Haveria sempre um mas criar PDF versão para impressão
29-Jan-2007

violante_saramagomatos.jpgComeça hoje a campanha e promete ser dura.
- Com muita hipocrisia já se ouve de quem defende Não que, se se tratasse da despenalização, até votava Sim. Mas se essa fosse a pergunta, continuavam a votar Não. Ou porque faltava dizer que a mulher devia ser chamada a decidir; ou estabelecer o limite de tempo; ou definir em que estabelecimentos de saúde, Haveria sempre um mas!

- Também se diz que só foram julgadas mulheres porque interromperam a gravidez com mais de 10 semanas. A mentira tem perna curta (basta ir ao Ministério da Justiça) mas tanta vez repetida, passa a verdade.

- Ok, foram julgadas mas nenhuma foi presa. Ah! Pelos vistos teremos que esperar que um qualquer juiz decida cumprir a lei, não aceitar penas suspensas e mandá-las 3 anos para a cadeia. E se assim já tivesse acontecido, qual seria o argumento?

- Há, de entre quem vota Não, quem afirme que a culpa de as mulheres serem ‘humilhadas' é de quem denuncia esses julgamentos. Quer dizer: a humilhação, a invasão da privacidade, o julgamento e condenação destas mulheres - e todos nós conhecemos algumas - está tudo bem. Desde que ninguém saiba, pela calada, dentro de portas. O problema está na denúncia! Ao menos, sejam coerentes e assumam que as mulheres devem ser julgadas e condenadas.

- A baixeza de alguns argumentos chega ao limite: já se disse que os apoiantes do Sim querem a despenalização porque "talvez tenham interesses em comparticipação em clínicas de aborto". Não é caminho por onde se deva ir. Porque é ignóbil. Mas já agora, levanta-se-me uma enorme dúvida: os apoiantes do Não estão aflitos porque têm beneficiado ou participado no negócio e nos lucros do aborto clandestino? Será?

- Vale tudo: desde apresentar fotografias de bebés de 10 semanas como se fossem de embriões de 10 semanas até fazer ouvir corações a bater, ou o sangue a correr pelo cordão umbilical, para os apresentar como prova de vida ‘humana' de embriões com esse tempo. A confusão e o desconhecimento são terreno fértil para o rol de mentiras do Não.

Não esperemos qualquer seriedade quando se quer impor os conceitos de uma sociedade retrógrada, que ainda considera as mulheres como seres inferiores - de resto, dizer que as mulheres têm que ter filhos por causa do envelhecimento da população é, apenas, colocá-las ao nível das incubadoras onde se chocam os ovos para a capoeira ter muitos pintos. Quando é à situação política, social e económica, cada vez amarrada a uma globalização neo-liberal que se devem ir buscar as razões para o envelhecimento no chamado mundo ocidental. Muitos daqueles que nada fizeram por políticas de planeamento familiar, de justiça e apoio social, são dos primeiros a virem arvorar-se em ‘defensores da vida'. Desviando as atenções e misturando alhos com bugalhos.

O que vamos votar não são as convicções morais, filosóficas ou religiosas de cada um relativamente à prática do aborto. Esse é um assunto de consciência e assim deve ficar.

O que está em causa é se queremos que continuem as interrupções da gravidez feitas em qualquer altura, de qualquer maneira e sem regras, sem apoio nem aconselhamento, e as mulheres sujeitas a julgamento e prisão - e votamos Não; ou se entendemos que é urgente mudar tudo isto e o único caminho é votar SIM.

Muitas mais razões haveria, mas porque é preciso acabar com a situação actual, sem regras e sem enquadramento legal, que envolve e caracteriza a clandestinidade deste acto; porque nenhuma mulher interrompe uma gravidez de ânimo leve e sem grande sofrimento; porque é inaceitável continuar a atirar as mulheres para a ilegalidade e o perigo de uma interrupção de gravidez sem apoio nem aconselhamento e sem cuidados médicos é que voto SIM.

Violante Saramago Matos

 
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