Cartaz do PNR: Será que o verniz só estalou agora? criar PDF versão para impressão
05-Abr-2007
fachoswebO cartaz do PNR contra os imigrantes é apenas a última etapa de muitas outras já percorridas no culminar de uma estratégia política de há muito traçada pela extrema-direita. O PNR veio não só para recuperar e ressuscitar o legado do salazarismo, mas, mais grave ainda, para reconstruir e recompor os grupos neonazis desestruturados pela dissolução do Movimento de Acção Nacional (cujos crimes o Tribunal Constitucional se recusou a condenar) após os assassinatos de Zé Carvalho e de Alcindo Monteiro, proporcionando-lhes assim uma plataforma de legitimação e de expressão política.
Por Mamadou Ba, do SOS Racismo

Depois do famigerado concurso que, pateticamente, elegeu Salazar - diga-se de passagem, com a preciosa ajuda da televisão pública e de uns pseudointelectuais; após a tentativa de assalto político à direcção da associação de estudantes da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa - uma lógica sequência dos episódios de terrorismo político baseado na ameaça, na intimidação e na coação física e psicológica ocorridos naquele espaço nos últimos anos e a com complacência dos responsáveis da faculdade; isto sem falar das várias manifestações anti-imigração, homófobas e xenófobas "de apoio e defesa aos emigrantes portugueses na África do sul", contra a entrada da Turquia na União Europeia; depois das ameaças de agressões aos ciganos de Coruche, das posições sobre os brasileiros de Vila de Rei, da campanha pelo museu de Santa Comba Dão, sempre protagonizadas em consonância com a Frente Nacional, uma espécie de braço armado do partido de José Pinto Coelho. Evidentemente que, para revelar a sua verdadeira face, o PNR não podia ter escolhido melhor momento, eis mais um acto de xenofobia e racismo.

O PNR alimenta-se desse braço armado, cujo tenente-mor é simplesmente Mário Machado, um criminoso cadastrado e que se tem notabilizado particularmente pela prática de extorsões, agressões, pelas ligações com o tráfico de armas e de droga, etc. Para quem advoga a "pureza" de comportamentos, como pode ter os seus principais responsáveis ligados a este gang de criminosos?

Com o cartaz do PNR (partido que nunca cumpriu os requisitos necessários para a sua legalização, limitando-se a comprar as dívidas de um outro partido e beneficiando outra vez da irresponsabilidade do Tribunal Constitucional), assistimos a um coro de indignação perante o desafio partido para afirmar publicamente a sua verdadeira matriz ideológica política, que consiste na celebração do fascismo e na reclamação e glorificação do nazismo. Em suma, este famoso cartaz resulta de uma longa e bem preparada estratégia política, um claro esforço para salvar o que restava do salazarismo, a estratégia de proporcionar espaço de expressão pública a bandos de criminosos e assassinos do defunto MAN e da bem viva Frente Nacional, para semear no espaço público e político a ideologia do ódio.

Esta declaração da essência do projecto político do PNR não surpreendeu quem sempre esteve atento à cada vez mais incisiva expressão da extrema-direita em Portugal. Mas o que é, de certa forma, incompreensível é a relativa e inexplicável distracção de muita boa gente, alegando quase sempre a sua fraca representação social. Mas o mais chocante ainda, é a hipocrisia dos muitos que, pelas responsabilidades governativas que desempenharam ou que ainda desempenham, só ajudaram a alimentar o discurso anti-imigração, nomeadamente alguns doutos membros deste governo que agora se apressam, como mandam as circunstâncias, a manifestar o seu repúdio e a sua indignação perante a desfaçatez do PNR. Portanto, a indignação de uma boa parte desta gente, mormente membros dos sucessivos governos do PSD, do CDS e do PS, não passa de um cinismo hipócrita. Porque as políticas que têm seguido até agora não fizeram senão instrumentalizar a imigração, alimentar o medo e acentuar a criminalização.

O que é certo é que o governo está a hipotecar o futuro de uma convivência cosmopolita saudável, pelas más soluções para os falsos problemas que associa à imigração e pelos falsos argumentos que invoca para legislar sobre a mesma, cedendo à chantagem da extrema-direita e dando assim provas de uma grande irresponsabilidade. Basear a orientação política, como está a fazer o governo, no pressuposto de que é preciso endurecer a política de imigração, só contribuiu para fragilizar todos os mecanismos que podem conduzir a uma verdadeira inclusão social e fomentar e sustentar uma sociedade cosmopolita e intercultural.

Acreditar numa política repressiva baseada na ideia da Europa fortaleza e procurar ocultar as suas consequências, é um erro que se começa agora a pagar. Para um dos ideólogos do partido do governo e um dos principais arquitectos destas posições, António Vitorino, uma das perguntas que importa colocar é a de saber se, após todos os salamaleques do famoso «fórum de imigração da Gulbenkian», que ele patrocinou, e perante a sua indignação vertida na inverosímel crónica no DN de 30 de Março, ainda continua a achar que «a imigração não é um direito, mas sim, uma oportunidade.»

Porque esta sua asserção consubstancia a mercantilização da imigração e a negação de qualquer direito de liberdade de circulação e de instalação.

Não restam dúvidas de que esta agremiação de criminosos e de patéticos fascistas saudosistas do salazarismo, reagrupados pelo PNR, só alcançará maior visibilidade e legitimidade política se as políticas do governo continuarem a seguir este rumo securitário, de criminalização crescente dos imigrantes, banhado num eurocentrismo racista e xenófobo.

 
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