Paulo Martins: "É tempo de sacudir a canga" criar PDF versão para impressão
09-Mar-2007

Paulo MartinsSobre as próximas eleições regionais na Região Autónoma da Madeira, provocadas pela demissão de Alberto João Jardim, o jornal Esquerda entrevistou Paulo Martins. O actual deputado regional do Bloco de Esquerda revelou-nos as dificuldades que o Bloco vai enfrentar nestas eleições, com a demagogia extrema do populismo jardinista, mas também os espaços e possibilidades que tem para crescer nestas eleições e obter um papel mais destacado na Assembleia Regional.
Entrevista de Carlos Santos
Jornal Esquerda nº 18 em pdf

Esq - Se estivéssemos a emitir, em televisão e em directo, para o povo da Madeira, o que é que tu tinhas a dizer sobre estas eleições?

PM - É tempo de sacudir a canga. É tempo de acabar com o domínio de Alberto, reduzir o seu poder, e é tempo também de não depender do poder de Lisboa. É tempo de seguir o nosso próprio caminho. Esse caminho faz-se contra os senhores da Madeira e também contra as medidas de Lisboa, que não servem os madeirenses.

Esq - Mas vai ser uma campanha difícil?

PM - Campanha difícil pela rapidez com que se vai desenrolar e sobretudo por enfrentar a demagogia populista de AJJ que pretende fazer destas eleições um referendo à Lei das Finanças Regionais.

Essa lei foi um autêntico disparate do governo socialista, que pensou que cortando financeiramente verbas para a região iria reduzir a capacidade do governo regional para se manter no poder a partir das eleições de 2008. Ou seja, quis conduzi-lo a uma situação onde o descontentamento popular aumentasse, onde a capacidade de resposta do governo regional diminuísse e em que perdesse a maioria absoluta. Só que AJJ cortou com esta caminhada que o governo Sócrates pretendia. Agora tenta aparecer aos olhos da população da região como a vítima dos "complots dos colonialistas", como ele diz.

É uma situação que vai conduzir a grande demagogia, porque realmente as medidas do governo da República cortam concretamente 37 milhões. Mas não são estes 37 milhões que determinam o piorar das condições de vida da população da região autónoma da Madeira.

O desemprego tem aumentado, é a única região do país onde o desemprego continua a aumentar e não havia Lei das Finanças Regionais. Os atentados ao meio ambiente aumentam, a falta de criação de postos de trabalho é uma realidade cada vez mais evidente. Os casos cada vez mais evidentes de corrupção nas questões urbanísticas crescem e isto não é por culpa da Lei das Finanças Regionais.

Havia uma situação de crise da governação jardinista, de crise do poder jardinista, e esta lei serve a esse poder como bóia de salvação para enfrentar o pior, que seriam eleições em 2008, com o desgaste contínuo do governo regional.

É preocupante enfrentar a demagogia, mas o Bloco está em boas condições. Porque o Bloco teve uma posição muito clara na república contra a lei de finanças regionais, dizendo que era uma lei contra a autonomia e era uma lei que não assentava num fundamento válido. A Madeira tem um PIB elevado por causa da especulação financeira que se faz na Zona Franca, a praça financeira. É essa especulação que faz com que o PIB dispare e que a Madeira apareça nas estatísticas como uma região rica, quando não o é. A Madeira já teve um corte de cerca de 50% das verbas provenientes da União Europeia, pegando nesse facto o governo da república corta também, o Bloco por essa razão e porque atentava contra princípios da autonomia foi contra a lei. Isso coloca-nos em clara oposição ao governo Sócrates. Mas na Madeira também não damos tréguas ao governo de João Jardim e estamos na linha da frente contra este governo.

Esq - Mas numa campanha bastante bipolarizada, onde aparece por um lado Alberto João Jardim e por outro lado os representantes do engenheiro Sócrates, o Bloco não corre o risco de ficar "entalado"?

PM - O risco de ficarmos entalados aconteceria se houvesse utilidade de voto no Partido Socialista. Essa utilidade de voto, por exemplo, atingiu-nos nas últimas eleições regionais, onde parecia que o PS poderia conseguir uma maioria relativa ou retirar a maioria absoluta ao PSD.

Neste momento a utilidade de voto não se vislumbra. O PS está numa posição defensiva, alinhou com o governo da República na lei das finanças regionais, alinhou com o governo da República no estatuto da carreira docente, na lei de bases da segurança social, nas medidas que tomam contra os funcionários públicos. Defende, com "unhas e dentes", os atentados ao serviço público a nível nacional.

O PS, neste momento, não só não tem um elan que o faça aparecer como alternativa política, para disputar a maioria, como ainda por cima está numa atitude defensiva para se justificar das medidas que a República toma. A grande dificuldade do Partido Socialista será segurar a sua base eleitoral. Hoje já se notam eleitores do Partido Socialista que dizem: "tenho votado PS, mas pelo que eles têm feito no país, pelo que agora fizeram na Madeira, o meu voto vai mudar".

Esq - Que hipóteses é que o Bloco tem de aumentar o número de deputados?

PM - Uma garantia o Bloco tem para estas eleições: com menos de um não ficamos. Há uma redução do número de deputados pela região. A Assembleia Legislativa tinha 68 deputados eleitos por onze círculos eleitorais, cada círculo era um concelho da região. A região passou a ter agora uma Assembleia composta por 47 deputados, um círculo único, isto leva a que todos os votos se possam converter em mandatos. Mesmo a projecção dos piores resultados, ao longo destes anos, coloca a eleição garantida de um deputado e sempre à beira de eleger um segundo.

Pensamos que está ao nosso alcance conseguir mais do que um deputado. Vamos trabalhar para isso. Outro indicador, que não se pode transplantar directamente para umas eleições legislativas como é o parlamento regional, indica que o Bloco começa a ganhar e a granjear uma ampla simpatia na região. Os resultados obtidos por Francisco Louça, como candidato à Presidência da República, também nos apontam num sentido positivo: obteve na Região Autónoma da Madeira uma excelente votação, uma dos melhores do país, e ultrapassou a casa dos 10% em várias freguesias importantes da região.

Assim os sinais são bons, o reconhecimento do nosso trabalho e do nosso papel é real. Converter toda a apreciação positiva pelo trabalho desenvolvido pelos homens e mulheres do Bloco, pelos deputados e deputadas que têm passado pelo Parlamento Regional, converter essa simpatia em votos é a tarefa em que temos de meter mãos à obra.

Entrevista de Carlos Santos

 
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