A prisão e os seus guardas criar PDF versão para impressão
03-Mar-2007
mustafa_barghouti.jpgSer palestiniano significa conhecer a prisão em primeira-mão. Como qualquer pessoa que passou por uma prisão sabe, permite-se aos prisioneiros compartilhar o espaço dos pavilhões e até lutar pelo seu estatuto e prestígio, sempre e quando o guarda tenha o controlo da fechadura, das chaves, da porta e dos muros. O que importa realmente ao guarda é poder entrar na cela a qualquer momento e manter os presos na linha. Não há nada mais triste do que ver os presos tão absorvidos na sua disputa interna que se esquecem da situação real: estão privados de liberdade, e por isso de poder.

Foi isto que aconteceu nos territórios ocupados da Palestina durante os últimos sete meses, onde a Fatah e o Hamas estiveram demasiado ocupados a dar-se cotoveladas para poder pensar noutras coisas.

Entretanto, as forças de ocupação intensificaram a sua escalada de ataques brutais, expandindo a construção de assentamentos, continuando a construção do racista muro de separação e alterando as fronteiras e a demografia de Jerusalém. Os israelitas estão a destruir qualquer oportunidade de um Estado independente palestiniano e nós estamos demasiado ocupados para falar a uma só voz.

As forças de ocupação instalaram-nos em prisões de vários tamanhos. Algumas são tão pequenas como uma cela, como é o caso de Al-Noaman ou de Qalqilya, outras são como pavilhões - Belém ou Nablus, e outras são maiores, como a Faixa de Gaza. Nestas prisões, continuamos a lutar uns contra os outros e a insultar-nos, manobrando para retirar vantagem de um poder imaginário, um poder controlado na sua totalidade pelos nossos ocupantes.

A ocupação aproxima-se do seu 40º aniversário e aperfeiçoou o sistema de opressão racista. Enquanto isso, estamos mais divididos que nunca, mais incapazes que nunca de frustrar os planos deles: as autoridades ocupantes retêm os salários dos funcionários públicos e ninguém levanta a voz para protestar. Pelo contrário, atiramos uns aos outros a culpa das consequências. Sabe-se que a soma total do dinheiro retido pelas forças de ocupação, injustificadamente e contradizendo acordos prévios, ascende a 550 milhões de dólares, mais que suficiente para cobrir o pagamento de todos os salários por pagar.

Os doadores do leste e do oeste estão a pressionar para ampliarmos os nossos serviços de segurança. Agora já podemos entrar no Livro Guiness de Recordes como o único governo do mundo onde o pessoal dedicado à segurança (mais de 81.000) supera o resto dos funcionários públicos. E, ainda assim, não gozamos de segurança nem de paz. E, o que é pior, os nossos serviços de segurança estão a ser usados como milícias, um problema que nos desagrada segundo qualquer padrão.

Costumávamos criticar o orçamento palestiniano porque destina 25% dos seus gastos à segurança, 0,8% à agricultura e 9% à saúde. Agora as coisas pioraram, o próximo orçamento, aplicável se algum dia terminar o bloqueio, destinará 33,5% à segurança, 0,7% à agricultura e 7% à saúde.

O último Conselho Legislativo foi marginalizado e a nossa resposta ao sequestro de 40 membros do novo Conselho Legislativo foi levar as suas actividades a um ponto morto. A nossa paralisante luta entre facções impede-nos de encontrar uma resposta às acções antidemocráticas da potência ocupante.

Durante a primeira Intifada, costumávamos enfrentar a ocupação. Organizávamos a ajuda médica, desafiando Israel para tratar os feridos e cuidar dos doentes. Quando Israel encerrava as nossas escolas e universidades, organizávamos comités para a educação que funcionavam na rua. Quando as autoridades ocupantes nos prendiam, estabelecíamos clínicas e aulas nas prisões. Agora fechamos as nossas escolas com as nossas próprias mãos e alguns de nós não sentem compaixão diante de uma mulher pobre pedindo ajuda para poder dar à luz.

Apesar do cerco e das prisões, durante a primeira Intifada e num momento em que não tínhamos governo, ninguém passava fome graças aos planos sociais e à caridade organizada. Agora, são milhares que não conseguem alimentar os filhos, enquanto outros engordam com salários incrivelmente altos para os níveis locais, trabalhando para agências internacionais.

Israel aprendeu com os seus erros durante a primeira Intifada. Conseguiu distrair-nos graças aos Acordos de Oslo e os seus anexos. Mudou as regras do jogo para demonizar a nossa luta e denegrir os nossos valores humanos. Agora, cada dia que passa, temos de demonstrar ao mundo a nossa boa conduta. E em vez de permanecer unidos para fazer frente a esta grave injustiça, alguns de nós regozijam-se a demonstrar os erros dos nossos compatriotas.

Toda a estratégia de Israel está baseada em distorcer a essência da nossa luta e em torcer as normas e as leis internacionais. Israel pretende converter os territórios ocupados em territórios disputados. Quer apresentar a legítima luta contra a injustiça como actos de terror, não quer que a culpa recaia na ocupação mas sim nas vítimas da ocupação. E, apesar disto, as suas ideias estão a penetrar na nossa cultura política. Alguns de nós envergonham-se ao reafirmar o direito a defender a nossa dignidade e resistência. Alguns de nós querem que capitulemos, em vez de entender a realidade e de mudá-la.

Num momento em que precisamos de uma estratégia e de unidade na acção, quando é necessário capitalizar o fracasso de Israel no Líbano, quando basta apenas a visita de um jornalista aos muros da ocupação para que se veja a falta de humanidade de Israel, os meios de comunicação do mundo centram o seu foco nas nossas lutas intestinas.

Já o disse antes e volto a dizer: não há saída se não for através de um mandato de unidade nacional. Temos de chegar a acordo, mesmo que temporariamente, sobre uma visão unificada e precisamos ter um governo de unidade nacional que esteja integrado pelas facções, os tecnocratas e os independentes. O mais importante é que seja um governo unido.

Precisamos de um mecanismo unificado para lidar com o conflito, para defender os nossos direitos, para romper o cerco e proteger o nosso povo e o nosso nome do severo juízo da História. Temos de recordar que o conflito não deve ser entre as facções, mas sim entre o nosso povo e as forças que nos impõem a ocupação, a injustiça e a repressão.

Temos de recordar que qualquer que seja o tamanho da prisão em que vivemos nas nossas aldeias e cidades, continua a ser uma prisão. Que a única forma de derrubar os muros dessas prisões é trabalhar juntos. Aqueles que nos assediam devem saber que não podem dividir-nos. Devemos unificar a nossa visão, ainda que discordemos nos nossos pontos de vista. Devemos retirar a venda que nos impede de ver os controlos que restringem os nossos movimentos, as prisões diárias, as repetidas incursões e o sorriso deleitado dos nossos torturadores e opressores.

Mustafa Barghouti é secretário-geral da Iniciativa Nacional Palestiniana. Este artigo foi publicado originalmente no semanário egípcio Al-Ahram Weekly

 

 
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