Referendo e Feminismos criar PDF versão para impressão
16-Fev-2007

Manuela Tavares com Ana Drago em campanha - Foto de Paulete MatosVirou-se uma página na História das mulheres com a vitória do SIM no último dia 11 de Fevereiro. Fortes abraços, porque as palavras não chegavam, as lágrimas no canto dos olhos, a alegria estampada nos rostos. As mensagens a chegarem a cada minuto. Foi assim por todo o lado onde se festejou este tão bem merecido resultado. Do Porto, a Maria José Magalhães dizia-me: "Isto parece o 25 de Abril". E recordei a revolução inacabada nesta área tão importante dos direitos das mulheres. Finalmente, 33 anos após Abril, as mulheres podem sair da menoridade quanto à decisão sobre a sua vida sexual e reprodutiva. Um espaço da cidadania que tardava em chegar. Uma cidadania que abre caminhos a uma "nova cidadania que recusa a democracia mitigada" no dizer de Andreia Peniche.(1)
Artigo de Manuela Tavares, no referendo participou no Movimento Cidadania e Responsabilidade.

Durante a campanha perguntaram-me várias vezes onde estavam as feministas, as tais que foram vozes incómodas numa época em que falar de aborto era tabu e que até dava origem a processos judiciais. Respondi simplesmente: "Aqui, por todo o lado, para ganhar o referendo". Ganhar o referendo era a questão essencial. Seria com essa vitória que o campo do feminismo se poderia alargar e fortalecer. Todas as que nos empenhámos no dia a dia, na distribuição de folhetos, nas conversas de rua, nas escolas, nas sessões por todo o país onde os movimentos do Não a tudo recorriam para confundir e aterrorizar consciências - todas nós sabíamos que a questão crucial para o futuro dos feminismos seria a noite de dia 11 de Fevereiro. E, nessa noite, o salto civilizacional foi dado com a derrota do conservadorismo nas urnas. Etapa, que alguns e algumas temeram, mas crucial para abrir espaço à esquerda.

Trata-se de um abrir de portas para novas causas e lutas. Sem esquecer, contudo, que a nova lei que decorre do referendo não poderá condicionar as mulheres na sua decisão e que tem de ser feita e aplicada de forma a garantir a todas as mulheres condições de interrupção de gravidez e de acompanhamento médico nos serviços de saúde.

Não esquecendo, também, que persistem discriminações contra as quais é preciso continuar a lutar - na área do trabalho, no acesso ao poder político (a lei da paridade está aí para ser aplicada) e que ainda há muito a fazer nas questões da violência sobre as mulheres - outras lutas e debates podem ganhar espaço na sociedade portuguesa em torno das seguintes questões: tráfico de mulheres, prostituição, direitos das mulheres imigrantes, mutilação genital feminina, violação, assédio sexual, condições sociais para o exercício da cidadania, adopção e casamento por parte de lésbicas e gays, luta contra o sexismo nas atitudes, mentalidades e linguagem, partilha de poderes e responsabilidades entre mulheres e homens nas famílias... As causas não se esgotam, antes se alargam.

Estamos no tempo certo para que os feminismos possam emergir na sua pluralidade de pensamento e acção.

Manuela Tavares

(1) PENICHE, Andreia (2007), Elas somos nós, o direito ao aborto como reivindicação democrática e cidadã, Porto, Afrontamento, p.184.

 
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