Uruguai-EUA: Bush, a visita incómoda criar PDF versão para impressão
09-Mar-2007

Encontro de Bush com Tabaré Vasquez (Maio de 2006)A chegada de Georges W. Bush ao Uruguai, nesta 6ª feira, levantou grande protesto na coligação de esquerda que governa pela primeira vez este país. Os sectores mais radicais protestaram, mas o presidente Tabaré Vásquez actua com pragmatismo, ainda que se reafirme anti-imperialista.
A Frente Ampla (FA), composta por partidos historicamente opostos à hegemonia e ao militarismo de Washington, ao neoliberalismo económico e às directivas impostas pelos organismos de crédito multilaterais, envolveu-se num duro debate interno sobre a atitude a seguir face à presença do presidente norte-americano, que devolve a visita que Vásquez fez em Maio de 2006.
Artigo de Raul Pierri publicado por IPS.

O Partido Comunista (PCU), um dos membros fundadores da FA, apresentou uma moção para que toda a coligação apoiasse uma marcha de protesto organizada pela central sindical única, PIT-CNT, prevista para esta 6ª feira em Montevideu, mas foi recusada.

Finalmente e após duro debate, a direcção política da FA, no governo deste pequeno país de 3,2 milhões de habitantes desde Março de 2005, deu liberdade de acção a todas as suas forças para participar nas mobilizações. Vários deputados já confirmaram publicamente a sua presença no protesto.

Após essa decisão, apelaram à participação na marcha da PIN-CNT, ligada tradicionalmente a forças que hoje estão no governo, o PCU e o Movimento de Participação Popular, o sector liderado pelo outrora guerrilheiro Movimento de Libertação Nacional Tupamaro e que recolheu a maioria dos votos que levaram Vasquez à presidência.

Entretanto, os pequenos colectivos Corrente de Esquerda e 26 de Março aderiram à mobilização do agrupamento civil Coordenadora Anti-imperialista, que além de repudiar a visita de Bush critica o governo de Vasquez pelo que consideram uma atitude complacente face a Washington.

O presidente dos EUA chegará na noite desta 6ª feira a Montevideu e seguirá logo para a isolada residência presidencial de Anchorena , a mais de 200 Km a oeste da capital do país, onde reunirá com Vasquez, que veio das fileiras do Partido Socialista, outro dos históricos membros da coligação. A Federação Uruguaia das Cooperativas de Habitação por Ajuda Mútua, uma das principais organizações sociais do país, iniciou 3ª feira uma marcha a pé de repúdio a Bush desde Montevideu até Anchorena, situada próximo da cidade de Colónia do Sacramento.

"A tradição artiguista (do herói da independência nacional, José Artigas) e anti-imperialista mantém-se viva no sector sindical. As organizações dos trabalhadores são coerentes com os princípios que sempre mantiveram", disse à IPS o secretário de organização da PIT-CNT, Marcelo Abdala. "Não entendemos porque é que um governo que se autoqualifica de anti-imperialista não tem uma participação activa nesta mobilização", acrescentou.

Num discurso feito na passada semana, quando frente a uma multidão fez um balanço da gestão governamental, Vasquez afirmou que o seu governo era "popular, anti-oligárquico e anti-imperialista". Explicou, no entanto, que a visita de Bush é parte de "uma estratégia de desenvolvimento" na qual se deve "assegurar acesso à maior quantidade de mercados, entre os quais o dos Estados Unidos". "Dizemos ‘não' a qualquer forma de imperialismo. O cortês não substitui o valente.", justificou.

As tensões dentro da FA pela postura de Vasquez sobre os EUA, que tem no ministro da Economia, Danilo Astori, o principal impulsionador, vêm de há meses. Em Janeiro assinou com Washington um acordo sobre comércio e investimento (TIFA, na sigla em inglês), que foi objecto de duras críticas dos sectores mais radicais da coligação.

Após infrutuosos pedidos dentro do Mercado Comum do Sul (Mercosul) por uma maior flexibilidade para negociar acordos comerciais extra-regionais, Montevideu empreendeu o caminho isoladamente e procurou uma aproximação com Washington.

Vasquez anunciou em Maio de 2006, após visitar a Casa Branca, o início de conversações formais entre os dois governos e desde então defendeu a ideia de um tratado de comércio livre que pode chegar a adoptar o formato bilateral. "O comboio, algumas vezes, passa só uma vez", disse então.

