De Sócrates nada sei se é ! criar PDF versão para impressão
16-Abr-2007
José Maria CardosoDepois de um aturado período de cogitação na procura do momento politicamente apropriado, da melhor encenação televisiva com a conveniente formatação de perguntas que dissimulassem pelas respostas, eis que na Quarta-feira assistimos à amargurada lavagem de carácter do José Sócrates, à vitimização cândida do primeiro-ministro e ao deslindar de um nobre e triunfalista percurso académico. Tudo isto servido com a prepotência de quem considera insinuações, as mais legítimas dúvidas da imprensa e da opinião pública, e que simultaneamente se presta ao vexame de se defender como se de um arguido se tratasse.

Ao bom jeito comercial, próprio do governamentalizado órgão de comunicação escolhido, o desbragado programa teve como intento uma espécie de lixivização do passado e entronização do presente, em que o artífice "tira da cartola" um depurativo elixir composto por manipuladores argumentos, intrincadas peripécias e ardilosas justificações.

Ficamos a saber, que para o primeiro-ministro deste nosso país, reduzido a estas deploráveis discussões de entretém, o substantivo engenheiro não designa uma competência mas sim um rótulo social. Que uma licenciatura não vale pelo reconhecimento de uma aptidão mas pelo título e pela presunção de bem sucedido. Que pouco interessam os meios como se adquire o diploma importa é que nos fins se possa aplicar a etiqueta.

Para enriquecimento intelectual de todos nós, ficamos também a saber, que não é preciso fazer um curso com uma metodologia estruturada, um objecto definido e um percurso sistematizado. Basta juntar "cadeiras" até ao número razoável de 55, misturar temas e adicionar ingredientes numa espécie de omoleta de gemas híbridas cujo produto académico está avalizado pelos reitores da conveniência.

Para estupefacção de todos nós, menos os que por fé, incúria ou interesse não querem enxergar, ficamos ainda a saber, que não é preciso ser um honroso exemplo de postura moral quando exercemos altos cargos públicos e políticos. Pode-se perfeitamente ser igual ao comum chico-espertismo português e aceitar que nos concedam a benesse de criar uma turma especial para especialmente fabricar um "plano de estudos". Admitir como normal e usual que o mesmo professor no mesmo ano seja titular de quatro "cadeiras" em que se está inscrito. Considerar regular e desculpável que os seus documentos oficiais curriculares sejam corrigidos e alterados ao gosto das revelações públicas. Apreciar como prestigiante um curso em estabelecimento não reconhecido pela Ordem profissional e cuja avaliação de uma comissão externa, apontava várias criticas cientificas ao corpo docente, várias deficiências aos equipamentos existentes, várias anomalias no processo de recrutamento dos alunos e à certificação de equivalências. Pactuar com a proveitosa resignação de que se a Universidade manda eu cumpro porque assim vou "estudar" nas proximidades da minha residência.  

Como cada vez mais em televisão o que importa é parecer, esta entrevista foi aquilo que parecia inacreditável que pudesse ser. Ver um primeiro-ministro, de um país que almeja ser desenvolvido, exibir diplomas de habilitações académicas num programa televisivo é, no mínimo, aceitar a desconfiança da palavra que se esvaiu de honra. É justificar a indignidade da postura pela prova da certificação. É fazer-se julgar pelo entorpecimento populista que invoca o sentimentalismo do juro que subi na vida à custa do pulso firme e musculado que enfrenta a adversidade e derruba barreiras.

Mesmo sabendo que este senhor continuará como primeiro-ministro nos próximos dois anos, queria dizer ao licenciado em Engenharia, José Sócrates, que nem todos os portugueses consideram admissível que um 1º ministro saia incólume deste rol de indignos atropelos de carácter. A atitude é, pelo menos, duvidosa. A confiança pessoal está, pelo menos, quebrada. A postura politica será, pelo menos, amolgada.

Sr. primeiro-ministro, não basta ser sincero, integro e crível, é também preciso parecê-lo para não deixar dúvidas sobre o que se é. Neste caso, parece-me, que não só não foi como não pareceu ser.

José Maria Cardoso

 
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