O nacionalismo "soft" de Nicolas Sarkozy criar PDF versão para impressão
30-Mar-2007

Nicolas SarkozyOs discursos de Nicolas Sarkozy sobre a imigração e a identidade nacional podem ser qualificados de "nacionalistas". Mas trata-se de um nacionalismo "soft" adaptado às leis da democracia televisiva, às quais estamos submetidos hoje.
Texto de Gérard Noiriel, publicado no site mouvements.asso.fr a 29 de Março de 2007
Gérard Noiriel é historiador e publicou recentemente o livro Immigration, antisémitisme et racisme (XIXe-XXe s). Discours publics, humiliations privées (Imigração, anti-semitismo e racismo (séculos XIX e XX). Discursos públicos, humilhações privadas).

Os cinco grandes temas nacionalistas do discurso sarkozista

1. O discurso sarkozista prolonga a tradição nacionalista, em primeiro lugar pelo seu vocabulário. Sem regressar ao termo "escória" que a direita "dura" impôs no decurso dos anos 1930, é preciso recordar que, desde o caso Dreyfus (1), a imigração foi tema de dois grandes tipos de discursos políticos. O primeiro, ancorado à esquerda, privilegia "a integração" enquanto que o segundo, ancorado à direita e à extrema-direita, mobiliza o léxico da "identidade nacional". O vocabulário identitário foi constantemente utilizado pelos partidos conservadores para marcar a sua desconfiança e a sua rejeição dos estrangeiros, vistos como uma "ameaça". Qualquer que seja o domínio considerado, a identidade de um grupo afirma-se sempre, de facto, por oposição aos outros (segundo a lógica do "eles" e "nós"). Por consequência, a associação entre imigração e identidade nacional, que o candidato da UMP propõe institucionalizar de futuro, ao ponto de fazer dela um ministério, não é de forma nenhuma fortuita.

2. A campanha em torno da imigração "escolhida" ilustra um outro tema clássico do nacionalismo francês. Afirmando que a "a política de imigração é a identidade da França em trinta anos" (Le Journal du dimanche de 11/03/2007), Nicolas Sarkozy reactiva um argumento que ilustra a sua concepção de "imigração escolhida". Isto significa que, devido à sua origem ou à sua cultura, certos indivíduos não devem ser acolhidos em França, porque os peritos do ministério do Interior decretaram que eles não se poderiam fundir no "cadinho francês". No período entre as duas guerras, o mesmo tema foi largamente explorado nos discursos que opunham os imigrantes "desejáveis" aos "indesejáveis". Este último termo designava os indivíduos pertencentes a categorias apresentadas como uma ameaça para a nação, devido à sua "raça", porque eram suspeitos de trazer epidemias ou de semear a desordem. No discurso de Poitiers (26 de Janeiro de 2007), Sarkozy aponta claramente o dedo aos novos empestados de hoje. A imigração só é abordada para denunciar os clandestinos, e "os que querem submeter a sua mulher, os que querem praticar a poligamia, a excisão ou o casamento forçado, os que querem impor às suas irmãs a lei dos irmão mais velhos, os que não querem que a sua mulher se vista como deseja".

3. Aborda-se agora a terceira característica do nacionalismo. Consiste em seleccionar os elementos que são objecto de um tratamento jornalístico (mediático) negativo, para traçar o retrato de um grupo que ameaça a identidade nacional. A oposição imigrantes desejáveis/indesejáveis assenta hoje largamente na oposição muçulmanos/não muçulmanos, constantemente alimentada pela actualidade do terrorismo islamista.

4. O prolongamento habitual deste discurso nacional-securitário, é o populismo e a estigmatização dos intelectuais. Esta retórica assenta sempre na mesma lógica. "O povo apoia-me portanto aqueles que me criticam são inimigos do povo". O principal argumento avançado pelo candidato da UMP, para persistir no seu projecto de "ministério da identidade nacional", é que dois terços dos franceses o aprovam. A última sondagem da Comissão consultiva dos direitos do homem mostra que mais ou menos a mesma proporção acha que há muitos estrangeiros em França (Le Monde de 21/03/2007). Contra esta demagogia populista, é preciso recordar que, numa democracia, o facto de uma maioria de cidadãos plebiscitar um determinado discurso político não o torna legítimo. Caso contrário seria preciso rever a história e afirmar que, finalmente, as ideias de Hitler não eram tão más, já que o partido nazi recolheu o maior número de votos nas eleições legislativas de Julho de 1932. Aqueles que recordam esta norma democrática de base são hoje denunciados como fazendo parte dos grupos que ameaçam a identidade nacional. No tempo do caso Dreiyfus, os nacionalistas culparam os "intelectuais" de prejudicar a honra do exército francês. Hoje, a palavra "intelectual" serve para designar os pensadores mediáticos que se juntaram ao campo nacional-securitário. Por isso Nicolas Sarkozy atribui as culpas à "intelligentsia". Afirmando que "a França é o único país em que uma pequena intelligentsia considera que não há direito de falar de identidade nacional" (Vesoul, 13 de Março de 2007), mobiliza o que chama de "retórica da reversão". Ainda que na realidade, os que denunciam este nacionalismo identitário sejam hoje marginalizados do espaço mediático, eles são apresentados como dominantes, que ameaçariam a liberdade de expressão do candidato corajoso que ousa afrontar os tabus!

