É pouco provável que Le Pen obtenha um resultado semelhante ao de 2002 criar PDF versão para impressão
29-Mar-2007

lepen1A investigadora Nonna Mayer, do Centro de Investigações Políticas de Ciências Políticas (CEVIPOF), fala sobre a Frente Nacional, nesta entrevista em que analisa a trajectória desta formação de extrema-direita, as características do seu eleitorado e as suas temáticas de campanha.

Desde quando existe a Frente Nacional?

A Frente Nacional foi criada em 1972, por activistas da Ordem Nova, ex-Ocidente. O seu objectivo é reinserir todas as famílias da extrema-direita francesa, dos poujadistas aos partidários da Argélia francesa e aos nostálgicos de Vichy, no jogo parlamentar. O seu modelo é o MSI italiano (Movimento Sociale Italiano), do qual a FN copia o símbolo - a chama com as cores da bandeira nacional (verde/branco/vermelho para a Itália e azul/branco/vermelho para a França). Jean-Marie Le Pen foi chamado a liderar este movimento, porque aparecia na época como o mais "respeitável" e a figura mais consensual da extrema-direita.

Durante dez anos, a FN mantém-se no anonimato mais completo. Qualquer que seja a eleição, os seus candidatos não ultrapassam a fasquia do 1% dos votos expressos. Ainda nas legislativas de 1981, recolhe menos de 100 mil votos. As municipais de 1983 marcam uma viragem. O partido conhece os seus primeiros triunfos em Marselha (5,9% dos votos no primeiro sector), em Roubaix (9,6%), no 20º bairro de Paris, onde a lista de Jean-Marie Le Pen obtém 11,3%. Mas são as eleições municipais parciais de Dreux, a 4 de Setembro, que o retiram do gueto eleitoral. A lista da FN, encabeçada por Jean Pierre Stirbois recolhe 16,7% dos votos no primeiro turno, e funde-se com a lista da UDF-RPR no segundo. A aliança, amplamente mediatizada e controversa, permite à direita bater a esquerda, recolhendo mais de 55% dos sufrágios. Ela dá um começo de legitimidade política à FN, confirmada pelo seu score de 11% de votos expressos nas eleições europeias de 1984, ultrapassando os dois milhões de eleitores. Nas legislativas de 1986, quase chega aos 10% e, graças às mudanças no sistema de escrutínio - passagem do modo de escrutínio maioritário a um escrutínio proporcional - envia 35 deputados à Assembleia Nacional. Com o regresso do escrutínio maioritário nas legislativas de 1988, o mesmo resultado só obtém um eleito.

A regra do escrutínio maioritário penaliza os pequenos partidos e obriga a alianças no segundo turno, alianças das quais, salvo excepção, a FN vai ser excluída. A frase de Jean-Marie Le Pen sobre as câmaras de gás, qualificadas de "detalhe de história da II Guerra Mundial", no Outono de 1987, vai mudar de forma durável a sua imagem. A proporção de franceses que julgam que Le Pen e o seu partido "representam um perigo para a democracia" dispara para 65%, e a partir daí jamais cai abaixo dos 62%.

Entre 1988 e 1998 abre-se uma segunda fase, a da consolidação eleitoral. Na eleição presidencial de 1988, Jean-Marie Le Pen ultrapassa os 4 milhões de eleitores e chega quase aos 15%, ultrapassando-os nas eleições de 1995. Na primeira volta das municipais de 1995, ultrapassa em alguns lugares os 30% dos votos, nomeadamente nos arredores de Paris e na Provença-Alpes-Côte d'Azur e ganha presidências de câmara (mairies) em Toulon, Marignane e Orange, às quais se vêem juntar Vitrolles em Fevereiro de 1977, conquistada por Catherine Mégret numa eleição parcial. Nas legislativas de 1997, depois nas regionais de 1998, pela primeira vez o resultado médio da FN atinge o de Jean-Marie Le Pen nas eleições presidenciais. Graças ao seu delegado geral Bruno Mégret, o movimento, primeiro centrado em torno da personalidade mais mediática do seu líder, torna-se progressivamente num partido político de corpo inteiro, com as suas secções locais, os seus militantes, as suas escolas de formação, as suas organizações satélite. O frentismo está, lentamente, a tomar o lugar do "lepenismo" quando Bruno Mégret entra em dissidência, levando com ele mais da metade dos quadros do partido para criar uma formação concorrente, o MNR (Movimento Nacional Republicano).

