Polémica na esquerda: A união, mas não a qualquer preço criar PDF versão para impressão
31-Mar-2007
gauche-droiteO texto que se segue é de Daniel Bensaid, dirigente da LCR, e foi publicado numa tribuna no diário  Libération, a 7 de Dezembro de 2006. É uma resposta a um artigo do filósofo Michel Onfray, que publicara um apelo ao entendimento da esquerda anti-liberal. E levanta uma das questões que levou ao fracasso da candidatura única: a falta de acordo em torno de uma eventual coligação  governamental ou parlamentar com o Partido Socialista.

Caro Michel Onfray, para quebrar o mortal círculo vicioso da alternância entre liberalismos de direita e de esquerda, tu empenhas-te, como nós, na luta por um agrupamento unitário na continuidade do "Não" de esquerda ao tratado constitucional europeu. Para atingir este objectivo, é preciso haver boa vontade, mas isso é insuficiente para construir de forma duradoura "um real projecto político alternativo ao liberalismo que direita e esquerda incarnam, sucedendo-se no poder desde Pompidou". É essa mesmo a questão.

Consideras resolvido "o essencial". Se subsistem problemas (sobre os salários, o nuclear, a laicidade, questões internacionais importantes), a discussão poderia sem dúvida prosseguir à luz da experiência comum para chegar às necessárias clarificações. A mala das reivindicações parece assim bem cheia para embarcarmos juntos numa viagem de longo curso. Mas falta um detalhe: a questão das alianças e da relação com as instituições existentes.

Olivier Besancenot e a LCR não fizeram chantagem. Apenas exigimos que seja explicitamente afastada a eventualidade de uma coligação governamental ou parlamentar com um Partido Socialista sintetizado no Mans (em torno da sua maioria do "Sim" no tratado constitucional). Esta exigência parece-te prematura: "Fazer da atitude a adoptar na noite da primeira volta ou na véspera da segunda, uma vez adquirida a vitória, uma pré-condição a qualquer união das esquerdas antiliberais, é pôr o carro à frente dos bois." Vejamos... Não se trata da orientação de voto na segunda volta para derrotar a direita, mas de saber, na hipótese da "vitória adquirida" (qual? Em relação a que programa?), quem governará o país. É a questão central das eleições presidenciais e legislativas. E é de tal maneira evidente que o Partido Socialista - pondo ele também "o carro à frente dos bois"? - põe a questão na ordem do dia das reuniões da esquerda plural recomposta e das negociações bilaterais com os seus parceiros. Quanto mais nos aproximarmos do desfecho presidencial e das eleições legislativas, mais a questão da maioria governamental se tornará incontornável. 

A alternativa que queremos não é exclusivamente eleitoral, e a sua construção não se detém nos idos de Maio. Trata-se de traçar uma via para a frente, durante e depois das grandes noites e madrugadas eleitorais. Se nos deixamos encadear pela promessa de uma outra esquerda, para acabar por engolir o que tu chamas de "sapos do socialismo governamental", mais dura será a queda.

A desilusão poderia, como escreves, alimentar as reacções de descontentamento mais imprevisíveis. A questão das alianças está tão pouco (ou tão mal) clarificada que tu próprio contribuis para a confusão: "A questão é esta: como fazer o máximo peso para inflectir à esquerda uma formação - o Partido Socialista - tentada pelo centro" A questão é de criar uma alternativa ao social-liberalismo ou de "inflectir à esquerda?" Inflectir, foi o que pensou poder fazer o Partido Comunista ao participar do governo Jospin, com o brilhante resultado que se sabe. Se a nossa ambição se limita à linha do Partido Socialista, a alternativa vai transformar-se num lóbi sobre o aparelho dominante. Para "inflectir" eficazmente, por que não inflectir a partir do interior, para além do sim e do não, com o preço de um pesado silêncio sobre as próximas eleições europeias? E por que não do interior de um governo de esquerda plural recomposta? A mala da alternativa teria assim uma alça, mas estaria esvaziada do seu conteúdo, sacrificada no altar do "tudo menos Sarkozy/Le Pen". Na Itália, o "tudo menos Berlusconi" acaba de levar a Refundação Comunista a alinhar-se nas fileiras de Romano Prodi, um dos padrinhos do tratado constitucional. O medo de Sarkozy, a ameaça de Le Pen, o espectro do 21 de Abril de 2002, tudo vai ajudar à chantagem do "voto útil" já na primeira volta. Pretender que a candidatura Segolène "abre uma avenida para a esquerda antiliberal" é bem enganador. És muito imprudente ao ironizar sobre o seu "rosto encantador". Ela vai juntar muitas coisas: uma dose de blairismo, uma nota jaurèsiana (ao ponto de reivindicar a memória de Rosa Luxemburgo, assassinada pelos sociais-democratas alemães!), uma dose securitária de sarkozysmo, uma pitada de ecologia e - porque não? - um gesto de Olivier ou de Arlette para apimentar o prato.

Para manter o rumo da alternativa, é preciso saber onde queremos ir e manter o leme firme. O teu apelo ecuménico a todos os candidatos para uma candidatura antiliberal faz uma menção particular a Olivier, acusado de "incarnar a primeira ocasião de fazer perder a esquerda antiliberal". Deves ter seguido distraidamente as repetidas declarações que ele fez, que são límpidas: se as questões de fundo se resolverem, e não pretendendo representar toda a diversidade da esquerda alternativa, ele não será candidato; se as divergências subsistirem, ele será candidato da LCR. Portanto, ele não é o sexto candidato "disponível" à candidatura. Excesso de clareza e de honestidade? Se esta iniciativa tivesse sido levada a sério e esta honestidade melhor partilhada, os militantes não se encontrariam subitamente numa tormenta previsível, dissimulada até o fim por um consenso de fachada.

"Se o fundo não coloca problemas", escreves, "resta a forma, só a forma." Bom! Justamente, é o fundo que levanta problemas (além disso, dizia um dos nossos mestres, a forma é também o fundo), e não os problemas de pessoas. Se o negamos, chegamos ao espectáculo desastroso de uma conjura de egos, sem clarificação política.

"Falhar seria desiludir"? Evidentemente, mas uma ilusão de unidade construída sobre a areia movediça desabaria à primeira prova séria. Seria desiludir mais ainda. Não basta derrotar Sarkozy e Le Pen eleitoralmente (isso, Ségolène pode fazer, e sem dúvida vai aparecer a muitos como a mais indicada para isso). É preciso também derrotar a política deles. Sem o que, a cada legislatura, de esquerda ou de direita, o saldo será uma subida de Le Pen. Nós vimos de tão longe, que a cada passo em falso, em vez de reforçar a alternativa, podemos comprometê-la mais. Tu diriges a Olivier a velha acusação de já não ter mais mãos, à força de querer mantê-las puras. A política é uma questão de relações de forças e de compromissos. Mas trata-se de encontrar o limite, muitas vezes incerto, entre os compromissos que nos aproximam do objectivo e aqueles, comprometedores, que nos desviam dele. Quanto a ter mãos (e ousar sujá-las), nós seríamos mais as mãos pequenas, a amassar a massa de cada dia, e não mãos intermitentes imaculadas, a votar no domingo e a voltar para casa à espera de um novo domingo eleitoral.

 
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