Eleições no Sindicato dos Bancários: entrevista com lista B (MUDAR) criar PDF versão para impressão
11-Abr-2007

João Pascoal e Sebastião Fagundes, candidatos da lista B"A acção sindical tem que voltar aos locais de trabalho" afirmam Sebastião Fagundes e João Pascoal candidatos da lista B às eleições no Sindicato de Bancários do Sul e Ilhas em entrevista ao número 19 do jornal Esquerda.
A lista B é apresentada pelo movimento
Mudar (Movimento de Unidade, Democracia e Acção Reivindicativa) que concorre também a 18 secretariados distritais, apresentando nas suas listas um total de 420 pessoas candidatas.
Entrevista de Carlos Santos, fotos de André Beja
Aceda aqui ao jornal Esquerda 19 em PDF

No próximo dia 19 de Abril realizam-se eleições no Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas, apresentando-se duas listas candidatas aos corpos gerentes. Para este número do jornal "Esquerda" entrevistámos Sebastião Fagundes e João Pascoal, candidatos a presidente e vice-presidente, respectivamente, da Lista B e do movimento "Mudar".

Quantas listas concorrem a estas eleições?

Sebastião Fagundes (SF) - Duas listas. Para os corpos gerentes há apenas duas listas. A "A" que é da actual direcção, que corresponde ao estado actual do sindicato que é mau, e a B que é a nossa, "Mudar".

A lista A é apoiada pelo PS e pelo PSD?

João Pascoal (JP) - A lista A é constituída por duas tendências sindicais, que são tendências claramente partidárias, os TSS e os TSD, a tendência sindical socialista e a tendência sindical social-democrata, os Trabalhadores Sociais-Democratas. Depois têm também agregado um pequenino grupo de colegas oriundos do MRPP, que também tem acompanhado esta coligação de há sete anos a esta parte. É uma lista resultante da coligação do bloco central político e neste caso sindical, apoiante da direcção da UGT, aliás sustentáculo fundamental para que a UGT sobreviva.

Porque é que vocês se candidatam?

SF - Em primeiro lugar porque entendemos que a situação do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas é má. Como foi dito, este sindicato é o sustentáculo da UGT, anualmente vão 600 000 euros de quotização, só de quotização, para a UGT, é o sustentáculo financeiro daquela organização.

Nós queremos mudar. Não é por acaso também que nos chamamos MUDAR - "Movimento de Unidade, Democracia e Acção Reivindicativa", acção reivindicativa que é uma coisa que não existe no Sindicato dos Bancários [do Sul e Ilhas] nos últimos anos.

"Negoceiam" (entre aspas), sentam-se à mesa com os representantes dos banqueiros e aceitam praticamente tudo o que lhes é posto em cima da mesa, portanto não há nenhuma acção reivindicativa. Esta é uma das razões fundamentais porque nós nos candidatamos: para mudar e restaurar a unidade na classe, nos bancários, e a acção sindical que praticamente é nula.

Não é culpa dos estatutos do sindicato, não quer dizer que os estatutos sejam uma maravilha, mas permitem, se houver interesse político-sindical dos corpos gerentes, desenvolver uma acção sindical, mas eles não desenvolvem.

Uma das coisas que pretendemos, sendo eleitos, é repor no local de trabalho a base da acção sindical. A acção sindical não pode continuar a ser feita em gabinetes, na rua de São José (sede do sindicato), tem que voltar aos locais de trabalho.

A rede de delegados sindicais tem que ser restaurada, os debates e as consultas aos trabalhadores têm que ser o dia a dia da vida sindical e isso hoje não existe. Nós queremos mudar essa situação.

JP - A nossa candidatura, e este nosso movimento, têm a ver com uma prática de inexistência de acção sindical, que a direcção actual tem. A direcção actual, nos últimos sete anos, cada vez mais tem sido uma direcção para chegar a acordos com os banqueiros, acordos que são negativos para a classe bancária, a partir daí surgiu a necessidade de reactivar um sindicalismo reivindicativo. Este nosso movimento representa isso.

