Irlanda: o passado e o futuro criar PDF versão para impressão
29-Mar-2007
renato_soeiro.jpgQuando, na passada segunda-feira, os líderes do Sinn Féin e do Democratic Unionist Party (DUP) se sentaram pela primeira vez face a face no palácio de Stormont em Belfast, todos sentiram o peso enorme deste encontro dos representantes máximos de uma luta secular que marcou violentamente a vida de várias gerações. Todos sabiam também que as memórias desta guerra não se apagarão tão cedo. Não desaparecerão facilmente as cicatrizes nas famílias e nas suas comunidades, nem sequer talvez as marcas nesta cidade ainda cheia de grades, de torres de vigia e de câmaras de filmar, de muros intransponíveis que dividem bairros, que cortam ruas, que separam mesmo em dois o jardim onde crianças brincam e olham as árvores altas de além-muro sem nunca terem visto os rostos das crianças que brincam do outro lado. Em Belfast e por todo o lado, a história sente-se com uma presença pesada e duradoura.

Mas, para além das divisões do passado, os dirigentes compreenderam que os escassos 27 mil votos e 3,9% de percentagem que nas últimas eleições separaram o DUP do Sinn Féin significam que as duas forças políticas estão para ficar, que as populações que neles votaram são realidades incontornáveis que os obrigam a assumir a responsabilidade de dotar esta parte da Irlanda de um parlamento e de um governo próprios, que possam finalmente promover um desenvolvimento que não parece ser possível esperar de decisões tomadas em Londres ou mesmo em Dublin. Numa Europa que esbate as suas barreiras, o contraste do sucesso do "tigre celta" com o atraso que sofrem os seus irmãos do Norte torna-se ainda mais insuportável. É grande a esperança neste novo governo de unidade, que não se limitará ao DUP e ao Sinn Féin, já que os acordos de St. Andrews, como já antes o de Sexta-feira Santa, prevêem a formação do governo a partir de uma aplicação do método de Hondt aos resultados eleitorais.

O mundo inteiro saudou a coragem realista partilhada pelos dois protagonistas desta histórica convergência forçada pela vida. Mas há uma diferença entre Paisley e Adams que foi pouco notada e comentada, e que não será talvez esbatida no futuro mas que, pelo contrário, se poderá tornar cada vez mais evidente e acentuada. Essa diferença chama-se Irlanda. Não do Norte, não do Sul, mas simplesmente Irlanda. O DUP é um partido do Norte, dos 6 condados sob domínio britânico. O Sinn Féin é um partido da Irlanda, dos 6 condados do Norte e dos 26 condados da República, tem uma agenda política para toda a Irlanda e o seu peso político aumenta dos dois lados da linha que marca a fatídica partição da ilha. Para o Sinn Féin, as eleições de Março nos 6 condados foram um momento de um processo eleitoral que continua em Maio ou Junho nos outros 26, com propostas comuns. Propostas para a unificação, é claro, mas também para a economia, para a justiça e a segurança, para os serviços públicos e para a política social de toda a ilha. A prazo, esta marca essencial, que é uma marca histórica presente já nos pioneiros do movimento nacionalista e republicano, poderá fazer toda a diferença.

A participação no governo do Norte não deixará de ser observada com toda a atenção também pelos eleitores da República, a braços com os problemas causados por um desenvolvimento rápido mas profundamente marcado pela desigualdade das soluções neoliberais. No último congresso do Sinn Féin, realizado em Dublin no fim-de-semana anterior às eleições, a grande novidade que atraiu a atenção dos jornalistas foi a presença e a intervenção, pela primeira vez, de dirigentes dos maiores sindicatos e do Irish Congress of Trade Unions, a confederação sindical irlandesa, que até agora frequentavam os congressos do partido trabalhista social-democrata. Hoje, no programa e nas propostas do Sinn Féin, os irlandeses começam a entrever um futuro diferente. An Ireland of equals. Unida, democrática e justa.

Renato Soeiro, Março de 2007

 
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