A cisão parece quebrar a dinâmica eleitoral da FN. Nas eleições europeias de 1998, só obtém 5,7% dos votos. Nas cantonais e nas municipais de 2001, o total de votos reunidos da FN e do MNR não ultrapassa os 10%. A um mês das eleições presidenciais de 2002, acontece o mesmo com as intenções de voto de Le Pen (10% em Março). E acontece o "sismo" do 21 de Abril. Os resultados acumulados dos dois candidatos de extrema direita chegam quase aos 20% na primeira volta. Le Pen ultrapassa o candidato socialista e qualifica-se para o segundo turno. Este último transforma-se num referendo "anti-Le Pen", e Jacques Chirac é eleito com mais de 82% dos votos expressos. Mas o presidente da FN atrai ainda assim mais de 5,5 milhões de votos. Jamais, desde a II Guerra Mundial, um partido saído das fileiras da extrema-direita tinha obtido um tal resultado.

 

Quem são os eleitores da Frente Nacional?

O eleitor-tipo é um mito. Os apoios da FN renovam-se e diversificam-se em cada eleição. Em 1984, a lista encabeçada por Le Pen faz os seus melhores resultados nas camadas mais ricas e instruídas da população, nos industriais e nos grandes comerciantes, nas profissões liberais, nos católicos praticantes. As categorias que votam tradicionalmente à direita, exasperadas pela chegada dos "socialo-comunistas" ao poder, e que acham Simone Veil, candidata da direita nas europeias, demasiado moderada. A partir de 1986, aqueles voltam ao voto útil, a extrema-direita estende a sua influência às camadas mais populares e desligadas da religião.

Na primeira volta da eleição presidencial de 1988, Le Pen ganha entre os pequenos comerciantes e artesãos inquietos pelo seu futuro, em 1995 consegue votos dos operários desiludidos pela esquerda. Nos anos 70, quanto mais se tinha ligações operárias, porque se era operário, ou que se tinha pais operários, mais se votava à esquerda, em particular na esquerda comunista, considerada como aliança natural do mundo operário. Em 1995, é o voto Le Pen que aumenta com o grau de integração na classe operária, sobretudo entre os mais jovens, disponíveis pela nova oferta política, e que não têm o hábito de votar na esquerda, como os mais velhos. Entretanto, a profissão operária transformou-se, a desindustrialização desestruturou-a, e os partidos de esquerda também mudaram ao chegar ao poder. As ligações entre estes dois mundos distenderam-se, abrindo um espaço à FN. Em 2002, enfim, o voto Le Pen desenvolve-se nos meios rurais agrícolas, ganhos por um sentimento de insegurança. No 21 de Abril, ele disputa em igualdade os agricultores, os patrões, os empregados (22%) e os operários (23%), contra respectivamente 14% e 11% entre os quadros e as profissões intermediárias. E se, em 1995, Le Pen consegue melhores resultados nos jovens, em 2002 é nos séniores, na camada de 50 a 65 anos, que obtém mais votos.

Mas também há constantes. O eleitorado de Le Pen ou da FN distingue-se de todos os outros, qualquer que seja a eleição, por uma visão "etnocêntrica" da sociedade, desconfiada em relação aos "outros", as minorias, os estrangeiros, e uma visão repressiva, securitária. Os lepenistas são sempre os mais numerosos a achar que há "demasiados imigrantes" (97% dos que têm intenção de votar Le Pen contra 59% no conjunto do eleitorado), que as pessoas "em França já não se sentem em casa como antes" (85% contra 51%), e que "é preciso restabelecer a pena de morte" (84% contra 46%). E se estas opiniões baixam lenta mas seguramente no conjunto do eleitorado, elas ficam quase estáveis nos eleitores lepenistas, em contra-corrente. No prolongamento destas atitudes, os eleitores lepenistas distinguem-se sempre também pela importância particular que dão à questão da imigração, seguida pela insegurança.