No entanto, perante a falta de apoio dos seus parceiros do Mercosul (Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela), a resistência de sectores da FA, dos sindicatos e das organizações da sociedade civil, Vasquez optou por um acordo mais flexível, como é o TIFA, que segundo alguns dirigentes e analistas prepara o caminho para um possível tratado comercial.

Não obstante estas tensões, o politólogo uruguaio Daniel Buquet, investigador do Instituto de Ciência Política da Faculdade de Ciências Sociais, da estatal Universidade da República, negou que se aprofundem as divisões na coligação governante.

O debate no seio da FA "já está bastante resolvido. O tema já se processou e decidiu-se tomar uma posição intermédia, dando liberdade para que os sectores mais radicais participem nas mobilizações, mas permitindo por sua vez o pragmatismo no governo. Creio que isto não vai aprofundar-se mais. Não há nada que fazer a tal respeito.", disse à IPS.

Buquet também minimizou a possibilidade de que Bush tenha em mira aproveitar o descontentamento do Uruguai com o Mercosul para dividir o bloco regional e em alternativa promover acordos de comércio livre na região, após o fracassado projecto norte-americano de criar uma área de comércio livre das Américas.

O bloco foi prejudicado pela disputa de dois anos entre Montevideu e Buenos Aires pela instalação da indústria de celulose na margem uruguaia de um rio partilhado e pelo bloqueios de passagens internacionais com que protestaram moradores e ambientalistas argentinos, temerosos dos efeitos contaminantes.

Além disso, pesam na lentidão do processo de integração a falta de atenção dos "países grandes" às desvantagens e debilidades relativas do Paraguai e do Uruguai que caracterizaram o bloco desde a sua criação em 1991.

Entretanto, Washington completou tratados de livre comércio com Chile, América Central e República Dominicana e encaminha-se a concretizá-los com Colômbia, Panamá e Peru, estes últimos pendentes nos parlamentos respectivos.

"O descontentamento do Uruguai (com o Mercosul) já passou, sustentou Buquet, e o governo de Tabaré Vasquez já decidiu que não vai prosseguir nesse caminho" de afastamnento. Isto poderá considerar-se um êxito do presidente do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva, que após vários encontros frustrados e perante a iminente viagem de Bush à região, decidiu fazer uma fugaz visita a Vasquez, há menos de duas semanas, na qual se comprometeu a combater as assimetrias dentro do bloco e a atender os protestos dos "pequenos".

"A verdadeira preocupação de Bush é (o presidente da Venezuela, Hugo) Chávez e a sua influência na América Latina. Bush tem previsto visitar os governos que lhe são mais próximos e por sua vez mais afastados de Chávez", indicou o politólogo.

A viagem de Bush, que o levará a Brasil, Uruguai, Colômbia, Guatemala e México, é na realidade uma disputa pela liderança regional com Chávez, que conta os seus melhores aliados na Argentina, Bolívia e Equador, sustentou.

Precisamente, Chávez tem previsto participar de um grande acto público em Buenos Aires esta 6ª feira, horas antes de, só a 55 km do outro lado do Rio da Prata, Vasquez receber o seu homólogo norte-americano. Organizações civis argentinas convidaram também ao acto os presidentes Evo Morales da Bolívia e Rafael Correa do Equador.

"As mais importantes negociações na visita de Bush dar-se-ão no Brasil (5ª e 6ª feiras), o principal opositor à criação da ALCA e bandeira dos protestos do Sul contra os subsídios agrícolas adoptados pelos países do Norte. Não obstante não creio que se produza qualquer avanço significativo", sustentou Buquet.

"Em tudo isto, o Uruguai é só um ‘convidado de pedra'. A última palavra é dos países grandes", acrescentou.

O politólogo sustentou que na reunião de Bush e Vasquez se poderia avançar para um tratado de comércio livre.

No entanto, o vice-presidente uruguaio, Rudolfo Nim Novoa, negou que ambos os países assinem um convénio desta índole durante a visita oficial, já que a informação disponível até agora indica que o único ministro que acompanhará Bush será a sua secretária de Estado, Condoleeza Rice, e nenhuma autoridade comercial.

Espera-se que Vasquez solicite a Bush um maior acesso a produtos uruguaios como carne de vaca e têxteis e que ponha na mesa temas ligados à produção de biocombustíveis, educação, saúde e programas informáticos.

 
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