Um conjunto de associados com diversas experiências, mesmo a nível de tendências sindicais e a nível partidário, confluíram num movimento para retomar uma acção reivindicativa, uma acção de base e combativa nos sindicatos, neste caso concreto no Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas.

Achei estranho que não haja uma lista apoiada pelo PCP.

SF - Não há. O Partido Comunista Português decidiu formar outro sindicato e, desde há cerca de ano e meio, canaliza toda a sua acção para que os militantes comunistas das ex-listas unitárias participem nesse sindicato, chegando ao ponto de fazerem comunicados a dizer às pessoas para não votarem nestas eleições a 19 de Abril. Quanto a nós esta posição só serve os interesses da direcção ugetista, que está à frente do sindicato. Neste momento há uma alternativa, o MUDAR que tem condições para vencer as eleições. É evidente que com uma abstenção grande mais difícil se torna alcançar o nosso objectivo. Eles formaram um sindicato paralelo e é nesse sindicato que se movimentam, é um sindicato que, neste momento, não tem nenhuma expressão na banca.

Quantos sócios tem esse sindicato?

JP - O novo sindicato tem poucas centenas. O nosso sindicato, o SBSI, tem 50 000 associados.

Só o sindicato do sul e ilhas?

JP - Exactamente. A nível nacional, os três sindicatos que historicamente se encontram interligados, do Sul e Ilhas, do Norte e do Centro, têm em conjunto 70 000 associados, dos quais 50 000 pertencem ao SBSI, que é de longe o maior sindicato. A maior concentração da classe bancária em Portugal é no Sul, na Grande Lisboa.

É um sindicato muito grande, que tem muita estrutura interna, muitas regionais, um sindicato que também gere os serviços de saúde, os SAMS, e por isso trata-se de facto de um sindicato muito importante para os bancários.

Tem além disso talvez o maior índice de sindicalização a nível de Portugal, com uma taxa de sindicalização de cerca de 90%.

Isso tem a ver com a existência dos SAMS?

SF - Sim. Os SAMS são o serviço de saúde dos bancários, são do sindicato, propriedade do sindicato, e têm nos seus regulamentos uma cláusula que estabelece que só podem beneficiar de uma série de regalias os sócios do sindicato. Toda a gente tem acesso aos SAMS, mas para se ter determinadas regalias, nomeadamente apoio de saúde no estrangeiro, questões termais e outras, tem que ser sócio do SBSI. Isto justifica este número de 90%, mais de 90%, que é inédito, e não só no nosso país.

Já agora, para ficarmos com uma ideia clara da situação sindical, a nível dos sindicatos do sector, falámos do SBSI e dos outros dois sindicatos, do Centro e do Norte, mas para além destes já havia um sindicato dos quadros e técnicos. É um sindicato que surgiu há vários anos que sindicaliza os quadros e técnicos, mas mesmo assim o grande sindicato dos quadros e técnicos continua a ser o SBSI, que tem muito mais quadros e técnicos inscritos que o número total de sócios desse sindicato. Há um outro sindicato, o sindicato independente da banca, que é, digamos, um filhote do sindicato dos quadros e técnicos. Agora há o novo sindicato que foi formado pelos comunistas bancários e ainda há um outro sindicato de grupo na Caixa Geral de Depósitos. Neste momento, o espectro sindical não direi que está pulverizado, não se compara com ao que aconteceu por exemplo nos professores, mas há já vários sindicatos na banca, o que prejudica a unidade da classe.

No concreto, quais são os acordos que vocês criticam à direcção do sindicato?

JP - A direcção, esta última, tem sete anos, mas o último mandato foram 4 anos.

Tem dois mandatos.

JP - Exactamente, esta direcção está a acabar o segundo mandato. Eles definiram grandes questões. Uma era a construção de uma federação da banca e dos seguros, uma federação de cúpula que reunia as direcções sem ser construída pela base. Esse projecto foi contestado por nós, precisamente pelo seu carácter de cúpula e porque iria usurpar o poder de negociação colectiva dos sindicatos, nesse sentido iria retirar capacidade aos associados de base de poder influenciar essa mesma negociação colectiva, elegendo novas direcções. Fomos contra, mas houve um congresso, que não teve quórum para decidir e eles não conseguiram implementar a federação que propunham.

Por outro lado, o Estado deve muitos milhões de euros aos SAMS de uma comparticipação a que está obrigado por os SAMS substituírem o Serviço Nacional de Saúde, terem hospitais e terem postos de saúde. Esses milhões de euros estão atrasados um/dois anos e a direcção deste sindicato nunca quis apelar aos bancários para fazerem uma mobilização, por exemplo uma manifestação diante do Ministério das Finanças, que é responsável por esse pagamento. Antes preferiram pedir dinheiro aos bancos para cobrir os problemas de tesouraria. Nós estamos contra essa metodologia, a nossa metodologia é apelar aos trabalhadores, aos sócios para se mobilizarem.

SF - É uma direcção mansa, sem querer ofender ninguém. Desde que se toque no governo, nada feito. Embora estejam lá, por exemplo, membros que seriam opositores do actual governo, estão lá os TSD, mas querem é estar na direcção, de maneira que submetem-se à maioria da tendência socialista e nada de mexer no governo. Esta questão é importante, como foi aqui dito:

Não se faz nada para reaver o dinheiro de comparticipação para os SAMS. Além disso, os SAMS tinham uma farmácia, um posto de venda de medicamentos, que foi encerrado. Esboçaram por lá umas coisas, dizem umas coisas... "Falam, falam, falam... como diz o outro, mas depois na prática não mobilizam os bancários e a farmácia ‘foi à vida'. Nós pensamos que devemos restaurar a farmácia.

Com o IRS, sabemos o que se passou em relação às taxas aplicadas aos reformados, foi uma questão geral. Simplesmente nos bancários havia uma cláusula que estabelecia, foi negociada com esse espírito, que o bancário reformado não deveria receber menos do que o bancário que está no activo. Isso caiu. Nós dissemos atempadamente, talvez em Maio ou Junho, nos órgãos competentes do sindicato: "vai acontecer isto, por causa do orçamento de Estado", "vejam lá, façam pressão"... "Não senhor, não vai acontecer nada, não vai acontecer nada". É claro que já aconteceu. E agora escrevem umas cartas aos senhores ministros, já nem vão sequer à Assembleia da República, vão abafando, vão dizendo que vão fazer, que vão fazer...

O que é certo é que, neste momento, se os reformados estão prejudicados a nível geral, o que é verdade, os reformados bancários estão duplamente prejudicados, com a conivência clara da direcção que os devia defender. Tudo isto deve mudar.

MUDAR concorre aos corpos gerentes do SBSI e a 18 secretariados

O Mudar - Movimento de Unidade, Democracia e Acção Reivindicativa, nasceu em Janeiro de 2003, tendo concorrido pela primeira vez às eleições para a direcção do Sindicato dos Bancários do Sul e Ilhas em Abril de 2003.

Tem como princípios defender um sindicalismo de base e participativo, "um sindicalismo com princípios". Podem ser associados do MUDAR todos os associados nos Sindicatos dos Bancários (Sul e Ilhas, do Centro ou do Norte) que apoiem ou tenham sido candidatos pelo Mudar. O Mudar tem uma declaração de princípios, estatutos e vários órgãos. Realiza um encontro anual, edita um boletim informativo e tem um site na Internet: mudarbancarios.org.

Nas presentes eleições o Mudar para além de concorrer aos corpos gerentes do Sindicatos dos Bancários do Sul e Ilhas, direcção e mesa coordenadora dos órgãos deliberativos centrais, concorre ainda a 18 secretariados sindicais, apresentando um total de 420 pessoas candidatas nas suas listas.

OS 18 secretariados sindicais a que concorrem são de: BBVA, BES, Banco de Portugal, Caixa Geral de Depósitos, Santander-Totta, SIBS, Reformados, Beja, Castelo Branco, Covilhã, Faro, Funchal, Portalegre, Portimão, Santarém, Setúbal, Tomar e Torres Vedras.
 
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