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13-Abr-2007
natasha_nunes.jpgParece que anda tudo meio louco. Ele é um presidente que quer ser primeiro-ministro e um primeiro-ministro que quer ser presidente. Ele é um presidente cessante que convoca inconstitucionalmente eleições legislativas e um primeiro-ministro cessante que avisa que existem uns tipos que não poderão ganhar essas eleições legislativas. Os ditos delfins da política timorense pareciam estar confiantes no cumprimento dos seus destinos governativos. Agora parecem rezingões. Não é para menos, afinal o mais votado nestas presidenciais de 9 de Abril não foi Ramos-Horta, como se esperava, mas sim Lu-Olu, da Fretilin. Tudo indica que a disputa, na segunda volta de 9 de Maio, será entre os dois. Tudo indica mas ainda nada garante. Com a entrega dos resultados finais da contagem no próximo domingo pode também surgir um pedido de impugnação do sufrágio. A própria CNE admite já que ocorreram várias irregularidades. Pode ser que ainda venhamos a assistir a uma repetição do acto eleitoral. Talvez. Mas enquanto uns brincam às eleições, todos os outros vivem o concreto da vida, que para a esmagadora maioria dos timorenses é dura. Muito dura.

Falamos dos deslocados que encontram nos campos de refugiados a garantia de uma subsistência mínima. Mas falamos também das populações que se mantiveram nas suas terras e cidades e que vivem a insegurança e o sobressalto constantes. E falamos daqueles todos que vêem no quotidiano não o fantasma mas a vivificação do subemprego e desemprego. Um povo não apenas sofrido mas também paupérrimo. A quem Ramos-Horta promete, diz que cumprirá quando chegar à presidência, a isenção de imposto para aqueles que ganhem menos do equivalente a mil euros. Um tanto ou quanto impraticável, se pensarmos que isso abarca a quase totalidade dos timorenses, incluindo altos cargos da administração pública.

Mas pode ser que Ramos-Horta não seja um demagogo. Pode ser que ele seja um visionário. Ele sabe, e nós sabemos, que Timor é, afinal, um país rico. Rico em reservas petrolíferas. E, especulamos nós, talvez ele pense que a solução para a reabilitação da economia timorense possa ser a concessão dessas mesmas reservas a potências estrangeiras. A quem? Eventualmente àqueles que já as tentaram arrebatar. Quiçá.

Depois existem os dados incontornáveis. O relacionamento quase neo-colonialista que a Austrália pratica com as pequenas áreas satélites daquela região do globo. A Austrália que acolheu e patrocinou Ramos-Horta, enquanto professor universitário durante anos. A presença de tropas enviadas pela Austrália para o território. Como diz o outro, um olho no prato, outro no gato. Talvez.

Talvez em Timor, neste momento, esteja em causa muito mais do que uma mera rivalidade entre a nova geração e a velha geração de políticos. Talvez o que esteja em causa seja a opção entre a tentativa da afirmação da independência e da democracia, na economia e na sociedade, ou a proto-capitulação perante a sombra, imediatista e ilusória, do sol de Camberra. Resta-nos confiar no espírito democrático e combativo dos timorenses.

Natasha Nunes

 
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