Francisco Louçã: Pensar a política I: O papel da politica unitária criar PDF versão para impressão
13-Fev-2007

francisco_louca.jpgTerminado o referendo, creio que é útil pensar e discutir em detalhe as suas principais lições. Esse é o objectivo desta crónica, e começo por um tema que é fundamental para definir uma estratégia para a esquerda política em Portugal: a esquerda deve ou não promover uma política unitária?
À primeira vista, muitas, senão quase todas as pessoas alinhadas à esquerda responderiam positivamente a esta pergunta. É por isso muito contrastante que essa resposta positiva não corresponda à política de algumas das mais importantes correntes da esquerda portuguesa. Mais: uma das diferenças que hoje separa algumas das esquerdas é o apoio ou a rejeição de políticas de convergência para combates comuns.

E, no entanto, essas políticas unitárias são necessárias. A convergência das esquerdas políticas é importante para configurar campos de forças quando o confronto assim o exige. Em três exemplos da nossa história recente provou-se como essa dinâmica unitária é fundamental: em 1999 na defesa da independência de Timor contra a Indonésia, em 2003 no movimento contra a guerra de ocupação do Iraque e, agora em 2007 no referendo para a despenalização do aborto. Em todos estes casos, provou-se que a convergência das esquerdas era um instrumento útil para fazer uma campanha que envolvesse sectores sociais de outra matriz política, mas importantes para reforçar o campo de mobilização de forças e para enfraquecer o conservadorismo numa questão concreta (Freitas do Amaral na denúncia da guerra ou sectores do PSD no referendo do aborto). Mais ainda, essa política de convergência contribui para um objectivo estratégico muito mais importante e que se joga a prazo, que é a convergência de uma esquerda política com uma esquerda social: só num espaço aberto de acção convergente é que é possível dar voz a todos os activistas e movimentos sociais, e reconhecer o seu protagonismo próprio.

No caso do referendo, esta política era testada de uma forma particularmente intensa. No referendo, vota-se Sim ou Não, e grande parte do campo do Sim tinha como objectivo - e não podia ser outro - envolver todos os que partilhassem esse voto. Era portanto indispensável uma campanha de partidos, que mobilizassem os seus eleitorados, mas também e sobretudo uma campanha de movimentos, que criassem novos protagonismos e respostas. E foi isso que aconteceu, por iniciativa de muitas pessoas de sensibilidades diferentes: uma das forças da campanha do Sim foi tornar visíveis e dar corpo a argumentos a que o Não teve muita dificuldade em responder (como a presença dos "médicos pela escolha" ou a deslocação de sectores do centro e da direita, com iniciativas de criadores culturais ou outros sectores). Estes movimentos são portanto de natureza diferente em relação à presença de independentes em listas de partidos, ou de movimentos de independentes que se candidatam a eleições (porque excluem então os militantes partidários); são movimentos que incluem independentes e activistas políticos e sociais em pé de igualdade.

A experiência dos movimentos neste referendo foi determinante. Actuaram segundo as suas agendas, procurando sempre ampliar a sua intervenção sem nenhuma tutela, porque decidiam as suas acções em independência. O seu sucesso está totalmente justificado pela sua autonomia e pelo seu alargamento unitário.

A alternativa era pensar uma estratégia de criação de um movimento como fachada de um partido, subordinado a um partido e sem autonomia, reduzido à representação dos militantes e simpatizantes do partido. Essa escolha representa a desistência de uma política unitária e, portanto, de disputar o referendo, em nome de um único objectivo de defender um espaço político anteriormente conquistado. Ao pé de minha casa, estava afixado na rua uma faixa de um sindicato que apoiava esse movimento. Fecha-se assim o círculo: política de partido, sindicato de partido e movimento de partido.

Essa escolha contrasta com a dos outros movimentos que, todos, mantiveram sempre uma política inclusiva e convidaram todas as vozes do Sim, sem qualquer excepção, para todas as iniciativas abrangentes, desde a reunião de Aveiro que inaugurou a campanha até à noite da contagem dos votos.

Que ninguém tenha dúvidas: a defesa ou a recusa de políticas unitárias é dos aspectos mais importantes que separa os partidos de esquerda hoje em Portugal.

Francisco Louçã

 
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