Sócrates, de 1.º Ministro a menino criar PDF versão para impressão
16-Mar-2007
cecilia_honorio.jpgO Sol vendeu-se no passado fim-de-semana com o sorriso de um 1.º Ministro que, afinal, também foi menino.
Inquietante o sorriso, mais inquietante o título do extenso artigo que atravessa a vida do 1.º Ministro, da infância ao presente, em eflúvios de revelação de uma personalidade ajustada ao, "Nascido para o Poder". E na travessia da vida de Sócrates, acaba-se como se começa, pelas lições da infância: Sócrates aprendeu com o professor primário que "Roma só gosta dos que vencem".
"Roma só gosta dos que vencem". Roça o piroso, mas diz-se que gostos não se discutem. Em qualquer caso, nem a história nem a psicanálise precisam de ser convocadas para a evidência: Roma foi um império e os vencedores foram vencidos.

Os sorrisos podem ser como os gostos e cada um ver neles o recheio que entender. Mas os sorrisos dos políticos foram alvo de vários estudos. O neuro-biólogo, Didier Vincent (1), por exemplo - que recorda que o sorriso de boca aberta e dentes à mostra é o mais social de todos e o menos autêntico - faz deles um interessante catálogo: Milosevic é o sorriso vazio, que mobiliza os arcos zigomáticos mas deixa os olhos impassíveis; Nixon, comediante e hábil político, é o sorriso falso com contracção dos zigomáticos e de toda a orbicular; Clinton, o comediante por excelência, aquele que está convencido da sua própria sinceridade, é o sorriso tipo Duchenne (o sorriso verdadeiro) com contracção dos zigomáticos e de apenas parte externa da orbicular (os olhos sorriem).

Sócrates pode não ter chegado ao apuramento do sorriso de Clinton, mas o sofisticado laboratório de produção da sua imagem inscreve-o nas mais modernas estratégias populistas. Nisso foi muito moderno. Encheu a retórica de chavões apetecíveis: esquerda moderna, combate aos privilégios e às corporações. Quer-se o líder carismático que o populismo exige, aquele que, para se distinguir do demagogo simples, precisa de ser, ou de parecer ser, um "emocional verdadeiro" e de se agarrar à retórica de fórmulas choque.

É Thomas Frank, apostado em desvendar os mistérios do "populismo de mercado" nos EUA (2), que diz: o reaccionário é sério, mas o populista que se preze, é cool.

Sócrates faz parte dessa nova geração de políticos mais "humanos", mais próximos, que não são génios da academia, que são homens "comuns" e gostam de coisas que os outros gostam. São os novos filhos dos aparelhos partidários e o artigo recorda que este foi um primeiro filho do PSD.

Sócrates precisa de sorrir e de ser cool. Precisa, hoje, de ter sido menino, de ter aprendido na escola que Roma só gosta de vencedores, precisa da boa nova de que o poder é o seu fado. À beira de um golpe fatal na função pública - que faz Van Zeller babar-se de inveja pela porta aberta à liberalização dos despedimentos - e nos professores, o governo prepara-se para cortar a cabeça a boa fatia da base eleitoral do PS.

Cecília Honório

(1) Le coeur des autres

(2) Le marché de droit divin. Capitalisme sauvage et populisme de marché

 
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