Drogas: para além do bem e do mal criar PDF versão para impressão
12-Abr-2007

José SoeiroA discussão em torno das "drogas" e da forma como queremos lidar com elas é, geralmente, uma discussão minada e que se presta a todas as confusões. Penso que a pior forma de o fazermos é discutirmos os efeitos de cada substância particular, tomados como essência, para esgrimirmos argumentos ora apocalípticos ora românticos sobre as drogas de que gostamos mais ou menos (do café à heroína, dos tranquilizantes à ganza). A questão, de facto, não me parece ser essa.

Mais do que drogas leves ou duras, existem sobretudo consumos leves e duros, seja de que substância for. É certo, por exemplo, que a Organização Mundial de Saúde defende que a cannabis causa menos dependência física que o álcool ou o tabaco. Mas sabemos também que há quem seja agarrado aos charros - tal como existe gente que é dependente dos comprimidos para dormir.

A história da humanidade incluiu desde sempre o recurso a substâncias psicoactivas e os estados alterados de consciência fazem parte da nossa experiência desde tempos imemoriais. Acontece que cada sociedade vai socializando determinadas drogas, tornando o seu consumo enquadrado culturalmente e, por essa via, criando uma relação com algumas substâncias mais "natural", integrada nos usos e costumes. Assim, estabelecendo um convívio com o produto, generaliza-se um consumo mais consciente, condição indispensável para uma cultura dos limites que é, em si mesmo, o maior preventor do risco. Foi isso que, historicamente, aconteceu entre nós com o álcool ou, no caso dos magrebinos, com a cannabis. Claro que haverá sempre exageros, tal como a susceptibilidade de cada pessoa em relação a cada substância é diferenciada. De resto, também o facto de nós descontextualizarmos determinadas substâncias - sem lhes conhecermos os riscos e sem termos essa cultura da informação e da experiência - faz com que façamos consumos totalmente desajustados: no império czarista o café era ilegal e havia gente que bebia seis litros por dia... Imaginem-se as consequências...

Quando politicamente discutimos este tema, só um mentiroso poderá apresentar soluções milagrosas para "acabar com a droga". Na verdade, as drogas existem, pelo menos, desde que a humanidade existe. Portanto, a verdadeira questão é outra: como queremos nós, colectivamente enquanto sociedade, lidar com estas substâncias?

O proibicionismo, como forma de nos relacionarmos com as drogas, não tem sido solução e tem mesmo agravado o problema. Ele impede, desde logo, a criação de uma cultura dos limites, porque clandestiniza os consumos, censura a informação, esconde o problema, responde com a repressão. Mas traz outros problemas: o proibicionismo é a causa de um tráfico milionário que alimenta redes mafiosas e que faz com que uma substância tão "democratizada" como a marijuana (consumida por uma grande fatia da população, em particular jovens) gere percentagens de lucro na ordem dos 500%. Além disso, ele alimenta uma manipulação criminosa da qualidade das drogas (completamente descontrolada, por exemplo, no que diz respeito aos ácidos) e alimenta - em particular quando falamos de drogas como a heroína - a violência e criminalidade que estão associadas à dependência de uma substância que não se arranja a não ser roubando a família ou assaltando uns carros.

A situação em Portugal, por exemplo no que se refere à cannabis, é extremamente hipócrita: o consumo foi descriminalizado em 2001, mas a perseguição policial aos consumidores mantém-se, e o risco de se ser tomado por traficante é muito grande, já que a quantidade pela qual se pode ser acusado de tráfico é mínima. Ou seja, consumir não é crime, mas comprar e vender ou simplesmente autocultivar já o é, o que gera um enorme paradoxo. Todos conhecemos casos de jovens consumidores conscientes vítimas de certas brigadas policiais que, legitimadas pelo "combate à droga", actuam com violência, acima da lei e normalmente de forma discriminatória: é o pessoal mais pobre e os jovens dos bairros quem mais frequentemente é interpelado e leva uns encontrões à custa da ganza que traz no bolso.

Por tudo isto, mas ainda porque, em termos imediatos, legalizar a cannabis (que tem riscos iguais ou menores para a saúde pública do que outras substâncias legais, como o álcool ou o tabaco) significa um passo fundamental no combate ao problema de saúde pública que é a dependência de "drogas duras" (se quisermos, dos consumos que têm efeitos realmente despersonalizantes), porque permite separar mercados, a Marcha Global da Marijuana é uma iniciativa mais do que pertinente.

Juntando activistas do autocultivo, médicos, investigadores, juristas, estudantes, assistentes sociais, artistas, trabalhadores mais e menos precários numa causa comum, esta Marcha fará com que Lisboa e Porto se juntem no próximo dia 5 de Maio ao roteiro das cidades do mundo que exigem uma outra política para as drogas e que reclamam a legalização da marijuana. É mais do que tempo de pormos os preconceitos de lado e de tirarmos a cabeça da areia.

José Soeiro

 
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