Zeca Afonso, 20 anos depois criar PDF versão para impressão
22-Fev-2007

Zeca AfonsoZeca Afonso, o cantor da Revolução, morreu há 20 anos.
"Admito que a revolução seja uma utopia, mas no meu dia a dia procuro comportar-me como se ela fosse tangível. Continuo a pensar que devemos lutar onde exista opressão, seja a que nível for", escreveu ele já na fase final da sua vida.
Zeca continua presente na música popular portuguesa, que marcou como ninguém, e é recordado como homem que soube responder presente aos desafios do seu tempo.
Grândola, vila morena, o hino do 25 de Abril, é a sua canção mais conhecida, mas inúmeras músicas suas continuam a ser cantadas, a merecer novas interpretações e a constituir fonte de inspiração.

José Manuel Cerqueira Afonso dos Santos, de seu nome completo, nasceu em Aveiro a 2 de Agosto de 1929.

Filho de uma família de classe média (o pai era juiz), estudou em Coimbra onde tomou contacto com o fado de Coimbra que passou a cantar. O seu primeiro disco, gravado em 1956, chama-se Fados de Coimbra.

A partir daí vai sempre compondo, e editando, as suas Baladas, que marcaram a mudança que impulsionou na música popular portuguesa.

Impressionado vivamente com as eleições de Humberto Delgado em 1958, faz uma constante e persistente oposição e denúncia do regime fascista. Professor de História é expulso do ensino oficial em 1967, devido à sua oposição ao regime salazarista.

Depois de expulso do ensino, vive das explicações que dá e passa a cantar mais frequentemente em colectividades populares, sobretudo na Margem Sul. Em 1968 edita o álbum Cantares do Andarilho e faz um contrato com a editora, com uma remuneração mensal e obrigatoriedade de editar um álbum por ano.

Em 1969 edita Contos Velhos Rumos Novos, em 1970 Traz outro amigo também, em 1971 Cantigas do Maio, em 1972 Eu vou ser como a toupeira e em 1973 Venham mais cinco.

A sua intervenção multiplica-se com a primavera marcelista, fazendo sessões políticas com canto em colectividades, apesar das perseguições de que é constantemente alvo. Em Abril de 1973 é preso, ficando 20 dias na prisão política de Caxias.

A 29 de Março de 1974 canta no Coliseu em Lisboa juntamente com Adriano Correia de Oliveira, José Jorge Letria, Manuel Freire, José Barata Moura, Fernando Tordo e outros. A sessão termina com Grândola, Vila Morena. Militares do MFA, presentes na assistência, escolhem a senha da Revolução.

Após o 25 de Abril de 74, José Afonso envolve-se profundamente nas lutas populares da época e actua em inúmeras sessões de canto, juntamente com cantores e músicos como José Mário Branco, Fausto, Adriano Correia de Oliveira, Júlio Pereira e outros. Em 1976 participa na campanha de Otelo à presidência e em 1985, já doente, apoia a candidatura presidencial de Maria de Lurdes Pintasilgo.

Em 1976 edita o álbum Com as minhas tamanquinhas, em 1978 Enquanto há força, em 1979 Fura-fura e em 1981 Fados de Coimbra e Outras Canções.

Em 29 de Janeiro de 1983, José Afonso, já doente, realiza um grande espectáculo no Coliseu, com a participação de outros artistas, a partir do qual é editado o duplo álbum, Ao vivo no Coliseu. Da sua autoria sairão ainda dois álbuns Como se fora seu filho, em 1983 e Galinhas do mato, em 1985.

Morreu a 23 de Fevereiro de 1987 em Setúbal, vitimado pela esclerose lateral amiotrófica, que o afectou grave e progressivamente a partir de 1982.

"Não me arrependo de nada do que fiz. Mais: eu sou aquilo que fiz. Embora com reservas acreditava o suficiente no que estava a fazer, e isso é o que fica. Quando as pessoas param há como que um pacto implícito com o inimigo, tanto no campo político como no campo estético e cultural. E, por vezes, o inimigo somos nós próprios, a nossa própria consciência e os álibis de que nos servimos para justificar a modorra e o abandono dos campos de luta.", dirá de si próprio.

Mais dados biográficos no site da Associação José Afonso

 
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