Desastres climáticos: três obstáculos a que se faça alguma coisa criar PDF versão para impressão
19-Mar-2007
immanuel_wallerstein.jpgHá mais de 50 anos que os cientistas nos advertem sobre os perigos das transformações do clima provocadas pelo homem. Mas, nos últimos dois ou três anos, houve duas importantes mudanças. Primeiro, uma série de relatórios de reconhecida importância, feitos por diferentes grupos científicos, afirmaram não apenas que estes perigos são reais, mas que estão a acontecer a um ritmo muito mais rápido que o previsto há cinco anos. Como a primeira-ministra da Alemanha, Angela Merkel, disse recentemente, "Não são cinco para a meia-noite; são cinco minutos depois da meia-noite."

A segunda mudança é o grau a que estas alterações se tornaram visíveis para as pessoas comuns. Houve o tsunami no Oceano Índico. Houve o aumento da frequência e da ferocidade dos furacões nas Caraíbas, culminando no desastre do Katrina. Imagens de desmoronamentos das zonas geladas na zona do Árctico espalharam-se pela imprensa. E este ano os meteorologistas de Londres, que mediam há três séculos as temperaturas, anunciaram que este tinha sido o Inverno mais quente de Londres desde que começaram a fazer as medições. A contrapartida do tempo quente na Europa foram os tornados e desastres naturais noutros lugares.

Dito isto, por que tão pouco está a ser feito? Não é claramente por falta de consciência do problema, por muito que algumas pessoas tentem negar a sua existência. Na verdade, o grau de disponibilidade que os líderes políticos mundiais demonstraram para fazer alguma coisa, e o grau de pressão da opinião pública para que façam alguma coisa, são notavelmente baixos. Quando há uma tão clara disjunção entre conhecimento e acção, deve haver obstáculos na arena sócio-política para explicá-la. De facto, há três obstáculos muito poderosos que impedem a acção: os interesses dos produtores/empresários, os interesses nas nações menos ricas, e a sua e a minha atitudes. Cada uma delas é um poderoso obstáculo.

Os produtores/empresários estão preocupados em primeiro lugar com a lucratividade da sua actividade. Se lhes pedem para internalizar os custos que actualmente não têm de pagar (a melhoria ou a limpeza dos seus processos poluidores), isso irá afectar seriamente os seus lucros de duas formas. Primeiro, força-os a aumentar os preços, o que pode acarretar a perda de certos clientes. E se internalizam os seus custos mas o mesmo não é feito pelos seus competidores, podem perder vendas para a competição.

É por isso que, de uma forma geral, é pouco provável que as acções voluntárias dêem resultado, já que raramente são unânimes. Neste caso, o produtor/empresário virtuoso vai perder para os competidores. A solução para isto é que o governo torne compulsória a internalização dos custos. Mesmo que isto resolva o problema da competição nacional, ainda deixa em aberto a perda para os competidores internacionais, assim como o facto de, até um certo preço, haver algum declínio de clientes.

O segundo problema é precisamente o da competição internacional. Países mais pobres procuram aumentar a sua capacidade de competir no mercado mundial. Uma das formas pelas quais o fazem é produzir determinados produtos a preços mais baixos. Se se decretam (através, por exemplo, de um tratado internacional) certas mudanças no processo produtivo (por exemplo, a redução do uso de carvão para a produção de energia), isto requer reestruturações caras na indústria destes países, assim como a perda potencial da sua vantagem competitiva dos preços baixos.

Este é o argumento usado correntemente por países tão grandes quanto a China ou a Índia, mas também pelos países do Leste e do Centro da Europa, como a Polónia e a República Checa.

Existe uma solução parcial para este problema. É o financiamento maciço dos custos de reestruturação das indústrias destes países pelos actuais países mais ricos (Estados Unidos, Europa ocidental). Mas transferências de riqueza como esta - porque é o que isto são - sempre foram impopulares, e tiveram pouco apoio dentro destes países mais ricos. De qualquer forma, isto não altera a perda potencial da vantagem de preços, tão importante para estes países menos ricos.

Eu e você constituímos o coração do terceiro obstáculo. Chama-se consumismo. As pessoas sempre gostaram de consumir. Mas, nos últimos 50 anos, o número de pessoas que podiam consumir para além de um certo nível mínimo de sobrevivência aumentou de forma notável. Se fazemos apelos a pessoas individuais para que consumam menos electricidade ou energia, ou que consumam menos produtos que requerem essa energia, faremos apelos a que consumidores individuais mudem o seu estilo de vida, e de forma significativa. E para aqueles que actualmente não são ricos o suficiente para ter esse consumo, estaremos a pedir-lhes que renunciem a poderosas aspirações para ter acesso ao consumo que lhes foi historicamente negado.

Isto também pode ser resolvido. As pessoas podem reeducar-se umas às outras. As pessoas podem pôr na linha da frente do seu sistema de valores outras coisas que não sejam mais consumo. Todos podemos aceitar a necessidade de ter padrões de vida mais igualitários em todo o mundo, mesmo se para alguns isso possa significar baixar as suas próprias vantagens.

Há 50 anos, os cientistas produziram as primeiras provas de que o consumo de tabaco tinha como consequência um aumento da incidência do cancro. Fazer alguma coisa em relação a isso chocou-se com os mesmos obstáculos encontrados por aqueles que querem fazer hoje algo quanto aos perigos climáticos. Depois de 50 anos, em todo o mundo, o número de fumadores caiu consideravelmente, em parte porque as tabaqueiras foram forçadas, através de processos legais, a reembolsar os custos sociais das suas acções prévias, em parte devido aos indivíduos reeducados, e em parte devido às restrições impostas pelos governos em relações aos locais onde é permitido fumar. Por isso, fica evidente que algo pode ser feito.

Mas dispomos de 50 anos?

Immanuel Wallerstein, 15/3/2007

 
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