E depois do adeus?... criar PDF versão para impressão
27-Mar-2007
anfrea_peniche.jpgHá 32 anos atrás, a multinacional alemã de calçado Rohde instalou-se em Portugal, tendo criado aproximadamente 3000 postos de trabalho.
A sua fábrica de Pinhel encerrou portas em Abril de 2006, lançando no desemprego cerca de 400 pessoas. Um ano depois, o destino parece estar também traçado para os 1300 operários e operárias de Santa Maria da Feira. Quando um país assenta a sua política de desenvolvimento e competitividade económica nos baixos salários e na exploração intensiva de mão-de-obra desqualificada, consegue atrair investimentos. Porém, o destino está traçado à partida. Outros mercados com a mesma política e a mesma oferta surgirão e a empresa, mais ano menos ano, deslocalizará. Assim foi com a Rohde. Roménia, Indonésia, Marrocos e China, em regime de subcontratação, impuseram-se como países mais vantajosos à lógica gananciosa da administração da Rohde e as encomendas, alegadamente, começaram a faltar nas fábricas portuguesas.

Tudo isto somado a uma política de investimentos desastrosos ditou o pedido de insolvência da empresa, por parte dos credores, no seu país de origem.

A história da Rohde não é, pois, diferente da das outras multinacionais. Sabem ao que vêm e sabem quando partir.

A presença da Rohde em Portugal fica marcada não apenas por uma política de baixos salários, mas também por uma gestão autoritária e anacrónica, que o Bloco de Esquerda denunciou vezes sem conta ao longo dos anos, nomeadamente aquando da passagem da Marcha pelo Emprego nesta empresa.

Na Rohde as mulheres ganharam sempre salários mais baixos. Dirigentes sindicais foram perseguidos e despedidos. Quando na fábrica alemã se trabalhavam 39 horas, em Portugal trabalhavam-se 45 horas e a promessa de reduzir uma hora semanal em cada ano até se atingirem as 40 horas rapidamente foi abandonada pela administração da empresa. O horário das 40 horas foi conseguido na Rohde através das lutas e das greves que foram travadas. Na Rohde vivia-se um clima de intimidação constante, com trabalhadoras e trabalhadores a serem postos de «castigo», com exigência de níveis de produtividade humanamente impossíveis de alcançar, que resultavam em processos disciplinares que tinham como único objectivo os despedimentos fáceis e baratos.

A notícia do pedido de insolvência não apanhou ninguém de surpresa. Todos os sinais apontavam nesse sentido. Há muito se comentava que a empresa não ia bem e o atraso no pagamento do salário de Fevereiro confirmava todas as preocupações. Por isso, aquando dos lay-off, o Bloco de Esquerda pediu ao Ministério da Economia que fiscalizasse a empresa, no sentido de conhecer a sua real situação, e interviesse no sentido da sua viabilização e protecção dos postos de trabalho. Mas o Governo fez orelhas moucas e preferiu assinar um lay-off, e outro e mais outro e todos os que a empresa quis. Não é pois de estranhar que o Executivo Sócrates reaja com um encolher de ombros ao anunciado despedimento de 1300 pessoas. Não é, pois, de estranhar que o Governo nunca se tenha preocupado com um plano que viabilizasse a empresa e garantisse os postos de trabalho. Não é, pois, de estranhar que o Governo Sócrates assista descontraidamente ao desaparecimento de mais um sector produtivo em Portugal. Mas Sócrates esquece-se que 1300 postos de trabalho podem significar o aparecimento de uma enorme bolsa de pobreza num dos concelhos do distrito de Aveiro mais afectados pelo desemprego, que tinha já sido fortemente atingido pelos despedimentos da Yasaki Saltano de Ovar. E por isso este desemprego, que é esmagadoramente feminino (confirmando os mais de 60% de desemprego feminino no distrito), configura não apenas um problema de sobrevivência e de sobrevivência com dignidade, mas também um retrocesso nos direitos de cidadania.

Na Rohde trabalham famílias inteiras que já não têm retaguarda social. Trabalham homens e mulheres de meia idade, que toda a vida fizeram sapatos e não têm qualificação profissional para desempenhar outras funções. Trabalham pessoas como todas as outras, que têm filhos e casas para pagar, que têm projectos, mas a quem estas políticas e este encolher de ombros do Governo rouba o direito não só a ter futuro como também as ofende na sua dignidade.

Onde pensa Sócrates que vão arranjar emprego estas 1300 pessoas? De que pensa Sócrates que vivem as pessoas quando se acaba o subsídio de desemprego? E depois do adeus, senhor primeiro-ministro?

Eles partem, mas nós ficamos e connosco ficam as tendinites e o desemprego.

Andrea Peniche

 
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