A ameaça transgénica na Ásia criar PDF versão para impressão
20-Abr-2007

arroz_transgenicoSendo a Ásia o continente que mais produz arroz, alimento básico para cerca de três biliões de pessoas, a recente introdução de variedades transgénicas deste cereal motivou a preocupação de muitos activistas, que participaram, no final do mês de Março deste ano, na Semana de Acção pelo Arroz. Os organizadores da iniciativa pretenderam alertar para o perigo que representam as variedades de arroz geneticamente modificado para a agricultura tradicional, sustentando que "através da chamada Revolução Verde, a agricultura corporativa envenenou as pessoas e os campos de arroz com pesticidas e fertilizantes sintéticos, degradou terras de plantio de arroz, destruiu ecossistemas desse grão e debilitou severamente a segurança do cereal como alimento". Os activistas destacam o caso de Bangladesh. Após a introdução de arroz híbrido, as variedades nativas diminuíram de aproximadamente 50 mil para cerca de 1.500.

 

Os 13 países onde foi celebrada a Semana da Acção pelo Arroz, que terminou a 4 de Abril, foram o Bangladesh, Camboja, China, Coreia do Sul, Filipinas, Índia, Indonésia, Japão, Malásia, Nepal, Paquistão, Sri Lanka e Tailândia. "Esta é uma luta pelas pessoas comuns", disse Anne Haslam, porta-voz da ONG Rede de Acção contra os Pesticidas da Ásia e do Pacífico, com sede em Penang, na Malásia, que lidera esta campanha. "Queremos arrecadar um milhão de assinaturas durante a Semana para apoiar o trabalho de agricultores locais", acrescentou.

Estas jornadas são a resposta ao crescente temor de que a agricultura tradicional esteja sob ameaça das variedades de arroz geneticamente modificado, explicou Haslam à IPS. "Em alguns países asiáticos foi detectado arroz transgénico", acrescentou. "Os agronegócios abriram caminho para o arroz híbrido e agora para variedades transgénicas como o Golden, o Bt e o Liberty, que causaram não apenas perdas de variedades fortes, únicas e tradicionais de arroz, mas também a sua contaminação", diz o documento para o qual estão a ser recolhidas assinaturas de adesão. "Os transgénicos somente vão piorar o problema da fome mundial", acrescenta o texto.

A petição também acusa o Instituto Internacional de Pesquisa sobre o Arroz, com sede nas Filipinas, de juntar esforços com empresas do agronegócio para garantir um "controlo corporativo das sementes e da agricultura", o que - afirma - deveria "pertencer por legítimo direito aos que cultivam a terra". O Instituto foi líder na produção de arroz híbrido de alto rendimento na Ásia durante quatro décadas. Nos últimos 10 anos, por exemplo, desenvolveu cerca de 20 variedades híbridas e distribuiu-as por noves países asiáticos, desde a Índia e Bangladesh na Ásia meridional até à Indonésia e ao Vietname no sudeste da Ásia.

Também foi pioneiro da Revolução Verde, entre 1968 e 1981, período em que foram distribuídas sementes de variedades de arroz de alto rendimento para aumentar em 42% a produção. Porém, os activistas pouco se impressionaram com esses êxitos, como assinala a "Declaração do povo para salvar o arroz da Ásia". O documento afirma que, "através da chamada Revolução Verde, a agricultura corporativa envenenou as pessoas e os campos de arroz com pesticidas e fertilizantes sintéticos, degradou terras de plantio de arroz, destruiu ecossistemas desse grão e debilitou severamente a segurança do cereal como alimento".

Os activistas destacam o caso de Bangladesh. Após a introdução de arroz híbrido, as variedades nativas diminuíram de aproximadamente 50 mil para cerca de 1.500. Os participantes do movimento acusam a Revolução Verde de destruir a cultura agrícola tradicional que deu lugar a uma diversidade tão abundante do cereal. A Ásia é o maior produtor deste grão, alimento básico para cerca de três biliões de pessoas. Bangladesh, China, Filipinas, Índia, Indonésia, Tailândia e Vietname lideram a lista das nações produtoras de arroz. A região colhe anualmente perto de 500 milhões de toneladas desse grão, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação (FAO).

A Tailândia é o principal exportador de arroz do mundo: nos últimos anos embarcou para o exterior aproximadamente sete milhões de toneladas anuais, em média, acrescentou a FAO. O Vietname figura em segundo lugar de uma lista que também inclui China, Índia e Paquistão. Porém, a organização ambientalista Greenpeace alertou no início deste ano para as ameaças ao arroz nativo pelo surgimento de variedades transgénicas, desenvolvidas nos Estados Unidos e detectadas em mercados do sudeste deste continente.

A advertência era dirigida ao governo filipino, que decidiu permitir "a importação e venda continuada de arroz geneticamente modificado que, por lei, não pode ser distribuído e comercializado para consumo humano no país". Entre as variedades de arroz assinaladas pelo escritório do sudeste asiático do Greenpeace figuravam as marcas Uncle Sam Texas Long Grain, que "contaminava" os grãos locais "com o organismo geneticamente modificado Bayer LL601". O LL601 é arroz "geneticamente alterado para resistir ao poderoso herbicida glufosinato", e a sua distribuição e consumo humano são "ilegais em todo o mundo, menos nos Estados Unidos", acrescentou.

"Isto é uma ameaça à biodiversidade na região. Mostra que não existe um esforço adequado para revisar e controlar o arroz contaminado dos Estados Unidos que chega aqui", disse Neth Dano, da Rede do Terceiro Mundo. "Os governos ainda não se consciencializaram do perigo que representa o arroz transgénico", afirmou. A campanha de consciencialização de uma semana divulgará a preocupação de agricultores e comunidades da região, que pretendem fechar os campos de arroz dessa área à produção transgénica, acrescentou. "Se as coisas mudam, será muito trágico", ressaltou.

Por Marwaan Macan-Markar, da International Press Service  (Envolverde/ IPS)
29/03/2007

 
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