O Entrudo em Tourém, Montalegre criar PDF versão para impressão
16-Fev-2007

espigieorDe entre todas as celebrações cíclicas anuais, o Entrudo ou Carnaval é das que maior riqueza de aspectos apresenta, além de uma grande variedade de elementos e de uma característica complexidade de significações.
Podendo a sua origem ser mais arcaica, é contudo nos velhos ritos romanos de celebração do fim do Inverno e de início de Primavera que deve ser encontrado o seu sentido mais genuíno. Apesar dos seus rituais pagãos, as comemorações do Entrudo ultrapassaram as fronteiras da Europa acompanhando a difusão do cristianismo.

 Por João Azenha da Rocha, Antropólogo do Ecomuseu do Barroso

 

O termo Carnaval é ainda hoje objecto de discussão: para alguns estudiosos, surgindo do latim ‘carnevale', significará ‘adeus carne', anunciando assim que a Terça-Feira Gorda é o último dia do calendário cristão em que é permitido comer carne; outros defendem que, surgindo de ‘carnevalemen', o termo significará ‘o prazer da carne'; outros ainda sustentam que o termo deriva de ‘carrus navalis', fazendo referência às festas dionisíacas nas quais um carro, transportando um grande tonel, distribuía vinho aos foliões da Roma imperial.

 Certo é que ao longo dos tempos o Entrudo (termo que terá origem em ‘introitus', significando ‘entrada') sempre foi caracterizado por uma certa permissividade, destacando-se as brincadeiras e a troça dirigida às autoridades, aos costumes e à moral vigente. Também o uso das máscaras - proibido e reprimido em Portugal com acentuado rigor durante o Liberalismo - permite a crítica e a inversão dos papéis sociais, pois por princípio ‘o Entrudo leva tudo'.

 O ciclo do Carnaval vai muito para além dos três dias que, de Domingo Gordo a Terça-feira, antecedem a Quarta-feira de Cinzas. Anunciando o período de abstinência da Quaresma, o Entrudo é celebrado com uma alimentação melhorada, assumindo a carne de porco particular destaque.

 Variadas manifestações próprias desta quadra - mascaradas, disputas simbólicas entre rapazes e raparigas, bailes festivos, entre outros - têm lugar durante este período que culmina com as licenciosidades autorizadas pelo costume.

 Para além do carácter menos genuíno ou mais desvirtuado do seu sentido primordial, que ocorre com frequência hoje em dia nomeadamente em eventos organizados sem respeito pelo original espírito crítico e criativo desta festividade, continuam a registar-se em diferentes localidades práticas carnavalescas que mantêm a essência desse significado original.

 Festejado no início do ano agrário, no limiar da Primavera, na celebração do Entrudo aparece o resíduo das remotas cerimónias de purificação e expulsão das forças malignas do Inverno, em vista do renovo da vegetação e do prenuncio mágico da alegria derivada da abundância que assim se adivinha.

 O Entrudo em Tourém

As festividades começavam no Domingo-gordo com o encontro dos pastores da aldeia nos terrenos da Veiga; cada um levava lacão, orelheira ou chouriças ("o que houvesse!") e vinho, trazido da Espanha, que era bebido pelos chocalhos das vacas. "Naquele dia não havia pastores; as vacas vinham sozinhas para casa".

Há algumas décadas atrás, o Entrudo dava azo a ‘despiques' ou desafios entre as duas principais zonas da aldeia, separadas por um rego de água: Lajes e Outeiro.

Os ‘Lajes', aos quais se juntavam os do Carvalho, representavam a zona mais rica da aldeia, enquanto os do Outeiro, considerados mais pobres, compensavam a sua escassez de recursos com uma juventude mais animada e imaginativa para a festa.

Os ‘despiques' constavam de uma competição sem outro objectivo que o de cada grupo tentar demonstrar maior capacidade criativa que o seu antagonista.

Conta-se por exemplo que em determinado ano, tendo os da Laje marcado o seu baile para a Eira da Botica (também conhecida por Eira do Bila), um dos homens do Outeiro disfarçou-se de boi, incluindo na sua máscara uma cabeça de bovino, e foi para as Lajes onde, confundido com um elemento dessa zona da aldeia, recebeu vivas pelo seu bem conseguido disfarce; quando retirou a máscara consumou a vitória para os do Outeiro, por tantos louvores já ter recebido esse seu elemento.

