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12-Mar-2007
chavezNas entrevistas que deu durante a viagem à Argentina, o presidente Hugo Chávez, da Venezuela, denunciou as tentativas de Washington para interpor uma cunha entre os países do Mercosul, e sobretudo impedir que nasça o novo Mercosul, "que é o que nós propomos com a entrada da Venezuela." Chávez faz também a comparação entre George Washington e Simón Bolívar, que considera um percursor do socialismo.

Hugo Chávez: Bush quer impedir que nasça o novo Mercosul

Martín Piqué, Página/12, Buenos Aires, 10/3/07

Como cada vez que se encontra com um grupo de pessoas interessadas em saudá-lo ou em conversar, Chávez não teve problemas em deter-se para falar com os jornalistas. Imediatamente ficaram claras quais eram as suas preocupações: a mudança de discurso e de estratégia de George W. Bush em relação à América Latina e a oferta de substituir de forma progressiva o petróleo pelos combustíveis biológicos. Nos bastidores, com os gravadores desligados, os bolivarianos confiavam que a "contra-viagem" de Chávez à Argentina procurava contrariar o esforço de Washington para seduzir o Brasil. Em São Paulo, Bush propôs a Lula assinar um acordo de cooperação para desenvolver o etanol. Chávez dedicou quase todo o tempo a replicar e ironizar as promessas do norte-americano. "Seria uma loucura semear tanto milho, cana de açúcar e soja não para alimentar animais ou humanos mas sim para dar sustentação ao americam way of life", advertiu.

Qual a sua opinião sobre as declarações de Bush no Brasil?

Bush disse que vai concluir a revolução começada por Washington e Bolívar. Viram como manipula? Compara Washington com Bolívar. Washington nasceu pobre e morreu rico. Bolívar nasceu rico e morreu pobre. Washington foi o líder de um processo de independência para apoiar a elite esclavagista. Quando morreu, tinha fazendas e escravos. Bolívar, em contrapartida, libertou os milhares de escravos que herdou e levou-os à guerra com a bandeira da igualdade, liberdade e fraternidade. Washington é o símbolo do capitalismo. Bolívar é um percursor do socialismo. A frase de Bush não foi dita por se ter lembrado de repente. Ele não fala por si mesmo, tem assessores que o põem a falar. É suspeito que tenha dito que é necessário concluir as revoluções começadas por Washington e Bolívar. E que o faça justamente agora, quando detivemos um grupo de pessoas com algumas evidências de que estão a preparar uma vez mais um magnicídio em Caracas. É muito suspeito.

Que acha do artigo do New York Times com o título "Obrigado Chávez"? (O jornal disse que, graças ao venezuelano, o governo de Bush se tinha lembrado da pobreza na América Latina).

Bush deu-se conta agora de que há pobreza na América Latina. E Cristóvão Colombo descobriu as Índias! E oferece-nos um grande plano: 75 milhões de dólares e enviar um barco para atender 80 mil pacientes e fazer 1.500 operações. Bush fala de 75 milhões de dólares como se fosse um número gigantesco, quando, só entre Havana e Caracas, em ano e meio, fizemos já 400 mil operações da Misión Milagros (missão que visa tratar pessoas desfavorecidas com problemas de visão). E entre Argentina e Venezuela lançamos o Bono del Sur (título do Sul) e captámos 1.500 milhões de dólares para projectos de desenvolvimento. Teríamos que ver que percentagem significam esses 75 milhões de dólares dos 500 mil milhões de dólares que os Estados Unidos gastam em armamento e na invasão de povos, ou em manter 20 ou 25 porta-aviões nucleares em todo o mundo. Mantêm o mundo ocupado militarmente. Ou que percentagem é do que pagamos em dívida externa, nós povos da América Latina, nos últimos 20 anos. E a dívida não baixa, mantêm-se na mesma. A Argentina e a Venezuela vêm-se libertando dessa dívida ao Fundo Monetário. Já não vai ser preciso, até podíamos fazer-lhe algum empréstimo (risos). Agora que o Fundo está em crise... Têm que aplicar o seu próprio choque.

Pensa que os Estados Unidos querem aproveitar o conflito em torno das empresas de celulose para meter uma cunha no Mercosul?

Nada é inocente. É um plano. Estão a tentar debilitar o Mercosul e sobretudo impedir que nasça o novo Mercosul, que é o que nós propomos com a entrada da Venezuela. E sempre tentando criar fricções entre a Colômbia e a Venezuela. Diante desta viagem imperialista, saímos à frente com esta viagem anti-imperialista.

Vai reunir com Evo Morales?

Vamos-nos encontrar na Bolívia e visitar a zona das inundações, que é terrível e é produto das alterações climáticas. Agora vem Bush com esta história do plano do etanol. É uma loucura! Bush disse que em 2017 vão produzir a quantidade de etanol para substituir até 20% da gasolina. Isto parece algo muito positivo. O ambiente, combustível verde, que não contamina...

Mas vejamos de outra forma. Para produzir um milhão de barris de etanol, é preciso semear 20 milhões de hectares de milho. Estaríamos a semear muito milho, muita cana de açúcar e muita soja, mas não para alimentar nem animais nem humanos, mas sim veículos, para dar sustentação ao american way of life. Mas o planeta não aguenta. É uma verdadeira loucura. Temos de responder com uma aliança de países produtores e exportadores de gás, começando pela América do Sul. Bolívia, Venezuela, Argentina, que tem uma tecnologia de gás muito avançada. É essa a resposta que temos de dar.

Como fica a sua relação com Lula depois da visita de Bush a São Paulo?

O Brasil tem os seus interesses e é necessário respeitá-los. Isso não põe em nada em perigo a relação dos países do Mercosul, ou a relação de Lula com Chávez. A amizade e a relação entre nós é inquestionável.

 
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