Os 4 grandes objectivos de Jardim criar PDF versão para impressão
26-Fev-2007

violante_saramagomatos.jpgJardim demitiu-se com o argumento das limitações financeiras impostas pela Lei das Finanças das Regiões Autónomas, o que lhe abre caminho para o seu primeiro grande objectivo: referendar regionalmente essa Lei, ter bons resultados e manter a chantagem.
O problema é o mesmo de sempre, dinheiro, mas só quando a culpa é dos outros - como acontece agora com os erros cometidos pelo PS e pelo governo da República na elaboração dessa Lei.
Esta demissão tem que ser entendida no quadro dos problemas da Região e numa estratégia de projecto pessoal e partidário.

Quando, depois de trinta anos no poder,

- a Madeira teve quase 9 000 desempregados em Janeiro, mais 18% que no ano anterior;

- a coesão social e os níveis de conforto das famílias (apesar das verbas transferidas do Estado e da Europa) são dos mais baixos do país. Ou alguém pode pensar que o PIB a 90% da média europeia é real? Claro que não. Para além da Praça Financeira, o que há são grandes fortunas abrigadas à sombra do poder;

- os sectores primários soçobram, em particular a agricultura, porque todos os dias se transforma solo agrícola em solo urbanizável, favorecendo a especulação imobiliária, tornando a ilha em mercadoria para os grandes interesses económicos. Essa é, de resto, uma das razões porque todos os instrumentos de planeamento estão, objectivamente, sem efeito;

- não há aposta em alternativas de desenvolvimento nos campos da ciência, da tecnologia, da inovação. A formação básica continua a ser das mais baixas do país;

- não há qualquer imaginação na estratégia pública de qualificação, modernização e diversificação da oferta turística;

- o PIDDAR é metade da dívida púbica e as Sociedades de Desenvolvimento são responsáveis pelos maiores crimes em matéria de uso de dinheiros públicos - obras marítimas, custando milhões e milhões de euros, tão mal feitas que nem podem ser utilizadas;

- a mobilização e participação cívicas, por muito pequenas que sejam - e são, todos os dias sofrem a intimidação, nem sempre dissimulada, por parte do poder político. O respeito pelo direito à diferença de opinião vale zero. A Madeira é um péssimo ‘caso à parte' no conjunto do país.

Quando tudo isto, e mais o que falta, acontece a culpa é antes de mais da incompetência e recusa do governo regional e do seu presidente em criar um modelo de desenvolvimento sustentável e uma cidadania activa. Saída? Pontapé para a frente, para alcançar o segundo grande objectivo: Ganhar tempo, para a todo o custo adiar aquela que é claramente a derrota de um sistema. Este modelo esgotou-se, o poder não tem imaginação, os seus protagonistas já estão por tudo. Jardim não sabe governar sem dinheiro. A saída é a vitimização em que, de resto, é mestre.

Anunciada a demissão, acrescentou que o PSD inviabilizaria qualquer solução que não passasse por eleições antecipadas. Por acaso? Claro que não. Ao tomar esta atitude, Jardim quer atingir o terceiro grande objectivo: cercar o Presidente da República e torná-lo refém do seu querer, impedindo-o de, por exemplo, não dissolver a Assembleia Legislativa e nomear um governo de gestão. A vingança de chinês contra o senhor Silva, que tanto o apertou quando foi Primeiro-Ministro!

«Acho que a Madeira não merece passar a ter um governo de medíocres». Um simples parágrafo a denunciar o quarto grande objectivo: ganhar tempo para resolver os graves problemas internos da luta pela sucessão no PSD. Jardim sabe que usou a estratégia do eucalipto e que todas apostas, que fez, falharam. Reconhece que hoje o PSD-M é um ninho de lacraus: só ele impede que se mordam e se matem. Quer sair mas não pode. Percebe que falhou, mas precisa de tempo para disfarçar.

Violante Saramago Matos

 
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