Para o sucesso do baile era imprescindível a presença sobretudo das raparigas do Outeiro, sem as quais os rapazes da Laje se sujeitariam a dançar uns com os outros (a juventude da aldeia seria constituída por cerca de quarenta moços e moças); ‘as moças eram muitas, no Outeiro, e só por isso já ganhavam'. Os das Lajes chamavam ‘a música', (a banda), tinham mais posses ‘mas iam para o baile do Outeiro, porque tinha mais mocidade e gaiteiros galegos'.

Certo ano os das Lajes, tendo já assegurada a presença de Zés Pereiras que foram ao Porto contratar, sabendo que os do Outeiro queriam chamar os músicos galegos, anteciparam-se e foram pagar aos espanhóis, contratando-os para que não viessem a Tourém. É verdade que nem sempre as partidas mútuas terminavam bem, chegando mesmo nalguns anos a haver troca de socos e outros ‘mimos' sem consequências de maior.

As pessoas ainda se lembram dos anos em que o Entrudo era mais genuíno, de quando viam passar uma dúzia de cavalos ‘lanceiros' pelas ruas adiante, de quando havia ‘cabeçudos' (referem um que tinha ‘uma careta de plata com uns dentes mui feos'), de quando se vestiam os jericos e os rapazes que os montavam com palha, entrando assim na casa das pessoas.

Chegaram mesmo a representar jocosamente uma tourada (o ‘boi' era representado pelo Quim da Valentina e o ‘toureiro' pelo Alípio).

Nesse tempo, o ‘regimento' era composto, em geral, por cavaleiros com esporas montando seis cavalos, sobre os quais iam as melhores rendas e cobertas que se pudesse arranjar, atrás dos quais seguiam outros carros; um ano com bombos e caixas, outro ano o carro do professor (personagem sempre referido como entusiasta do Entrudo), outro ano vinham as raparigas a pé, a tocar pandeireta, algumas com uma ‘saia preta mui grande, de sete metros de pano, por baixo anáguas (saias interiores de algodão branco, com rendas), xaile e ouro ao pescoço'.

Nunca faltavam os ‘felipeiros', rapazes e raparigas que se vestiam com roupas velhas, com crossas, com galochas, e que, para completar o disfarce, colocavam um pano rendado na cara; alguns até se vestiam com peles de animais - de carneiro e de lobo, por exemplo, pois na aldeia existia uma pele de lobo guardada - outros vestiam-se ‘de bonitos, com umas cartolas de papelão mui altas, com fitas vermelhas e vestidos de branco', e as raparigas disfarçavam-se umas de pedintes, outras de ciganas, outras ainda ‘de varinas, de minhotas'.

Certo ano os do Carvalho, aliados dos das Lajes, construíram um ‘autocarro', com dois carros de vacas, um dos quais voltado, sem as rodas, assentava sobre o outro, que seguia na posição normal e levava um rapaz e uma rapariga vestidos de noivos; seguiam assim para o ‘casamento', ao qual assistiriam os respectivos ‘padrinhos', ‘pais' e ‘convidados'. Construído pelos mesmos, atrás deste seguia um carro mais pequeno, puxado por um carneiro. Num outro ano fizeram um ‘avião' sobre um carro, no qual um participante escondido ‘guiava' a hélice do avião.

Nesse mesmo ano ficou famosa a expressão do João do Forno (também conhecido pela nomeada de João do Ronha) que, sendo natural do Outeiro mas tendo casado nas Lajes onde passou a residir, continuou a pender mais para Outeiro mas um dia, apanhado pelos do Outeiro a competir pelos das Lajes, exclamou: -‘Viva o Outeiro! Ó rapazes, cada um fica onde lhe parece...!'.

São abundantes os relatos de outras brincadeiras de carácter mais ou menos tradicional passadas em anos anteriores: num ano fizeram um boneco de fogo que rodopiava, num outro ano penduraram colchas de linho numa corda atada nos estadulhos de um carro de vacas, num outro seguia uma mulher que fingia estar a parir, junto à qual seguia uma parteira que lhe estendia uma ‘borracha' de vinho, para a parturiente ‘ter mais força' etc.

Na Terça-feira Gorda, à noite, simulavam um ‘enterro' com um boneco de palha de cerca de três metros de altura, o ‘Entrudo', que seguia precedido por um cortejo de foliões a chorar essa ‘despedida'.

João Azenha da Rocha, Antropólogo do Ecomuseu do Barroso

Artigo retirado de O Espigueiro, Centro de Informações Regionais

 
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