Esta visão do mundo etnocêntrica e autoritária está igualmente muito ligada ao nível de estudos. O resultado de Le Pen duplica quando se passa de quem tem o segundo grau para quem não tem, e atinge o seu mínimo entre os professores. Os menos diplomados mostram-se mais receptivos à faceta anti-intelectual do seu discurso, que faz dos imigrantes a causa única de todos os problemas e prega a solução forte.

O efeito do diploma junta-se ao do género. As mulheres, qualquer que seja a eleição, mostram-se mais reticentes em relação a Le Pen. Em 2002, se só tivessem votado mulheres, Le Pen teria chegado em terceiro. Em contrapartida, se só os homens tivessem votado, ele teria obtido o primeiro lugar. Podemos distinguir dois tipos de mulheres em particular. As jovens e diplomadas, que não aderem ao discurso retrógrado da FN, que põe em causa as aquisições do feminismo; e as mais velhas, católicas e praticantes, que aderem às vezes às ideias da FN mas que interiorizaram mensagem de tolerância dos Evangelhos, e as condenações repetidas das ideias da FN pelos bispos de França.

Finalmente, observa-se uma fractura constante no seio deste eleitorado, que reúne, em proporção variável segundo a eleição, eleitores mais próximos da direita clássica e eleitores que rejeitam tanto a esquerda quanto a direita, mas preferindo a primeira à segunda. Os "direitistas" são mais instruídos, de mais posses, mais praticantes, mais ligados aos valores tradicionais. Os "que dizem não" vêm mais de meios socialmente e culturalmente desfavorecidos. São mais contestatários. Quatro em cada cinco não têm o segundo grau, dois em três são operários e/ou filhos de operários e reivindicam a pertença à classe operária ou à dos trabalhadores, mais do que às classes médias e superiores. Enquanto que uns e outros pesavam mais ou menos o mesmo no eleitorado lepenista de 1995, em 2002 os direitistas são maioritários (55%).

 

Pode voltar a acontecer em 2007 o que aconteceu em 2002 [quando Le Pen passou ao segundo turno]?

A desilusão em relação à classe política continua. Segundo o Barómetro Político Francês do Cevifop, 59% das pessoas inquiridas em Novembro dizem não ter confiança na esquerda nem na direita para governar. E as violências urbanas de Novembro de 2005, as situações de falta de controlo durante as manifestações anti-CPE de Abril de 2006, os incêndios de autocarros, podem jogar a favor de Jean-Marie Le Pen, assim como o medo do Islão alimentado pelas reacções violentas no mundo muçulmano às caricaturas de Maomé, ou o debate em torno da entrada da Turquia na União Europeia. Mas o contexto é diferente do de 2002, a clivagem esquerda/direita é menos confusa, não estamos a sair de um período de coabitação, é a direita que governa e o menos que se pode dizer é que ela aplicou uma política de direita, multiplicando as leis sobre a insegurança, sobre a imigração. O duelo dos dois candidatos na frente das sondagens, Nicolas Sarkozy e Ségolène Royal, interessa. Os percalços são muitos e os franceses estão atentos a isso. Ninguém tem o sentimento de que o jogo já está fechado. E as sondagens mostram que a preocupação dominante dos franceses é o poder de compra, a insegurança económica, questões em relação às quais a FN não é considerada credível. O sentimento de insegurança ligado à delinquência baixou. E é preciso encarar com precaução as sondagens que dão hoje 17% a Le Pen na eleição de 2007. O Barómetro político francês mostra um núcleo duro de cerca de 7% do eleitorado seguro, sendo os restantes 10% mais voláteis. A campanha só está no início.

A política musculada de Nicolas Sarkozy em relação aos imigrantes, aos sem-papeis, aos jovens dos subúrbios, seduz muitos simpatizantes. Em Outubro passado (barómetro presidencial SOFRES), as intenções de voto em Le Pen passavam de 11%, se o candidato da UMP fosse Nicolas Sarkozy, a 14% se fosse Dominique de Villepin, e 14,5% se fosse Michèle Alliot Marie. Portanto, não é nada seguro que Jean-Marie Le Pen chegue no 22 de Abril de 2007 a um resultado comparável ao de 21 de Abril de 2002, ainda menos que ele esteja presente na segunda volta. 

Leia aqui a entrevista na íntegra (em francês)

 

 
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