Palestina: Risco de uma guerra civil criar PDF versão para impressão
24-Jan-2007
michel_warschawski.jpgOs Estados Unidos e Israel tentam reforçar o presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmud Abbas (Fatah), à custa do primeiro-ministro, Ismail Haniyeh (Hamas). Consequência: multiplicam-se os enfrentamentos inter-palestinianos, e os riscos de uma guerra civil aumentam.

"É preciso reforçar Abu Mazen (Mahmud Abbas, o presidente da Autoridade Nacional Palestiniana)!, eis o novo lema que, com o consenso israelita, marca a linha estratégica. Lançado por Condoleezza Rice na visita, há dois meses, do primeiro-ministro israelita, Ehud Olmert, a Washington, foi recebido com unanimidade pelos políticos israelitas, como deve ser quando fala o Império. Mas uma coisa é dizer "Sim, chefe" e outra completamente diferente é dar um conteúdo a esta orientação.

Até agora, o "reforço de Abu Mazen" saldou-se com um beijo sonoro, seguido de um jantar na residência de Ehud Olmert e de um cheque de algumas centenas de milhares de dólares. O beijo pôs o presidente palestiniano numa situação embaraçosa, o jantar não era nada do outro mundo e os dólares... pertenciam de todas as formas aos palestinianos, e estavam retidos de forma ilegal nos cofres do tesouro israelita.

Um balanço eloquente

Em 2006, as forças armadas israelitas mataram 660 pessoas nos territórios ocupados e em Israel. Entre elas, 322 não participavam das hostilidades no momento da sua morte, e 22 morreram como consequência de assassinatos selectivos. Os palestinianos mataram 17 civis israelitas e seis militares.

Em Novembro de 2006, Israel tinha 9.075 prisioneiros palestinianos, dos quais 738 em detenção administrativa sem acusação nem julgamento. (Fonte: B´Tselem, Centro de Informação Israelita para os Direitos Humanos nos Territórios Ocupados)

Nem sequer a libertação de algumas centenas de detidos palestinianos - única medida que teriam apreciado os palestinianos dos territórios ocupados - foi concedida pelo primeiro-ministro israelita, transformando o beijo mediatizado em algo do mais comprometedor para o presidente palestiniano, cuja imagem está já suficientemente degradada e que não tinha necessidade deste hipócrita sinal de amizade para ser acusado por alguns militantes do seu próprio partido de ter-se convertido, se não num colaborador, pelo menos numa marioneta nas mãos dos americanos.

Trata-se de reforçar Abu Mazen para enfraquecer o governo do Hamas, maciçamente eleito e que continua a contar com o apoio da maioria dos palestinianos. Para fazê-lo, seria preciso mostrar ao povo palestiniano que, contrariamente ao Hamas, Abu Mazen pode obter o congelamento da colonização - com o que Israel se comprometeu no Roteiro para a Paz, há cerca de cinco anos! - e, no marco de negociações rápidas e eficazes com Israel, pôr fim a 40 anos de ocupação. Mas isto não está evidentemente no programa do governo de união nacional de Ehud Olmert e de Amir Peretz.

Como se pode esperar reforçar Abu Mazen, quando a colonização prossegue de forma acelerada e, ao contrário da época de Ariel Sharon, é objecto de fanfarronadas do primeiro-ministro e do seu ministro da Defesa, o trabalhista Amir Peretz, que acabam de anunciar a reconstrução de uma colónia no Vale do Jordão? Esta declaração provocou, por outro lado, a ira do Departamento de Estado americano, que quer a qualquer preço dar a impressão que se as coisas não melhoram nas relações israelo-palestinianas, pelo menos não pioram.

Como reforçar Abu Mazen quando lhe concedem algumas centenas de milhares de dólares, ao mesmo tempo que impedem o primeiro-ministro, Ismail Haniyeh, de fazer entrar vários milhares de milhões de dólares que o Irão acaba de doar à Autoridade Palestiniana? Se se quer fazer passar Mahmud Abbas por colaboracionista ante os olhos do seu próprio povo, não é preciso fazer nada de diferente. Mas o pior é que os israelitas não querem isso, e não é senão por cegueira colonial que dão o beijo da morte àquele a quem queriam realmente reforçar, mas sem pagar o verdadeiro preço.

A estratégia argelina

Cansado de tentar enfraquecer o Hamas pelo reforço impossível, nas condições actuais, de Abu Mazen, membros do círculo do presidente dos Estados Unidos e da CIA, por um lado, e dos serviços secretos israelitas, por outro, preferem o método argelino de 1992, que consiste em derrubar pela força um governo legítimo, com o risco de fomentar uma guerra civil. É este o pano de fundo dos sangrentos enfrentamentos em Gaza destas últimas semanas entre militantes da Fatah e do Hamas, e dos quais a Fatah tem a inteira responsabilidade. A Fatah, ou melhor, uma corrente da Fatah que pode ser chamada de "corrente argelina", ou também "corrente erradicadora," é incentivada por Washington e Tel Aviv e está disposta chegar a vias de facto com o Hamas para poder recuperar o poder... e os seus privilégios.

Como mostrou o caso argelino, estas manobras só irão reforçar a popularidade do Hamas, tanto mais quanto os pretendidos cavaleiros da democracia e do laicismo, que sonham com o confronto violento com o governo legítimo, como Mahmud Dahlan, o antigo chefe da segurança preventiva de Gaza, têm uma imagem lamentável, que não pode senão fazer crescer um Hamas a quem ninguém pode acusar de malversação de fundos ou de corrupção.

Yasser Arafat vai entrar na história como uma pessoa que esteve disposta a sacrificar inclusive a sua liberdade para impedir uma guerra fratricida entre palestinianos, e para opor-se às pressões combinadas de Tel Aviv e de Washington. Mahmud Abbas não tem nem o porte nem o prestígio do fundador da OLP e, ainda que seja injusto acusá-lo de tentar fomentar uma guerra civil, tenta em contrapartida satisfazer a Casa Branca, tentando desestabilizar o poder legítimo, a fim de impor-lhe um governo que daria um poder de veto àqueles que, precisamente, os eleitores quiseram sancionar.

A situação constitucional que cria, de facto, um duplo poder - o do Conselho Legislativo e o do presidente, ambos eleitos por sufrágio universal - dá uma cobertura legal às manobras do presidente Abbas. Mas, aos olhos da maioria dos palestinianos, têm um forte cheiro a compromisso com Bush e Olmert.

Jerusalém, 5 de Janeiro de 2007

 

Michel Warschawski é o presidente do movimento israelita Centro de Informação Alternativa.

 

 
< Artigo anterior
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.