, que se provem os crimes, que se prendam os e as "culpadas".

E para cúmulo afirma que "coisa diferente é saber se nestes casos, a pena de prisão é correcta". Mas afinal onde quer Marques Mendes chegar? Não conhece o artigo 140 do Código Penal?

Bem sabe Marques Mendes que temos uma lei que diz claramente que quem pratique o crime de aborto é punida com pena de prisão até três anos, mas ele não quer discutir a realidade, a realidade dos julgamentos, o desrespeito pelas mulheres e pelos homens, o direito a uma maternidade e paternidade desejadas e responsáveis.

Neste debate que se quer sério, responsável e tolerante temos assistido a tudo por parte dos defensores do "não", desde a escabrosa comparação de César das Neves da descriminalização do aborto com o uso do telemóvel, ás ameaças de vingança do funeral sem padre, ás comparações com a execução de Saddam, tudo vale para amedrontar as pessoas, baralhá-las e fazer com que não vão votar.

Felizmente que as razões do "não" de Marques Mendes não fazem eco em muitas e muitos militantes do PSD que, com a clarividência de que temos uma lei injusta e que é preciso mudá-la, estão do lado do Sim.

Felizmente que muitos e muitas crentes de várias religiões não estão intimidados com as ameaças de que são alvo diariamente. A sua consciência vai certamente falar mais alto votando Sim à alteração da lei, tolerando e respeitando as opções de cada uma.

Até dia 11 de Fevereiro temos pela frente um trabalho que sabíamos difícil, mas que vamos enfrentar. Uma batalha contra a crueldade, contra a injustiça, contra a prisão, pela dignidade, pela democracia, pela tolerância.

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.