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21-Jul-2006

UMA GUERRA COLONIAL PROLONGADAlusatanqueisrael01
Com o apoio dos EUA, Israel espera isolar e derrubar a Síria, mantendo o domínio do Líbano. Uma guerra colonial prolongada está pela frente, já que o Hezbollah, como o Hamas, tem apoio de massas. Não pode ser definido como "terrorista". O Mundo Árabe vê as suas forças como combatentes da liberdade, que resistem à ocupação colonial.
Tariq Ali
Publicado originalmente no Guardian de 20/7/2006

UMA GUERRA COLONIAL PROLONGADA

Com o apoio dos EUA, Israel espera isolar e derrubar a Síria, mantendo o domínio do Líbano

Na sua última entrevista - depois da Guerra dos Seis Dias de 1967 - o historiador Isaac Deutscher, cujos parentes mais próximos tinham morrido nos campos nazis e cujos parentes sobreviventes viviam em Israel, disse: "Justificar ou apoiar as guerras de Israel contra os árabes é prestar um péssimo serviço e prejudicar os seus interesses a longo prazo." Comparando Israel com a Prússia, fez um aviso sombrio: "Os alemães resumiram a sua própria experiência numa frase amarga: ‘Man kann sich totseigen!' ‘Podes vencer-te até a morte'."

Hoje, nas acções de Israel podemos detectar muitos dos elementos da soberba: a arrogância imperial, a distorção da realidade, uma consciência da sua superioridade militar, a auto-confiança com que destrói a infra-estrutra social de estados mais fracos, e uma crença na sua superioridade racial. A perda de muitas vidas civis em Gaza e no Líbano importam menos que a captura ou a morte de um único soldado israelita. Nisto, as acções israelitas são validadas pelos EUA.

A ofensiva contra Gaza tem o objectivo de destruir o Hamas por se atrever a vencer uma eleição. A "comunidade internacional" ficou de lado enquanto Gaza sofre um castigo colectivo. Dezenas de inocentes continuam a morrer. Isto nada disse aos líderes do G8. Nada foi feito.

O atrevimento de Israel tem sempre luz-verde de Washington. Neste caso, os interesses de ambos coincidem. Querem isolar e derrubar o regime sírio assegurando que o Líbano se torne protectorado israelo-americano, seguindo o modelo da Jordânia. Argumentam que este era o desenho original do país. O Líbano contemporâneo, é verdade, continua a ser em larga medida a mesma criação artificial do colonialismo francês que era no início - uma faixa da costa da Grande Síria cortada do resto do território por Paris para formar um cliente regional dominado por uma minoria maronita.

O xadrez confessional do país nunca permitiu que se fizesse um censo demográfico adequado, por medo de revelar é negada a representação adequada no sistema político a uma apreciável maioria muçulmana - hoje talvez uma maioria xiita. Tensões sectárias, ampliadas pela condição de refugiados dos palestinianos, explodiram numa guerra civil nos anos 70, dando origem à entrada das tropas sírias, com a aprovação tácita dos EUA, e o seu estabelecimento no país - ostensivamente como um tampão entre as facções beligerantes, e para desencorajar o domínio de Israel, que jogou a carta das invasões de 1978 e de 1982 (quando o Hezbollah não existia).

O assassinato de Rafik Hariri provocou grandes manifestações da classe média, exigindo a expulsão dos sírios, enquanto organizações ocidentais chegavam para assistir aos progressos de uma Revolução dos Cedros. Apoiado nas ameaças de Washington e de Paris, o impulso foi suficiente para forçar uma retirada da Síria e produzir um governo fraco em Beirute.

Mas as facções libanesas permaneceram divergentes. O Hezbollah não se tinha desarmado, e a Síria não tinha caído. Washington tomara um peão, mas o castelo ainda estava por capturar. Estive em Beirute em Maio, quando o exército israelita entrou e matou dois "terroristas" de um grupo palestiniano dissidente. Este respondeu com rockets. A aviação israelita puniu o Hezbollah atacando com mais de 50 bombas as suas aldeias e sedes perto da fronteira. A actual ofensiva israelita tem o objectivo de tomar o castelo. Vai ter sucesso? Uma guerra colonial prolongada está pela frente, já que o Hezbollah, como o Hamas, tem apoio de massas. Não pode ser definido como uma organização "terrorista". O Mundo Árabe vê as suas forças como combatentes da liberdade, que resistem à ocupação colonial.

Há 9 mil presos políticos palestinianos nos gulags iarelitas. É por isso que os soldados israelitas são capturados. Por isso tem havido trocas de prisioneiros. Culpar a Síria e o Irão pela última ofensiva de Israel é uma frivolidade. Até que a questão palestiniana esteja resolvida e acabe a ocupação do Iraque, não haverá paz na região. Uma força da "ONU" para dissuadir o Hezbollah, mas não Israel, é uma ideia sem sentido.

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