5. O último elemento que se encontra constantemente na história do nacionalismo francês reside na caução prestada por personalidades pertencentes a instituições profundamente ligadas ao poder de Estado, como a Academia francesa. Na grande página que lhe consagrou recentemente o jornal Le Monde, Pierre Nora afirma também que a identidade nacional está "em crise", nomeadamente devido à "chegada de uma nova imigração, mais difícil de submeter às normas das leis e dos costumes franceses". O director da prestigiosa "Biblioteca das histórias" da Gallimard mostra, por esta frase, o pouco interesse que dá às investigações feitas nos últimos vinte anos pelos historiadores da imigração. Nenhum deles ousaria afirmar de facto que é mais difícil "submeter" os imigrantes de hoje que os de ontem às leis da República. Trata-se de um preconceito que alimenta os estereótipos envolventes. Depois de ter apoiado massivamente o campo anti Dreifus no fim do século XIX, depois de ter acolhido nas suas fileiras, em 1938, o chefe de fila do nacionalismo anti-semita, Charles Maurras, a Academia francesa parece querer continuar hoje a caucionar os discursos mais retrógrados sobre a imigração.

Um nacionalismo soft adaptado aos constrangimentos da democracia televisiva

O eterno retorno do discurso identitário no debate político francês explica-se porque ele foi sempre muito rentável no plano eleitoral. No passado permitiu galvanizar as multidões activando as pulsões chauvinistas que se encontram sempre, em estado latente, numa parte da opinião pública. Nos anos 30, esta demagogia identitária mergulhou a Europa e o mundo na pior das barbáries que a humanidade conheceu desde a sua origem. Por isso, a seguir à Segunda Guerra Mundial, um consenso moral tinha unido todos os democratas na distanciação deste tipo de linguagem, apesar dos lucros eleitorais que deles era possível tirar. Esta regra moral começou a ser ridicularizada no início dos anos 1980 pela Frente Nacional. Foi nesse momento que o tema da "identidade nacional" ressurgiu no debate político francês. Um novo patamar é hoje transposto, já que o próprio candidato da direita republicana retoma por sua iniciativa esta linguagem nacionalista. Dito isto é preciso fugir de anacronismos. A situação política actual não tem praticamente nada a ver com a dos anos 1930 e não estamos de forma nenhuma ameaçados por um regresso do regime de Vichy.

Mais que reactivar incessantemente "este passado que não passa", devemos tentar compreender as formas actuais desta tradição nacionalista. Trata-se de uma linguagem adaptada aos constrangimentos de um espaço público dominado pelas leis dos "media". Não é por acaso que Nicolas Sarkozy anunciou a criação do seu "ministério da identidade nacional" numa intervenção televisiva. O nacionalismo hoje já não é veiculado por militantes de uniforme, que esticam o punho na rua contra os "métèques" (estrangeiros imigrados), mas por pequenas frases divulgadas pelos grandes grupos audiovisuais em todos os lares. Antes de serem lançadas ao público, estas pequenas frases são maduramente reflectidas pelos conselheiros em comunicação, que são os novos técnicos da propaganda política. Este nacionalismo já não se exprime com a ajuda de um discurso explícito, como acontecia dantes, mas com fórmulas que, como os slogans publicitários, têm como objectivo desencadear reflexos nos cidadãos-consumidores. As reacções que os jornalistas recolheram após o anúncio deste "ministério da identidade" mostram que o povo na proporção de 5 por 5 recebeu a mensagem. De facto, chega pronunciar as palavras "identidade nacional" para suscitar comentários do tipo: "Só faltava que os estrangeiros viessem fazer a lei no nosso país!", "Se não estão contentes, que se vão embora para o país deles", etc.

A história mostra que este tipo de reacções existiu sempre numa parte da população francesa e que a rejeição dos novos imigrantes foi constantemente alimentada pela actualidade política (anteontem o anarquista italiano, ontem o comunista judeu, hoje o terrorista islâmico). Mas, como os progressos das tecnologias de propaganda permitem doravante aos empreendedores da identidade activar estes reflexos, sem terem necessidade de assumir um discurso nacionalista explícito, podem acusar os seus adversários de "má fé" e denunciar os "processos de intenção", como o fez recentemente Nicolas Sarkozy. O problema que está colocado a todos os que hoje estão inquietos com estas derivas é saber qual é a maneira mais eficaz de reagir. Os conselheiros de comunicação lançam deliberadamente fórmulas chocantes porque o seu objectivo é "fazer barulho", isto é provocar polémica. Estas fórmulas são testadas antes de serem anunciadas publicamente e só são postas em circulação se as sondagens ad hoc mostrarem que são "bem aceites pela opinião". As reacções negativas (largamente previsíveis) são desde logo integradas no plano de comunicação, porque fortalecem o posicionamento do candidato.

É por isso que penso que não é lançando todos os dias novas petições, que reúnem sempre os mesmos nomes, que se poderá combater eficazmente este género de propaganda. A principal responsabilidade dos (verdadeiros) intelectuais é hoje proceder à "análise concreta da situação concreta" para inventar novas fórmulas de resistência, adaptadas ao mundo em que vivemos.

(1) O caso Dreyfus foi um escândalo político em França no final do século XIX. Alfred Dreyfus, oficial de artilharia judeu no exército francês, foi condenado a prisão perpétua por alta traição (espionagem a favor da Alemanha). Dreyfus era inocente e a acusação baseava-se em documentos falsos, oficiais de alta patente tentaram ocultar o erro e o caso deu lugar a uma onde de nacionalismo e xenofobia. Em 1898, houve um segundo julgamento, mas a sentença manteve-se. O escritor Émile Zola escreveu então J'accuse! (Eu acuso!), uma célebre carta aberta ao Presidente da República francesa, Félix Faure. Émile Zola foi condenado a prisão e teve de fugir para Inglaterra. Dreyfus foi definitivamente reabilitado em 1906, já depois da morte de Zola em 1902. O caso deu lugar a perseguições de judeus e a pilhagens das suas lojas em França e na Argélia. (nota do portal esquerda)

 
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