A falta que a filosofia faz criar PDF versão para impressão
16-Fev-2007
cecilia_honorio.jpg"Votei pela primeira vez nos vencedores" foi uma das mensagens solidárias que recebi no dia 11 à noite. Muitos de nós votaram pela primeira vez na maioria, é um facto. O outro, e o mais importante, é que fomos parte estruturante desta maioria.
Não há, pois, nevoeiro que possa tirar nitidez à persistência e coragem dos e das militantes desta causa, nem nevoeiro que possa riscar o nome de todas e de todos os que fizeram esta campanha.
Tínhamos razão sobre a centralidade da criminalização. Quando Rui Tavares, em debate televisivo, colocava no campo dos receios sobre os resultados do Sim o peso psicológico dos "contras", na vida dos referendos, convocava a história, mas subavaliava o grande não que fez do sim ganhador: este referendo fez-se contra uma lei que humilhou e perseguiu as mulheres e contra o roteiro de vergonha dos julgamentos.

O Bloco fez as escolhas certas e com elas alargou responsabilidades: capitalizou para a democracia e para o trabalho feminista. A notável capacidade de organização e direcção militante das mulheres que fizeram este caminho, a qualidade da sua reflexão e produção teórica, as redes de solidariedade criadas, traduzem a responsabilidade de quem fez e continuará a fazer tudo pela opção e por ela escreveu outra página da democracia.

Será optimismo, essa espécie de patologia infantil de esquerda, segundo Constança Cunha e Sá.

A filosofia faz muita falta. Os caminhos da filosofia moral e política deixaram à esquerda esta herança matricial. Mas com comentadores ou sem eles, o que o país fez foi inscrever (recorro ao conceito de José Gil, estruturante no ensaio, Portugal Hoje, o Medo de Existir) o sofrimento das mulheres, a sua humilhação. E o que cada mulher e cada homem fez ao votar sim foi responder à Igreja e ao terrorismo do não: "na minha consciência mando eu", criando um direito para todos.

A filosofia faz muita falta, mas como no ministério da educação manda a ministra e a névoa neo-liberal da "sociedade do conhecimento", ela vai-se esfumando dos currículos de forma totalmente irresponsável.

Cecília Honório

 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >
© 2019 Esquerda.Net
Creative Commons License
Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons.