Teatro sem meios criar PDF versão para impressão
31-Mar-2007
natasha_nunes.jpgPassou discreto, como de costume, o dia mundial do Teatro. Discreto quer aqui dizer com umas quantas iniciativas, como aquelas das aberturas do meta-palco ao público, umas quantas sessões com entrada gratuita, algumas leituras de peças. Desde 1962 que a ocasião se celebra, se comemora. Mas recordemos como se obrava o teatro nos idos de 60. Enclausurado, encoberto e censurado. Nos espaços das salas de espectáculos e das salas de estudo, corredores e bares, das universidades das letras, os autores estudados e os textos lidos, as escolhas e as liberdades, estavam cerceadas de restrições e de muros. Com o 25 de Abril as leituras e as representações passaram a puder ser feitas às claras, as escolas de ensino superior frequentadas por muito mais do que o escol rico ou remediado. Existe hoje essa liberdade para que a criação artística ocorra, continuam no entanto a faltar os meios.

Pensemos o que é concreto. Os profissionais do teatro, à semelhança de tantos outros profissionais do espectáculo e dos audiovisuais, não possuem um estatuto próprio legal, não beneficiam de protecção laboral nem social. As fatias do Orçamento de Estado para a área da cultura continuam irrisórias. Os resultados são os atrasos e as suspensões dos subsídios, as companhias entregues à incerteza da prossecução dos seus projectos.

No Porto a Seiva Trupe o Teatro Bruto anunciaram há dias que não têm condições para assegurar mais do que o próximo espectáculo. Em Lisboa os Artistas Unidos, desterrados pelo governo Santana daquilo que foi a Capital, têm andando em apresentações saltitantes em diversas salas, ocuparam uns tempos o Taborda e por enquanto estão nas Mónicas. As Mónicas que já funcionaram enquanto um convento e que já foram uma prisão de mulheres. Nos nossos dias, os cerceamentos implícitos, as chantagens político-financeiras, são ainda uma realidade. A Ministra da Cultura, ocasionalmente, vai manifestando a sua preocupação com o estado das coisas e com estado da arte, mas vontade política para impulsionar a alteração do panorama não se vê. Nem sequer se pressente. Critérios como a isenção na atribuição das verbas, e a atribuição de verbas palpáveis tornam-se urgentes para que criação independente e autónoma possa subsistir.

Em 2004 a mensagem anualmente divulgada a propósito do dia mundial do teatro foi escrita por uma dramaturga egípcia, presa política nos anos 80 e defensora da emancipação da mulher. Fathia El Assal dizia que a mensagem dos dramaturgos pode ajudar as pessoas a erguerem-se acima de si próprias, a libertarem-se das suas frustrações, da exploração, e assim, serem capazes de ganhar um sentido de dignidade e que o teatro é a luz que ilumina o caminho da raça humana. Somos mais decorosos. Ainda não dizemos que o teatro é a luz, mas intuímos que à medida daquilo que tantas outras produções intelectuais e artísticas, cogitadas, desobrigadas e desatadas, é um daqueles archotes que pode alumiar os caminhos nebulosos da contemporaneidade situacionista que vivemos.

Natasha Nunes

 
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