Europa, 2057 criar PDF versão para impressão
20-Abr-2007
immanuel_wallerstein.jpgA União Europeia (UE) acabou de comemorar o seu quinto aniversário, marcado a partir da assinatura dos Tratados de Roma em 25 de Março de 1957. Apenas um dos signatários daquele tratado, o francês Maurice Faure, ainda é vivo, e pareceu um pouco desanimado em relação à situação da Europa. A manchete desse dia do Le Monde falava de "morosidade" e a do International Herald-Tribune de "desassossego". A causa imediata deste tão pouco festivo aniversário foi a rejeição do tratado constitucional europeu pela França e a Holanda nos referendos de 2005. A chanceler Angela Merkel, da Alemanha, que é actualmente a presidência da UE, procurou dar um ar positivo às coisas, convidou os Estados-membro a Berlim para o aniversário, e induziu-os a adoptar uma proposta de certa forma ambígua para a renovação das negociações de futuros passos em frente. A questão hoje é com o quê se pode parecer a Europa nos próximos 50 anos - em 2057.

Entre o pesadelo e a melancolia dos média e dos políticos, o Harris Interactive anunciou os resultados de uma sondagem de opinião pública sobre a Europa de 2057, feita em cinco nações da Europa ocidental (França, Grã-Bretanha, Alemanha, Itália e Espanha) e nos Estados Unidos. A sondagem trouxe algumas surpresas. Quase toda a gente teve a certeza de que a UE ainda estará a funcionar em 2057, e que o euro terá passado a ser a moeda padrão. Apenas um terço achou que as relações da Europa com os Estados Unidos terão melhorado.

Mas os resultados mais surpreendentes vieram quando os entrevistados responderam sobre a expansão da UE. De um terço a metade (dependendo do país) acharam que a Rússia será parte da União Europeia (algo que de momento quase ninguém defende), e mostraram até mesmo expectativas de que a Turquia se torne membro (algo que é hoje muito controverso). Dadas as tagarelices políticas nos últimos dias sobre quão má ideia isso seria, parece que os europeus, no seu papel de previsores do futuro, não concordam, ou pelo menos esperam outros resultados.

O que esta contradição revela é a diferença entre política e geopolítica. Política é fundamentalmente a interacção imediata de múltiplos actores na arena política, reflectindo as suas preocupações de curto prazo. Nesta perspectiva, poderia dizer-se que a Europa está abalada. Mas a geopolítica dedica-se às tendências que condicionam os agentes de curto-prazo, e que reflectem interesses de longo prazo. Muito poucas pessoas, e certamente muito poucos políticos, têm compreensões/preferências/opiniões geopolíticas. As tendências geopolíticas envolvem muitas pessoas sem que elas se dêem conta disso.

O grupo que se reuniu em Roma em Março de 1957 era excepcional pelo facto de que tinha uma visão geopolítica, e até agora foram largamente justificados pela realidade das tendências históricas. A chanceler Merkel tem tentado persuadir os seus colegas chefes de governo a olhar para a Europa numa perspectiva geopolítica, mais próxima das expectativas dos europeus ocidentais, tais como se reflectem nos resultados da sondagem.

Que tipo de Europa veremos provavelmente em 2057? Há três elementos principais em qualquer resposta a esta pergunta. Primeiro, dado o forte declínio dos Estados Unidos, estamos a viver a criação de um sistema-mundo verdadeiramente multipolar. A questão para a Europa é saber se pode competir - economicamente, politicamente, culturalmente - não com os Estados Unidos, mas sim com a Ásia oriental. Isto depende em parte de saber se a Ásia oriental (China, Japão e Coreia) se vai unir de forma significativa. Mas também depende de a Europa ser capaz de criar uma estrutura politicamente mais coesa e, acima de tudo, se vai incluir nela tanto a Rússia quanto a Turquia.

A segunda consideração é se a Europa vai ser ou não capaz de deixar de ser um continente cristão para se transformar num continente multirreligioso. O Papa Benedito XV assumiu como primeira prioridade da Igreja Católica a "recristianização" da Europa. Ele atribui o "perigoso individualismo" europeu à sua histórica "secularização". A Europa, diz ele, está a "resvalar para a apostasia" e a "perder fé no seu próprio futuro", o que, na sua definição, é um verdadeiro "colapso cultural".

As tendências geopolíticas não parecem reflectir os desejos do Papa. A percentagem de muçulmanos cresce todos os dias, e o número de cristãos praticantes diminui diariamente. Será que o Papa tem razão - que isto implica o "colapso cultural" da Europa? Ou pode a Europa desenvolver uma nova, poderosa cultura, que na verdade seja um produto da sua recomposição demográfica? A resposta permanece em aberto.

E, finalmente, será a Europa de 2057 uma ilha de relativa estabilidade interna, ou uma zona de agudo conflito interno? Esta é a questão social - até que ponto a Europa será capaz de contrariar a crescente polarização interna causada pelas pressões neoliberais. Até agora, a Europa tem sido relativamente resistente aos apelos para desmantelar as suas políticas de Estado de bem-estar social. Mas as pressões estão a crescer, não a diminuir. Uma Europa neoliberal dificilmente será uma Europa tranquila. Num sistema-mundo em crise estrutural, pode a Europa desempenhar um papel de força positiva de transformação? Esta questão também permanece em aberto. 

Immanuel Wallerstein, 15/4/2007

 
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