Entrevista a James Petras criar PDF versão para impressão
21-Jul-2006

O PLANO É CRIAR A GRANDE ISRAEL
thumb_flagNesta entrevista à rádio uruguaia Centenário, republicada no Rebelión, James Petras, professor de sociologia da Binghamton University, Nova York, afirma que o actual conflito vai prolongar-se, porque Israel é governado por uma visão megalomaníaca que tem interesses expansionistas próprios, que não se subordinam sequer aos dos EUA.

thumb_james_petrasQue perspectivas tem o conflito no Médio Oriente? Qual é o plano de Israel?

O plano de Israel - e há que dizê-lo com toda a franqueza - é a criação do que chamam Grande Israel. Há já meio século que os principais líderes de Israel têm uma visão megalomaníaca: a de que Israel deve ir do Canal do Suez até o Eufrates. Parece uma visão apocalíptica, bíblica e imperial, mas é nela que acreditam os principais políticos de Israel. Não querem ficar simplesmente com a metade de um pequeno país. A partir desta visão, com diferentes graus de agressividade, primeiro conquistaram territórios da Palestina; ocuparam o Sul do Líbano e tiveram de sair à força devido à resistência do Hezbollah. E agora voltam à carga, destruindo totalmente a economia de Gaza para forçar o que alguns trabalhistas sionistas chamam "as condições para a saída voluntária da população palestiniana" (dizem assim, com todo o cinismo) e é o mesmo que estão a fazer no Líbano agora, sobre o pretexto de um conflito provocado por dois soldados presos. Com este pretexto, estão a destruir toda a economia do Líbano, atacam inclusive um governo que é cliente de Washington e atacam soldados fiéis à liderança política pró-Washington.

Isto mostra que Israel não é um simples agente do imperialismo norte-americano, mas sim que realmente tem as suas próprias ambições imperiais e a sua própria estratégia. O facto de os Estados Unidos tolerarem que Israel esteja a atacar os seus clientes tem a ver com o lóbi judeu nos EUA, que não permite que Washington defenda os seus próprios clientes, defenda os investimentos norte-americanos no Líbano nem os projectos de reconstrução de Gaza.

Vocês devem saber que a central eléctrica de Gaza foi construída por homens do governo Bush, numa forma de tentar estabilizar o que existe em Gaza. A primeira coisa que Israel fez foi destruir esta central que custou mais de 50 milhões de dólares. E, como é habitual, todo o lóbi, todas as organizações comunais judaicas apoiam Israel contra a política de Washington, o que indica que aqui temos uma comunidade cuja primeira lealdade é com o governo de Israel e não com o país onde vivem. Mas que têm uma enorme força e controlam os congressistas. Bush sabe disso e tem medo, neste ano eleitoral, de mostrar divergências com Israel, apesar de estar a subverter a sua política de estender a influência norte-americana a partir das mudanças de regime, como fez no Líbano.

Recordo que a política dos EUA, a partir do assassinato de uma figura política, [o primeiro-ministro Rafik Hariri] foi forçar a Síria a abandonar o Líbano e, a partir desse êxito, construir um governo no Líbano favorável aos interesses de Washington. O mesmo que agora Israel está a destruir. E está a provocar a polarização a favor da Síria, a favor do Hezbollah e contra os EUA. Como podemos explicar que Israel possa fazer coisas assim? Porque a extensão do poder e a ocupação do território do Líbano por parte de Israel é apoiada pelos presidentes das principais organizações judias que, junto com os milionários judeus, financiam mais de 60% das contribuições que recebe o Partido Democrata e 35% das contribuições que recebe o Partido Republicano. Se quiserem analisar o impacto da política dos sionistas aqui nos EUA, devem estudar - eu construí um dossier que documenta a penetração dos Comités de Acção Política, o que aqui chamam PAC - como contribuem com dinheiro, activistas e participação nos comités de assessores. Aqui, estamos "sionizados" em relação à política do Médio Oriente.

Nesta perspectiva, não estou a ver nenhuma intervenção pela paz por parte dos Estados Unidos e, como consequência da sua influência na Europa e o seu poder de veto nas Nações Unidas, esta guerra vai continuar. Não há qualquer possibilidade de que se negocie, haja trocas de prisioneiros ou se resolva, porque os prisioneiros são pretextos para Israel estender o seu poder e influência.

Este cálculo de Israel é muito perigoso para todo o mundo. Porque se Israel lançar um ataque contra a Síria, vai provocar uma reacção do Irão. O Irão tem mísseis que podem alcançar Haifa e até mesmo Tel Avive, e isso implica uma guerra generalizada, porque aqui a influência sionista vai empurrar os EUA contra o Irão e a Síria, e aí estaremos numa guerra mundial generalizada.

Esse é o grande perigo do fanatismo judeu fundamentalista que apoia este estado terrorista de Israel. Não é um simples problema entre Israel e a Palestina e os direitos dos palestinianos.

Estamos a dizer que há um perigo mundial, como as sondagens na Europa apontam. Várias vezes nas sondagens se pergunta qual é o principal perigo para a paz e o estado que nomeiam primeiro é Israel. A resposta de Israel é que toda a Europa é antisemita! Em vez de reflectirem e perguntar "que estamos a fazer?", a resposta automática de Israel é culpar os que estão preocupados e não perguntar-se internamente.

O mesmo acontece com as organizações sionistas, judeus que no mundo automaticamente respondem na mesma linha, como papagaios do que diz Israel. É como o stalinismo nos piores momentos. São correias de transmissão automática. Um dia Israel diz uma coisa, nos dias seguintes repetem-no dentistas, médicos, advogados, especuladores, meios de comunicação, todos repetem palavra por palavra.

Não tenho nenhuma visão optimista pela paz. Enquanto Israel estiver governado por uma visão megalómana, com uma arrogância e uma prepotência espantosas, não haverá paz. Vamos para uma guerra prolongada.

 
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