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16-Fev-2007
luis_branco.jpgQuando a vereadora da Câmara de Lisboa convocou uma conferência de imprensa para anunciar a suspensão de mandato, na sequência das investigações e buscas domiciliárias num dos casos Bragaparques, tinha a seu lado uma dupla visivelmente condoída, Carmona Rodrigues e Fontão de Carvalho, o presidente e o seu vice. Gabriela Seara disse depois em entrevista que nunca tinha sentido tanta vergonha em sair à rua como no dia seguinte àquela conferência de imprensa. Ontem ficou a saber que Fontão já era arguido nesse dia, que Carmona sabia de tudo, mas que Marques Mendes só a deixou cair a ela.

Por enquanto, Fontão e Gabriela são arguidos em processos diferentes, embora a imprensa insista na iminência da acusação no caso Bragaparques ao vice-presidente que começou a tratar de negócios na Câmara com Abecassis e continuou com Soares até Carmona. Fontão autorizou o pagamento de prémios de produtividade que a lei não permite aos administradores da EPUL, tendo feito isto sem o conhecimento dos órgãos sociais ou da tutela. Quando a polémica estalou no executivo, a maioria decidiu recuar e pedir a devolução dos 12400 euros a cada um dos felizes contemplados à margem da lei e só Eduarda Napoleão recusou devolver o dinheiro à Câmara, alegando a ex-vereadora de Santana e actual arguida no caso Bragaparques que primeiro têm de lhe provar que é ilegal ter enchido assim o bolso.

O ambiente de autêntico regabofe em que viviam os administradores da EPUL e empresas participadas não começou com Carmona, mas ele nada fez para os travar, e hoje temos casos de acumulação de vencimentos por parte de membros dos conselhos de administração de várias destas empresas ou a aplicação de regimes contratuais vitalícios para directores. A atitude de Carmona face a esta situação escandalosa foi a que mostrou em Dezembro numa edição do programa Prós&Contras, em que José Sá Fernandes e a apresentadora quiseram saber o que ia acontecer à EMARLIS, uma empresa municipal (aparentemente criada para encomendar estudos!) com três administradores e um funcionário. Carmona respondeu com a maior calma que a situação da empresa está em banho-maria desde 2001, altura em que outra empresa absorveu parte das suas tarefas...

O estúdio de policial de série B em que se transformou a Praça do Município pode continuar até 2009, mas a cada dia de rodagem se torna mais difícil aos actores conseguirem disponibilidade para o trabalho a que se propuseram quando foram eleitos: governar a capital do país. Um presidente que esconde aos seus vereadores durante meses que um deles está sob acusação num processo de peculato não tem condições para voltar a dirigir uma sessão de Câmara. A menos que, ao contrário de Gabriela, não lhe sobre um pingo de vergonha na cara.

Luís Branco

 
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