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30-Mar-2007

sarcoyal A campanha presidencial está bem trancada. Tudo se passa como se estivéssemos condenados a escolher entre o liberalismo de eufemismo da sra. Royal e o liberalismo fulgurante do sr. Sarkozy. Mas nenhum dos dois traz respostas às preocupações dos franceses.

Por Michel Husson, Regards, Março de 2007

 

 

A primeira preocupação diz respeito ao desemprego e ao emprego. Ela é citada por 79% das pessoas inquiridas, uma preocupação que ultrapassa em muito a questão das reformas, da saúde ou do meio ambiente 1. Sobre esta questão, a realidade social é no fim de contas bastante transparente. Todos sabem que os números do desemprego já não reflectem, há muito tempo, a situação de insegurança social que ameaça hoje a maioria dos assalariados deste país. O colectivo "Os outros números do desemprego", que reúne sindicalistas e estatísticos, demonstra-o todos os meses 2.

Os assalariados estão bem colocados para saber que os seus salários só aumentam a conta-gotas. A explosão das remunerações dos dirigentes, das stock options, dos dividendos e outras benesses exprime aos olhos deles a rapacidade sem limites dos que mandam. Eles sabem também que o risco - este "valor dos valores" para os filósofos do Medef (Mouvement des Entreprises de France - Movimento das Empresas de França) - faz tanto parte do seu dia-a-dia quanto a precariedade, que a sra. Parisot associa à vida e ao amor. Eles tomam a teoria que faz do lucro a remuneração do risco pelo que ela é: uma fábula insultuosa 3.

Quando os liberais propõem trabalhar mais para ganhar mais, os assalariados vêem a incoerência desta proposta, porque todo o prolongamento da jornada de trabalho vai contra a criação de novos empregos. Muitos acordos recentes de empresas mostram que se trata na realidade de baixar o salário/hora e não de valorizar mais o trabalho. Esta orientação, que invoca o desafio dos países emergentes, é um impasse. Para alinhar os custos salariais com os destes países, seriam necessárias tamanhas reduções de salários que a economia europeia seria competitiva, mas morta. Enfim, os franceses não querem isto. Numa sondagem recente 4, onde o Ifop pergunta qual é a melhor solução para melhorar o poder de compra, apenas um em cada seis cita o aumento do tempo de trabalho: os mais citados são a redução da TVA (57%) e da fiscalidade sobre os combustíveis (43%), enquanto que "um aumento significativo do salário mínimo/hora" obtém 36% de respostas favoráveis.

Os franceses não têm nenhuma ilusão sobre as "reformas" liberais que implicam pensões reduzidas, serviços públicos privatizados e novos benefícios fiscais para os ricos. Como fazer então para abanar a resignação eleitoral? Não há, evidentemente, resposta-milagre, mas a única forma é insuflar nesta campanha o espírito do Não e da luta contra o CPE. Nos dois casos, foi possível recusar o discurso dominante, recusar a dupla fatalidade, a da Europa obrigatoriamente liberal e a do emprego obrigatoriamente flexível. Por que não estender esta rejeição da Constituição liberal e do contrato de trabalho anti-jovens aos projectos que fazem da globalização capitalista um horizonte inultrapassável?

As margens de manobra para uma outra política são realmente enormes, desde que não se tenha por adquirida a actual repartição da riqueza, uma das piores para os assalariados desde há um século. É economicamente possível aumentar os salários e os mínimos sociais em vez de bloqueá-los, aumentar as contribuições patronais em vez de as reduzir. Um relatório recente 5 acaba de revelar que os apoios públicos às empresas representam 65 mil milhões de euros, ou seja, "a ordem de grandeza das receitas acumuladas do imposto sobre as sociedades e da taxa profissional". Assim, tudo é possível, como diria Sarkozy, até sair da situação apodrecida que nos deixaram mais de 20 anos de política liberal. Só falta obter os meios, e isso passa por uma verdadeira insurreição eleitoral que exprimiria mais uma vez a rejeição da fatalidade. Esta é a tarefa dos candidatos anti-liberais. Possam eles fazê-lo a uma só voz.

 

1 Sondage Sofres, http://www.tns-sofres.com/etudes/pol/290306_preocconso_n.htm

2 http://acdc2007.free.fr

3 Nick Isles, The Risk Myth, The Work Foundation, http://hussonet.free.fr/riskmyth.pdf

4 «Les Français et le pouvoir d'achat», Metro, 26 Janvier 2007, http://gesd.free.fr/pametro.pdf

5 http://hussonet.free.fr/aidaudit.pdf

 

 
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