“Na rua, nas urnas”, texto de Besancenot criar PDF versão para impressão
31-Mar-2007
Olivier BesancenotNicolas Sarkozy pode visitar fábricas, citar Jaurés e Blum e desenvolver muitos esforços para se fazer passar por amigo dos trabalhadores, mas terá dificuldade em mascarar que ele é sobretudo o candidato plebiscitado pelo MEDEF (central patronal francesa). E desde que ele se solte, como o fez na TF1 denunciando os que “matam o carneiro na banheira”, o natural vem ao de cima a galope: é o eleitorado de le Pen que ele adula. Mas só pôde apresentar-se como o candidato do poder de compra – “trabalhar mais para ganhar mais” porque a candidata socialista estava calada sobre as questões sociais.
Texto de Olivier Besancenot, candidato da LCR, nasceu em 1974, é licenciado em história, está a fazer mestrado em história contemporânea e trabalha como carteiro. Em 2002 obteve 4,25% nas eleições presidenciais.
Esperava-se portanto pelo discurso programático de Ségolène Royal. Ela foi obrigada a incluir algumas medidas de esquerda, como a lei contra a violência sobre as mulheres, os cuidados gratuitos para os menores de 16 anos, a construção de habitações sociais. Mas a vontade, igualmente sublinhada, de “reconciliar os franceses com as suas empresas” é inquietante. Subir o salário mínimo para 1500 euros (brutos!) “o mais depressa possível” ou aumentar as reformas “mais baixas” em 5%, é francamente pouco. Tanto mais que ela fugiu às questões quentes: duração da quotização para a reforma, redução do tempo de trabalho, fiscalidade, etc.

Derrotar o MEDEF e a direita? Certamente! Mas para isso é preciso algo diferente da “ordem justa” de Ségolène Royal: medidas de urgência sociais e democráticas, como as propostas pela LCR nesta campanha. E uma repartição da riqueza totalmente diferente. A França é a quinta potência económica do mundo. As empresas do CAC 40 apresentam este ano 80 mil milhões de lucros e os seus patrões ganham cerca de 500 vezes o salário mínimo. Mesmo procurando atingir pouco os privilegiados, é possível aumentar os salários, desenvolver a protecção social e os serviços públicos. Basta fazer exactamente o que fez o patronato há mais de 30 anos… mas ao contrário.

Entre 1978 e 2003, as remunerações dos assalariados foram multiplicados por quatro, os dividendos dos accionistas por dezasseis. Cerca de 170 mil milhões de euros passaram, em cada ano, dos bolsos dos assalariados para o dos patrões. Com este dinheiro, pode-se aumentar em 300 euros (líquido) todos os salários e impor que nenhum rendimento (salários, mínimos sociais, reformas…) seja inferior a 1500 euros (líquido). O patronato queixa-se de “muito Estado”, mas enriquece, sendo cada vez mais subvencionado pelo dinheiro dos nossos impostos, cada vez menos taxado nos lucros e desobrigado das quotizações sociais. Estes brindes representam 65 mil milhões, isto é, um pouco mais que o orçamento da Educação nacional ou a totalidade dos gastos hospitalares. Não haveria “buraco na segurança social” ou “défice das reformas” se os patrões pagassem o que devem, se o desemprego diminuísse. Um aumento geral dos salários de 300 euros, significa 55 mil milhões na segurança social para reformas, subsídios de doença ou subsídios de desemprego! 100 000 desempregados a menos, são mil milhões a mais para a segurança social. Assim pode garantir-se o acesso gratuito aos cuidados para todos e a reforma completa aos 60 anos.

Todos os anos, o Estado gasta 40 mil milhões para reembolsar os juros da dívida aos banqueiros e mais de 47 mil milhões de euros para o orçamento do exército, que engorda os industriais do armamento. Com 53 mil milhões, pode criar-se um milhão de empregos nos serviços públicos para responder às necessidades com a Educação, com o pré-escolar, com a saúde, ou contratar transportes, inspecção de trabalho, investir nas energias renováveis. A França é o país desenvolvido em que a riqueza criada por hora trabalhada é mais importante: 19% mais que nos outros países europeus! Hoje, esta produtividade significa mais sofrimento, mais acidentes de trabalho, mais doenças profissionais. As desigualdades sociais repercutem-se até na esperança de vida: 74 anos para um operário, 81 anos para os quadros superiores.

Em vez de aumentar o desemprego e a precariedade, devemos trabalhar, todas e todos, menos tempo e menos duramente, com redução do tempo de trabalho, sem perda de salário, sem flexibilidade e com contratos correspondentes. Para lutar contra o desemprego e a precariedade, é preciso suprimir a liberdade de despedir: proibir os despedimentos, sejam colectivos ou individuais, e colocar a precariedade fora da lei, impondo o contrato estável (CDI) como único contrato de trabalho. Estas propostas são radicais, mas não irrealizáveis! Elas precisam simplesmente de atacar a lógica do lucro, o poder dos patrões e dos accionistas, redistribuir as riquezas. É esta mensagem que exprime a minha campanha: para isso é preciso certamente votar, mas sobretudo lutar! Para que enfim as nossas vidas venham antes dos lucros deles.

 
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