Domingo vai chover criar PDF versão para impressão
09-Fev-2007
luis_branco.jpgA dois dias da ida às urnas, a esperança do "Não" já é só a repetição do fenómeno de 1998, quando o eleitorado virou costas ao referendo e à vitória anunciada do "Sim" e foi encher as praias. As empresas de sondagens também não esqueceram esse dia e hoje ampliam os factores de correcção aos dados brutos, diminuindo a vantagem da despenalização do aborto nos dados ponderados. Mas desta vez nem o tempo os vai ajudar. Os últimos dias da campanha recolocaram o debate na necessidade do fim da perseguição das mulheres e deixaram o campo do "Não" entregue às cambalhotas de Marques Mendes e às ridículas promessas de querer despenalizar mas só se todos votarem contra a despenalização. Os mais proeminentes defensores da criminalização e dos castigos, como César das Neves e Bagão Félix, acabaram por desertar na ponta final e aguardam a noite de domingo para o ajuste de contas. Ao contrário da maior parte dos seus correligionários, eles perceberam logo (até Valentim Loureiro percebeu!) que a estratégia da confusão concebida por Marcelo e Marques Mendes só lhes vai servir de pílula política do dia seguinte.

Conseguir uma votação expressiva no referendo é o maior desafio que está hoje colocado ao campo do "Sim". Quem defendia a despenalização em 1998 e não foi votar sabe que essa atitude marcou a diferença no resultado e contribuiu para o atraso de mais 9 anos na lei penal, para o aumento do aborto clandestino, para os inquéritos, acusações e julgamentos, para as condenações de mulheres, para que as desgraças de cada uma dessas vidas fossem lidas em voz alta nas sentenças de tribunal. E quem não votou por protesto em relação ao fanatismo da campanha de 1998, cujos resquícios ainda chegaram à campanha que hoje chega ao fim, certamente terá menos razões para continuar a assobiar para o lado e fingir que o problema não diz respeito à sociedade no seu conjunto.

Vamos então aproveitar as horas que faltam para apelar ao voto SIM, o único que garante a despenalização, protege a saúde das mulheres e faz frente ao aborto clandestino. Essa será a melhor forma de encerrar uma campanha política forte, exigente, plural e determinada que soube sempre recusar a demagogia e a intolerância e que estará, logo após o referendo, na primeira linha da busca de soluções que respeitem a vontade de mudança expressa pelas eleitoras e pelos eleitores. 

Luís Branco

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.