O Haiti é aqui. É no Porto. É no Freixo. criar PDF versão para impressão
22-Mar-2007

João Teixeira LopesHá vinte anos que cinquenta ciganos, reunidos em comunidade, viviam naquele terreno, no Freixo, perto do Douro. Há vinte anos que ninguém, incluindo eu, quis deles saber ou ouviu falar neles. Por isso, agradeço ao edil Rui Rio que a sua obstinada visão de uma cidade de futuro lhes desse, finalmente, embora pelas piores razões o devido destaque. Poderia lá ser que, junto ao Palácio do Freixo, futura pousada de luxo do grupo Pestana, um grupo de pobres, míseros e sujos ciganos entornassem tons de miséria na paisagem?

Uma cidade moderna quer-se limpa, selectiva e higienizada! Que diriam os clientes, fechados em seus luxuosos quartos, perante quadro tão atroz? Perderiam o apetite? Teriam vontade de cerrar janelas? Acaso o seu lazer perduraria são e tranquilo? Ciganos roubam. Ciganos assustam. Ciganos - já se sabe como são. A cidade não pode arriscar, corram-se com os ciganos, há que tirá-los dali, não importa para onde vão, não importa de onde vêm, ali é que não ficam por amor aos euros e à privatização de mais um bem - o Palácio do Freixo - que deveria - já agora, ó edil! - ser de usufruto público e bons usos não lhe faltariam.

Mas ciganos são pobres e feios e sujos; ciganos são, como diria o Caetano Veloso, lembrando letra que escreveu a propósito de um massacre no seu país, matéria-prima para despejos e maus tratos, nem que seja "só para mostrar aos outros quase pretos/(e são quase todos pretos)/E aos quase brancos, pobres como pretos/como é que pretos, pobres e mulatos/E quase brancos quase pretos de tão pobres são tratados".

Obrigado, ó meu edil, por me mostrares que gente como tu está no poder, fareja o poder, exerce-o com brio vingativo. E lembro-me do outro, o que diz que os «beirões não batem em mulheres», pois não batem, não, daria um euro por cada carga de porrada. E falo de beirões como falaria de alfacinhas ou tripeiros. Por isso, ó meu edil, lá estamos nós, teimosamente, dançando com os ciganos, esperando o despejo, a polícia, o abandono, lutando com eles e por nós, pela dignidade de existirmos num mundo limpo, numa cidade limpa desse esterco imundo que é o racismo tosco ou brando, a masculinidade boçal dos senhores do PP, a cassete do Sócrates liberal e moderno, mas sobretudo contra toda esta violência de vivermos numa cidade sem repararmos que afinal estamos no Haiti - e só de repente o percebemos, mas a tempo. Felizmente a tempo, de lutarmos a dançar e de dançarmos a lutar.

João Teixeira Lopes

 
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